De filósofo e louco, todo mundo tem um pouco


DE FILÓSOFO E LOUCO, TODO MUNDO TEM UM POUCO

Extratos do livro
O FILÓSOFO PEREGRINO, DE LONDRES A ROMA A PÊ - 2.000KM NA VIA FRANCÍGENA
EDITORA RECORD

Há 10 anos eu começava essa jornada que me marcaria de modos imprevisíveis. Em comemoração, pretendo publicar nos próximos dias algumas passagens do livro, especialmente selecionadas.

* * *

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
FERNANDO TEIXEIRA DE ANDRADE

Desde que me lembro, sempre tive uma vocação “aventureira”. Quando criança — e como quase toda criança —, minhas aventuras eram subir em muros e telhados, pegar minha bicicleta e explorar os bairros vizinhos, entrar e sair sorrateiramente de lugares “proibidos” apenas para sentir aquela “adrenalina” (que minha mãe não leia estas linhas!).

Mas essa curiosidade, essa vontade de explorar novos lugares e sensações, nunca realmente me abandonou; ao contrário, ficou mais viva à medida que os anos passaram. Assim, dos telhados e árvores, passei ao bungee jumping, rapel e paraquedas — e, saindo do bairro, quis conhecer o mundo.

Muito por conta dessa “inquietude”, tive (tenho!) sérias dificuldades em me Flagsfixar por muito tempo no mesmo lugar. Se até meus 20 anos vivi em apenas dois lugares e na mesma cidade (Salvador), hoje “coleciono” mais de trinta endereços diferentes em oito países: Brasil, Inglaterra, França, Estados Unidos, Itália, Espanha, Alemanha e Canadá. Essa necessidade de me mover, de me mudar, é parte de quem eu sou e não sei viver de outro modo. Com esse traço marcante de personalidade, nada mais natural para mim do que alternar projetos e mudar de ares de tempos em tempos.

Assim, depois da graduação em Filosofia (em São Paulo) e mestrado em Psicanálise (em Paris), decidi experimentar a aventura de atravessar um país a pé e andar da fronteira da França até Santiago de Compostela, e de lá até o oceano Atlântico, numa aventura que me consumiu 36 dias e um par de botas.

Voltei ainda uma vez aos estudos, desta vez para fazer o doutorado, e desde o princípio comecei a flertar com a ideia de empreender outra grande caminhada.

Não querendo, porém, repetir o trajeto espanhol até Santiago, decidi caminhar de Londres a Atenas, numa espécie de homenagem aos berços da filosofia analítica (minha área de especialização) e da filosofia em geral.__CS

Ao pesquisar, contudo, o melhor meio de fazê-lo, descobri a existência de outra via de peregrinação, não menos antiga, porém bem menos famosa, chamada Via Francígena (via dos francos ou estrada através da França, então também conhecida como Via Romea, por ter Roma como seu principal ponto de destino).

Como via de peregrinação, a Via Francígena remonta pelo menos ao século X — Sigeric, então arcebispo de Canterbury (Cantuária), registrou as etapas de seu percurso na volta de Roma, aonde fora prestar tributo ao papa João XV e pegar seu pálio, uma estola branca bordada, símbolo de sua ordenação como arcebispo. Sigeric manteve um registro de sua viagem de regresso, feita em 990 d.C., e as etapas de seu diário se tornaram os pontos de referência dessa rota.

Como parte da ampla e complexa malha viária romana, porém, devemos buscar as origens da Via Francígena em tempos bem mais remotos, cerca de mil anos antes. De fato, depois que Cláudio César liderou a segunda invasão romana da Grã-Bretanha, em 43 d.C., uma rede de estradas foi construída para conectar Roma à província de Britânia.1a-VF - capa

A Via Francígena era então a espinha dorsal do sistema viário romano, tendo grande relevância tanto comercial quanto militar, uma vez que representava o caminho mais curto entre o mar do Norte e Roma. Com efeito, diferentemente de outras civilizações mediterrâneas que baseavam seu desenvolvimento quase que unicamente a partir de seus portos, os romanos investiram fortemente no intercâmbio terrestre, o que permitiu uma expansão mercantil sem precedentes entre as diferentes regiões do império. No auge de sua expansão, e aí também incluídas todas as vias secundárias de menor qualidade, calcula-se que a malha viária romana tenha atingido cerca de 150 mil quilômetros, culminando no ditado popular: “Todas as estradas levam a Roma.”

Com o declínio do Império, a Reforma Protestante e outras importantes mudanças no cenário geopolítico europeu durante a Idade Média, partes da Via caíram em desuso, enquanto outras partes foram absorvidas pelas respectivas estradas locais.

A Via Francígena foi “redescoberta” em 1985, quando pela primeira vez — em quase um milênio — o itinerário de Sigeric foiParthenon refeito e remapeado pelo arqueólogo italiano Giovanni Caselli, o que lhe permitiu adquirir, nove anos mais tarde, em 1994, o status de “Itinerário Cultural Europeu”. O trajeto completo foi dividido em 80 etapas, cortando quatro países — Inglaterra, França, Suíça e Itália — e se estendendo por apro- ximadamente 2 mil quilômetros. Achei perfeito. Pretexto por pretexto, agora tinha um roteiro bem mais organizado. Inverti então o trajeto de Sigeric e parti de Canterbury em direção a Roma. De qualquer modo, se isso não me satisfizesse, sempre poderia continuar até o Partenon…

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O FILÓSOFO PEREGRINO – Marcos Bulcão – 376 páginas – Editora Record

Quatro países, 77 cidades, 86 dias e 2.065 quilômetros percorridos… a pé. Esse foi o desafio a que o filósofo Marcos Bulcão se propôs quando decidiu percorrer sozinho a Via Francígena, uma rota de peregrinação europeia até hoje pouco conhecida e explorada, que liga Canterbury, na Inglaterra, a Roma, na Itália, atravessando ainda a França e os Alpes suíços.

VF_capaOs números impressionantes expressam, de forma objetiva, a grandeza da viagem narrada neste livro. Filósofo por formação e, o que poderia parecer paradoxal, ao mesmo tempo apaixonado por esportes (incluindo os radicais), Marcos Bulcão buscava, após a conclusão do doutorado em filosofia, empreender uma grande caminhada aos moldes do Caminho de Santiago de Compostela, que realizara anos antes.

O filósofo peregrino é o resultado final deste incrível projeto. Ilustrado com muitos mapas e belíssimas fotografias das regiões visitadas, traz ainda dicas sobre a preparação física e logística, sobre o investimento financeiro e os equipamentos necessários à viagem. Com uma narrativa saborosa, repleta de curiosidades históricas e culturais, esta obra nos deleita com os relatos de um peregrino interessado em testar seus limites a fim de conhecer o mundo, as pessoas e suas histórias; de um filósofo em busca do entendimento a respeito da vida e de si próprio; e, finalmente, de um autor disposto a compartilhar com os leitores o resultado de tantas e tão maravilhosas descobertas.

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4 responses to “De filósofo e louco, todo mundo tem um pouco

  1. Estou mega feliz, encontrei seu livro na SARAIVA e comprei, vou me deliciar com a leitura.
    Como eu faço, quero continuar seguindo seu Bog, vou viajar e resolvi cancelar minha assinatura na UOL e passar usar a do gmail, exclusivamente.
    Um abraço.

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  2. Marcos, você escreve bem, uma leveza incrível e me deixa aborrecida quando o texto acaba. Identifico-me com você e sua peregrinação. Enquanto morei com meus pais, só tive duas residências, em uma das quais fomos vizinhos e a partir daí, segundo minha irmã mais de trinta, fora de Salvador só duas, porém dentro do Estado, mas agora aos 63 anos inicio a internacional, meu filho às vésperas de completar 35 anos é o meu maior incentivador, mesmo longe vou continuar lhe acompanhando. Outro ponto que nos aproxima é a Filosofia, apesar de psicóloga, esta é a fonte que me sustenta, um abraço.

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