2.000km a pé na Via Francígena — A (re)invenção de si mesmo (ABACS 2015)


convite_abacs 2.000km A PÉ NA VIA FRANCÍGENA

A (RE)INVENÇÃO DE SI MESMO

 .  Por Marcos Bulcão

Salvador, 07 de março de 2015

Santiago Bahia – ABACS

http://www.abacs.com.br;

https://www.facebook.com/santiagobahia.abacs?fref=ts

 

 

VF_capaBom dia a todos, eu vou falar hoje um pouco sobre meu livro, sobre essa aventura que foi ir de Londres até Roma a pé.

Queria antes agradecer ao Ancelmo Rocha e ao Luciano Borges pelo convite e, claro, a vocês pela presença aqui hoje, nessa manhã de sábado.

 

Quando eu fiz o Caminho de Santiago, no já distante 1998, um diálogo em particular me marcou. Acho que faltavam uns dois dias para a chegada a Santiago e estávamos todos compartilhando quão incrível havia sido o percurso até ali, e então notei que a mulher que estava ao meu lado não parecia tão sintonizada com o resto do grupo.

Como se adivinhasse que ela queria falar algo, me virei pra ela e ela então me perguntou, num tom de voz bem baixo, como se não quisesse que os outros ouvissem, ou até mesmo como se estivesse com vergonha do que ia perguntar.

– Me diga uma coisa, você encontrou o que buscava nessa peregrinação? Quer dizer, porque eu ouço todo mundo dizendo quão mágico foi o caminho, mas eu não senti essa “magia” toda, não tive nenhuma “iluminação”. E você?

  • Eu disse, olha eu não diria exatamente que eu me “iluminei” durante o caminho, mas posso te dizer que, sim, que essa experiência mexeu profundamente comigo e que me sinto diferente agora do que me sentia 30 dias atrás.
  • 30 dias, você saiu da França, de Saint-Jean?
  • Sim, e você?
  • Não, eu saí do Cebreiro, faz uns 7 dias.

Fomos interrompidos nesse momento, mas continuei o diálogo em minha cabeça:

  • É isso, claro, estava explicado. Ela estava na estrada havia apenas uma semana. Possivelmente ela não se deu conta que a “magia” do caminho talvez não esteja tanto na rota em si, talvez nem mesmo no número de quilômetros caminhados, mas no tempo que passamos nela.

Tempo – eu acredito – é a palavra-chave, fundamental. Tempo e, possivelmente, algum isolamento.

* * *

Esse insight me veio na hora, quase instantaneamente, porque a imagem que me veio logo à mente foi a do primeiro dia de viagem, quando saí de Saint-Jean e fui até Roncevalles.

__CSNaquele primeiro dia, eu cometi dois erros que eu recomendo que se tente evitar.

Saindo tarde de Saint-Jean e mesmo tendo sido aconselhado a dividir a primeira etapa em duas e parar em Valcarlos, eu, com aquela ansiedade típica do primeiro dia de deixar quilômetros atrás de mim, decidi ir mesmo assim até Roncevalles.

Bem, pra resumir a história, o dia foi realmente espetacular, com todos os elementos de aventura que eu tanto buscava, com trilhas em meio a bosques e florestas, dificuldades de sinalização, cachorro bravio e suspense se conseguiria chegar antes de escurecer.

Cheguei. Absolutamente extenuado, mas cheguei. Mas não sem um “batismo” final.

No meio do banho revigorador, ainda com xampu na cabeça, a água quente acabou. Já era final de outubro e fazia algum frio. Terminei o banho como pude e me pus debaixo das cobertas. Não adiantou. Não sei se pelo esforço, pela circunstância, sei que tremi por tempo o bastante para pensar em desistir imediatamente.

– “Não, eu não poderia aguentar isso por mais 30 dias, isso era desumano” e todos os outros pensamentos que passam em sua cabeça quando atingimos nosso limite.

Me acalmei nos minutos seguintes, claro, e disse pra mim mesmo. “Não preciso desistir, muitas outras pessoas fizeram isso antes de mim, eu posso também”…

* * *

Eu conto esse episódio pra enfatizar o fator tempo entrando em ação, entrando em nossas mentes e dando uma dimensão completamente diferente a um evento que, em outras circunstâncias, poderia ser trivial.

Pra mim, o desespero e impotência sentidos naquele momento estava na frase – eu não tenho condições de aguentar mais 30 dias como esse… Já se fossem apenas sete…

Estava então explicado por que aquela peregrina em particular não havia sentido a “magia” do caminho.

Em apenas sete dias, ela não contava com o fator tempo para que suas vivências ganhassem a intensidade necessária para que ela se sentisse “transformada”.

Em sete dias, o destino final está perto demais para que aquela dor sirva de teste para seus limites, para que aquele pensamento seja pensado e repensado dezenas de vezes, para que aquele problema seja reformulado outras tantas vezes, para que aquelas partes mais silenciosas de si mesmo possam encontrar alguma voz.

009_Orbe_estabulo

Fazenda em Orbe (Suíça)

Tempo.

Não são os quilômetros que fazem essa jornada especialmente difícil ou transformadora. É o fator tempo. O tempo que você passa na estrada. O tempo que você passa isolado, desconectado de seus principais arrimos e pontos de apoio.

Tempo e desconexão: eis o que – acredito – torna a experiência de uma peregrinação mais ou menos marcante.

País, pais, família, amigos, esposa/namorada. A língua, a cultura. Saia desse ambiente seguro, dessa zona de conforto por algum tempo e veja o que acontece. Dispa-se dessas roupas que nos “aquecem” no dia a dia e observe a transformação. Mas para essa transformação acontecer, é preciso tempo.

* * *

Por isso que quando alguém exclama pra mim

  • “Poxa, você andou 2.000km? Séeeerio?”…

Eu sempre respondo… O problema não são os 2.000km, são os três meses

Depois de duas semanas, praticamente todos estão fisicamente preparados para andar mais 500, 2.000, 10.000km. Mas quem consegue ficar tanto tempo desconectado?

P_pissevache_IMAGEM 196

Cascade Pissevache (Suíça)

Por isso, se aquele diálogo fosse continuado, eu diria a ela… Na próxima vez, não ande 7 dias, ande 30… não ande acompanhada, ande só. Talvez aí você encontre a “magia” ou algumas das respostas que procura. E se 30 dias não forem suficientes, tente 3 meses!

* * *

Bem, quando fiz o Caminho de Santiago, 800km foram suficientes para mexer com minhas ideias, para encontrar por exemplo a força necessária para tomar algumas decisões bem difíceis.

P_nascente_IMAGEM 131B

Nascente do rio La Loue

Naquela época, eu tinha acabado de defender meu mestrado, mas queria descontinuar minha pesquisa em psicanálise e fazer o doutorado em filosofia por conta de uma ideia absolutamente genial, uma ideia que iria revolucionar a filosofia para sempre!

Sério, a ideia era realmente genial, mas era aquele tipo de ideia que normalmente só se tem ou quando se é muito jovem ou quando se está no meio daquela insônia interminável.

Pois é, como eu ainda sou muito jovem e tenho muita insônia, façam as contas de quantas ideias geniais e revolucionárias eu tenho por ano!

Claro que hoje eu estou bem mais sábio, hoje pelo menos eu já sei que devo esperar amanhecer antes de telefonar para meus amigos dizendo como eu posso solucionar o problema da fome no mundo ou o conflito no Oriente Médio.

É realmente incrível como de manhã essas ideias já não parecem mais tão geniais…

Lac Leman_Chateau Chillon

Chateau de Chillon, Lac Léman

Enfim, a verdade é que se depois do mestrado eu estava meio confuso e precisava de um tempo para recolocar os pensamentos em ordem, depois do doutorado minha cabeça estava um completo caos, com tantos questionamentos em relação a tantas coisas que eu sabia que 800km não seriam suficientes! Eu precisava de algo maior, de um desafio à altura da minha crise.

Eu pensei então – Vou andar de Londres até Atenas. Londres porque é uma cidade que eu amo, onde tenho muitos amigos. Atenas porque é o berço da filosofia.

Foi então, ao pesquisar o melhor meio de realizar esse trajeto que eu descobri a Via Francígena. Não ia de Londres até Atenas, com seus 3.000km, é verdade, mas eu pensei que andar até Roma já seria chão o bastante. E foi.

* * *

Two roads…

Minha crise, para a maioria das pessoas que me cercava, era daquelas “crises invisíveis”. Muita gente nem suspeitou.

Recém-doutor, bom currículo, amplas/ótimas perspectivas de futuro.

P_IMAGEM 133

Pontarlier (França)

Mas muita coisa aconteceu durante o doutorado e, ao final dele, eu já não me enxergava tanto na vida acadêmica, excessivamente “autofágica”, voltada para si mesmo, e, na prática, desconectada das pessoas leigas, comuns…

Eu pensava: Mas não era a filosofia que nos devia dar respostas sobre como podemos viver melhor?

De outro lado, essa crise servia como pano de fundo poderoso para uma série de outras questões que nunca realmente me abandonaram.

Que tipo de vida eu queria levar afinal?

Uma vida inteiramente dedicada à carreira, colhendo reconhecimento, sucesso, dinheiro? Ou uma vida menos convencional e mais livre, andarilha, nômade, sem apego a bens ou propriedades ou outras métricas comuns de sucesso social?

 

Como no famoso poema de Robert Frost, The Road Not Taken:

003_Two_roadsNum bosque, duas estradas se bifurcavam

E igualmente boas elas pareciam naquele momento

Mas qual escolher, que rumo tomar?

Porque nem sempre os caminhos voltam a se encontrar

Nem sempre podemos deixar a outra trilha para percorrer num outro dia

(poema original: http://www.bartleby.com/119/1.html)

Família, carreira, reconhecimento, dinheiro, estabilidade?

Nomadismo, anonimato, liberdade de movimento?

Como conciliar tantos desejos diferentes, tantas facetas diferentes?

Que tipo de vida escolher, que lado de mim privilegiar?

 

Pra completar o dilema, depois da defesa do doutorado, eu estava realmente numa posição privilegiada de poder escolher.

Durante o doutorado, eu tinha desenvolvido um sistema matemático de aplicação na bolsa, então a liberdade naquele momento parecia tão grande quanto possível.

P_trilha nascente La Loue

Trilha pra nascente do rio La Loue

Mas será que se é realmente livre sem saber o que se deseja? Quando as prioridades não estão bem claras em nossas vidas?

Esse era meu “enigma insolúvel”, meu “Santo Graal” inatingível.

Minha ideia, portanto, era criar um novo contexto no qual eu pudesse me distanciar de tudo e ganhar mais clareza em relação às minhas motivações.

Eu queria sair desse “esconderijo” seguro – que são família, rotina, trabalho – e ver o que sobra.

Eu queria fazer o corpo andar 2.000km para que a mente pudesse ir ainda mais longe!

O livro conta então essa história, em que a Via Francígena é o pano de fundo onde se opera uma grande mudança no meu cenário mental.

* * *

Um pouco de história

A Via Francigena (VF) ainda é pouco conhecida do público em geral.

Como rota de peregrinação, ela é quase tão antiga quanto o Caminho de Santiago (CS), havendo registros tão antigos quanto no ano 990d.C., quando os arcebispos de Canterbury faziam a peregrinação até Roma pra prestar tributo ao Papa.

Diferentemente do Caminho de Santiago, porém, a Via Francígena só foi “redescoberta” em 1985, quando um arqueólogo italiano refez esse percurso e estabeleceu as 80 etapas canônicas do trajeto. Desde então, ela vem ganhando adeptos, embora bem lentamente.

Números

009_sarzana_IMAGEM 301'

Sarzana (Itália)

Fica fácil ver quão pouco a Via Francígena é conhecida especialmente se compararmos com o Caminho de Santiago.

A diferença dos números é realmente impressionante!

Enquanto mais de um milhão de Compostelanas foram entregues apenas na última década, até a última atualização que fiz nem 3 mil pessoas haviam feito (parte d)a Via Francígena.

Se tomarmos o ano santo de 2010, o contraste é ainda mais assustador.

272 mil peregrinos fizeram o Caminho de Santiago. Cerca de 500 fizeram a Via Francígena.

Se pensarmos em termos de Brasil, o contraste não fica menor.

Se de 2004 a 2010, quase 10 mil brasileiros fizeram (parte d)o Caminho de Santiago, apenas eu havia feito a Via Francígena.

Não apenas isso. Se considerarmos o trajeto completo, de 2.000km, eu fui o primeiro brasileiro e apenas o 14o a fazê-lo!

Claro que não conto isso apenas por curiosidade estatística. Essa diferença de volume de peregrinos têm implicações bem maiores em relação à jornada como um todo, particularmente nos quesitos estrutura e isolamento, algo que pode certamente alterar a percepção da aventura como um todo.

Preparação física

Em termos de preparação física, apesar da distância bem maior que o Caminho de Santiago – pelo menos se considerarmos o trajeto mais tradicional que parte de Saint-Jean, de cerca de 800km – a Via Francígena não exige necessariamente uma preparação física maior.

Quem já fez o Caminho sabe bem que as duas primeiras semanas são as mais importantes, após as quais o corpo já se adaptou bem à grande quilometragem diária e à mochila nas costas. Depois desses primeiros dias de adaptação, o condicionamento só faz melhorar, então do ponto de vista estrito do condicionamento, andar 800 ou 2.000km não faz tanta diferença.

Como eu disse no começo, a grande diferença entre andar 800 e 2000km não é a distância, é o tempo – o tempo que ficamos na estrada, o tempo que ficamos desconectados da nossa zona de conforto.

Essa questão do preparo é fácil de constatar no meu desempenho durante meu percurso. Se na primeira metade eu fazia cerca de 20-25km/dia, no trecho italiano eu aumentei consideravelmente a carga de esforço, com jornadas de 30-35km, tendo superado os 40km em pelo menos 5 ocasiões.

Guia, credencial e mapas

Uma outra semelhança que os incentivadores da Via Francígena quiseram manter com o Caminho de Santiago foi na questão da credencial de peregrino, assim como nos mapas estilizados das etapas.

006_Credencial_Capa_Foto006_Credencial_Aberta_FotoA credencial é praticamente idêntica àquela do Caminho e tem a mesma função: a de identificar o peregrino nos lugares com que conta com especial acolhimento e a de poder receber os carimbos de cada etapa, os quais servirão de testemunho do percurso feito e examinados no Vaticano ao final da jornada.

Mapa da primeira etapaAlgo que poderá ser notado, claro, é a menor oferta de guias e mapas para fazer a Via Francígena. Pro Caminho de Santiago, a oferta é tão grande que chega a ser difícil escolher qual o melhor guia. No caso da VF, na época que fiz, só havia os guias fornecidos pela AVF (Associação Internacional da Via Francígena), bem mais rudimentares do que os que usamos pra fazer o CS, embora com indicações úteis e suficientemente boas para fazer o percurso sem sustos. Hoje, naturalmente, já há uma maior oferta de guias para a Via Francígena, embora a variedade não chegue perto da que temos à disposição no caso do CS.

Estrutura

Em termos de estrutura de apoio aos peregrinos, embora ela venha crescendo com os anos, ela ainda não abarca todo o trajeto.

Abadia de Sant'Antimo

Abadia de Sant’Antimo (Itália)

Nesse caso especifico, nada próximo aos inúmeros albergues para peregrinos que encontramos no Caminho de Santiago, a maioria subsidiada e permitindo ao peregrino realizar sua jornada com o menor orçamento possível.

Esses albergues para peregrinos ainda não existem na VF.

Em vez disso, o apoio ao peregrino está sendo dado por diversas Ordens Religiosas ao longo do caminho – igrejas, mosteiros, conventos –, além de pessoas que generosamente se cadastram e se oferecem para alojar peregrinos (famílias Cappelletti e Pozzato, por exemplo).

Em termos práticos, eu encontrei guarida, acolhimento em cerca de metade das etapas, tendo que, na outra metade, dormir em albergues da juventude, pousadas ou hotéis, o que obviamente encarece um pouco o orçamento.

Mesmo assim, é uma viagem que está longe de ser cara.

Pra dar uma ideia mais precisa, eu gastei cerca de 30 euros por dia, sendo que metade desse custo está relacionado à hospedagem.

Isolamento e personagens

-frente-slideA diferença dos números entre o CS e a VF se reflete ainda na questão do isolamento, algo que aliado ao prolongado tempo de estrada amplia brutalmente o fator “desconexão”.

A diferença entre minhas experiências foi enorme realmente.

Mesmo tendo feito o CS em 1998 e no final do ano, em novembro, ainda assim eu tive os meus companheiros de caminhada. E mesmo se na maior parte das vezes nós caminhávamos separados, em horários e ritmos distintos, era comum que um grupo de 5-6 peregrinos se encontrasse nos albergues à noite, permitindo que a interação crescesse e pudéssemos sair daquele primeiro contato normalmente mais superficial.

Na VF, ao contrário, só encontrei 2 peregrinos ao longo do caminho.

Um espanhol, que fazia o trecho italiano da VF;

E um alemão, que na verdade não estava exatamente fazendo a VF. Ele havia saído de sua casa, na Alemanha, e decidido andar até Roma, se guiando inclusive por mapas comuns de estrada.

Com o alemão, cheguei a caminhar por um dia inteiro e, num primeiro momento, pensei até mesmo que pudéssemos andar juntos por mais tempo. O problema foi que esse alemão não parava de falar um minuto sequer, parecia que ele pensava em voz alta!

-s13Pra mim ficou muito claro logo depois que não havia a menor condição de tê-lo como companheiro de caminhada, pelo menos em base constante. Fui então dando todas as pistas pra ele de que preferia caminhar sozinho, de que tinha meu ritmo, minhas reflexões, mas ele parecia não ouvir… e, de fato, ele só queria mesmo é falar!

Aí eu não tive outra alternativa senão… fugir! Vi que ele carregava uma mochila pesadíssima, com barraca, tripé e outros equipamentos de fotografia e então pensei que dificilmente ele conseguiria me acompanhar se eu acelerasse o passo. Dito e certo.

Imprimi um ritmo fortíssimo e fui deixando-o pra trás. Combinamos até de nos encontrarmos em uma cidade no meio do caminho pra almoçarmos, mas isso nunca aconteceu.

Depois que voltei ao meu abençoado silêncio, vi que não queria mais sua companhia nem mesmo em doses homeopáticas. E para não correr risco de encontrá-lo mais, andei nesse dia 44km!

 

Eu poderia citar o encontro de um terceiro peregrino, Julien, mas esse não estava na verdade nem fazendo a VF nem indo pra Roma. Encontrei com ele na fronteira da Suíça com a França, onde ele estava fazendo algumas trilhas preparatórias para fazer o Caminho de Santiago.

Julien é inclusive meu personagem favorito da caminhada.

Um cara alto, bem corpulento, chamava logo a atenção por não ter os dois dentes da frente da arcada superior.

-p8Me contou que os perdeu num acidente de carro, quando ainda era motorista de taxi, em Paris. Não pôde repô-los por falta de grana na época e acabou se acostumando.

Disse que foi taxista por alguns anos, depois cansou, arranjou emprego como ajudante de padeiro e terminou ficando sócio de uma padaria.

Se cansou de novo e hoje troca de emprego segundo a vontade e conveniência do momento. Quando o encontrei, havia decidido largar tudo para fazer o Caminho de Santiago, desde Le Puy.

Me apontou a mochila e me disse que tudo que tinha estava ali: algumas roupas, livros e mapas, um xadrez eletrônico, uma boca de gás e um saco de nescafé, seu vício confesso…

Ou seja, não tinha emprego, mulher, propriedades… o verdadeiro andarilho? A verdadeira liberdade?

Isolamento, desconexão à transformação

Cito esses encontros – e claro que aconteceram outros tipos de encontros, com pessoas locais, os próprios padres e monges –, mas que ninguém se engane, são encontros que estão longe de serem frequentes o bastante para amenizar o impacto do isolamento e desconexão que se sente ao longo dos dias.

E não que eu esteja reclamando.

P_chateau_aigle_IMAGEM 189

Chateau d’Aigle

Apesar de obviamente aberto a esses encontros – parte riquíssima da viagem se deve e deveu aos mesmos –, eu estava também muito preparado e aberto para o que essa experiência de isolamento poderia me trazer.

Na verdade – e acredito que nunca seja demais repetir – esse isolamento, essa desconexão é um dos elementos-chave dessa aventura.

Desconexão sobretudo das expectativas alheias, expectativas dos outros sobre nós mesmos.

Talvez seja essa a desconexão fundamental.

O que muitas vezes não percebemos no nosso dia a dia é o quanto de nós mesmos está atrelado ao que se espera de nós, o quanto do que nós mais desejamos – ou mais parecemos desejar – não passa de reflexo do que os outros projetam sobre nós.

P_IMAGEM 203

Pico “La Dent” (Suíça)

Minha ênfase no fator tempo e no fator desconexão vem daí. Porque só o fato de ser capaz de detectar o quanto de cada motivação vinha de mim mesmo e o quanto me era emprestada (cabe perguntar: imposta?), por isso só isso já é revolucionário.

Do meu ponto de vista pelo menos, está aí o “poder transformador” que tantos dizem que possui uma aventura dessas.

Essa é a “mágica” que pode ocorrer na vida do peregrino.

Desconectados de nossos laços (deveria dizer “nós”?), distanciados de nossos arrimos – desde que por tempo longo o bastante – podemos deixar pra trás muito do que antes nos definia e abrir o espaço necessário para mudança.

Porque se podemos dizer que muito do que nos define vem do olhar alheio, podemos também dizer que muito do que nos impede de mudar, arriscar, desbravar novos territórios vem exatamente desse medo de desagradar, decepcionar o outro.

 

Alocação de prioridades

Numa viagem como essa, o outro, esse “grande outro” fatalmente perde espaço e passamos a ver melhor quais são nossas reais prioridades. E isso faz toda a diferença.

010_desconexao_ONE LIFE LIVE ITPra mim mesmo, se vocês me perguntarem qual foi a grande transformação que sofri, a grande diferença entre antes e depois vem justamente dessa possibilidade de enxergar melhor em que consistem minhas prioridades.

Parece trivial e banal, mas esse reconhecimento me permitiu atingir um equilíbrio maior em relação a como agir em relação aos meus antigos dilemas… me permitiu chegar à conclusão, por exemplo, de que não preciso ser nem exclusivamente andarilho nem exclusivamente um profissional dedicado à carreira.

O grande e genial insight foi perceber que o mais importante é não deixar nenhuma de minhas facetas calada tempo demais. É ter minha dose de estabilidade mesclada com uma dose de aventura e exploração.

Dito assim, isso não poderia soar mais simples e banal.

Simples é, realmente, mas não banal. O ponto é que para ser capaz de chegar a essa verdade tão simples e – tão importante quanto – de colocá-la em execução na dose certa, foi preciso, antes, descobrir minhas prioridades e somente então poder realocá-las, recolocá-las no seu devido lugar e proporção.

 

E hoje?

E é o que tenho feito desde então, e esse livro é uma espécie de corolário do que acabo de dizer.

Diante da crise vocacional em que me encontrava, em que não mais me reconhecia numa vida estritamente acadêmica, esse livro sai um pouco como resposta, um pouco como solução para aqueles problemas iniciais.

É filosofia, sim, mas é também viagem, história, aventura.

É filosofia, mas aplicada, é de certo modo uma história do que acontece com a filosofia quando ela escapa dos muros da Academia.

 

Nietzsche dizia que deveríamos filosofar com um martelo.

Minha sugestão aqui é que filosofemos com um par de botas!

 

MUITO OBRIGADO!

P_IMAGEM 227

Fronteira Suíça-Itália. Deste lado do lago, Suíça; do outro, Itália.

____________________________________________

Gostou? Compre seu e-book aqui:

Amazon: http://www.amazon.com.br/Filósofo-Peregrino-Londres-quilômetros-Franc%C3%ADgena-ebook/dp/B00NERBCZS/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1432055530&sr=8-1&keywords=marcos+bulcao

Livraria Cultura: http://www.livrariacultura.com.br/busca?N=0&Ntk=AutoComplete&Ntt=filosofo+peregrino

Livraria Travessa: http://www.travessa.com.br/o-filosofo-peregrino/artigo/94836fde-9a43-464c-8b67-16936ca02f25

Livraria Saraiva: http://www.saraiva.com.br/o-filosofo-peregrino-7959106.html

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s