Alocação e realocação de prioridades


Meu amigo Rogério Magalhães me indicou um artigo da blogueira Ruth Manus (“A triste geração que virou escrava da própria carreira”http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/a-triste-geracao-que-virou-escrava-da-propria-carreira-2/) e chamou a atenção para uma reflexão semelhante que fiz no meu livro “O Filósofo Peregrino” (pgs. 332-3).

ALOCAÇÃO E REALOCAÇÃO DE PRIORIDADES 

(…)

Alocação e realocação de prioridades… expressão mágica porque óbvia, já que ela é mesmo o pano de fundo de todas as decisões do dia a dia, mas nem sempre nos damos conta disso, tão automáticas são certas decisões, tão “óbvias” são nossas “prioridades”.

Mas são mesmo?

lifepriorityMeu pai passou vinte anos dizendo que não tinha tempo para fazer exercício regularmente; ouço outros dizerem que não têm tempo para um almoço mensal com os amigos do colégio; imagino outros que veem a infância dos filhos passar sem que percebam; e há ainda aqueles que — a despeito dos milhões que ganham — não têm tempo para viajar, para passar mais de uma semana afastados do trabalho…

Tempo… a mais valiosa das commodities, me disse uma vez o sábio Gustavo Queiroz, numa de nossas conversas que valeu mais do que anos de terapia.

Lembro-me como hoje do impacto que a frase me causou.

Estávamos numa roda de “gente grande”, todos profissionais bem-sucedidos, discutindo marcas de relógios e de carros, se era melhor comprar uma casa na Praia do Forte ou em Interlagos…

Eu ali, quase deslocado (sim, vivemos em sociedade e às vezes sucumbimos ao péssimo hábito de comparar méritos e sucessos), falei brincando — “Vou falar com Fulano que eu não tenho cacife para estar nessa roda” —, meio que tentando escapar de “fininho”.

Ao que Guto retrucou: “Deixe de besteira, Marcão, que você é o mais rico de todos nós: você tem tempo, a commodity mais valiosa do mundo.” Eureca…

Claro, aquela frase não serviu apenas para “curar” o desloca- mento que ali sentia. Aquela frase, de algum modo, dava todo um novo sentido a questões e dilemas que eu me colocava repetidamente.

Claro, era tão óbvio, por que eu não tinha pensado nisso antes? Tempo: eis minha maior riqueza, eis minha maior busca! Relembrando esse evento, agora posso entender melhor várias de minhas decisões passadas, as “trocas” que eu fazia, porque eu queria saber não quanto eu ganharia em tal ou qual emprego, mas quanto tempo eu teria livre para viajar, me mudar…

Algumas pessoas vendem seu tempo em troca de dinheiro, poder, prestígio. Eu frequentemente troquei prestígio, poder e dinheiro por tempo, por mais liberdade de movimento. De fato, na famosa disputa “tempo vs. carreira”, sempre que precisei optei pelo primeiro…Strategic Priorities

Sim, sempre tive dificuldade de entender as pessoas que trabalham muito, o tempo todo, a ponto de não serem donas do próprio tempo. De que serve afinal ganhar um milhão por ano se sua empresa não lhe permite tirar mais de dez dias seguidos de férias?

É engraçado… tenho amigos que de fato ganham um milhão por ano, que dizem que trabalham muito, mas que têm planos de fazer “o” pé-de-meia e se aposentar aos 50…

Faz-me rir.

Eu rio porque, quando ouço “um milhão”, penso que precisei de (bem, mas bem) menos do que isso nos últimos 10-15 anos de minha vida, e olhe que não fiz pouco nesses últimos anos…

Eu rio não porque não acredite que um dia eles irão parar (embora aposte alto em que não irão… seja porque o pé-de-meia sempre precisa ser mais gordo, seja porque aos 50 não mais saberão se reconhecer sem o trabalho, sem seus poderosos cargos). Eu rio porque “um milhão” soa para mim como liberdade imediata — e não a longo prazo —, um milhão realmente soa como a “compra” de muito tempo, muitos anos livre.

Deem um milhão para dez pessoas diferentes.

Uns comprarão casas, apartamentos, carros, veleiros; comprarão status e uma fotografia na Caras.

Dê-me um milhão, e eu comprarei tempo. Alocação de prioridades…

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4 responses to “Alocação e realocação de prioridades

  1. Bacana o texto. Sinto que estamos sempre nesse dilema entre ganhar mais e ter menos controle sobre seu próprio tempo ou ganhar menos, mas trabalhar menos e, acima de tudo, conseguir atingir algum grau de felicidade dessa forma, porque, em minha visão, essa discussão perpassa também a questão da ambição e dos desejos. Somos quase que obrigados a desejar nessa sociedade, estamos sendo instigados o tempo todo a consumir e a querer e, optar por mais tempo para si pode implicar em optar – muitas vezes – por menos bens materiais igualmente, daí que muitos se recusam a isso.

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  2. Amei o texto, deveria ser distribuído nas ruas. Fez-me lembrar a alegria de um profissional que fora meu aluno e hoje é meu “chefe” quando ganhou premio por ter batido as metas da companhia. Parabéns Marcos.

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