Entrevista com o Filósofo Peregrino


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PERGUNTAS:

 

  • Seu livro conta a história de uma viagem e também revela suas reflexões filosóficas durante a empreitada. Em que estante você o colocaria, ou seja, como você o define?

É sempre difícil encontrar definições perfeitas, mas acredito que o livro encontraria um bom lugar na seção de “Viagem e Aventura”, uma vez que são temas que, por si mesmo, incitam a descobertas não apenas de diferentes paisagens, mas também de diferentes culturas e pessoas, realidades e modos de vida. Isso não exclui, obviamente, a possibilidade de que o livro se sinta confortável também em outras estantes!

 

  • Você disse viver a dúvida constante entre a vida em movimento, com liberdade, e a estável, com carreira sólida, além de um pouso com a família constituída. Onde e como você vive hoje?

Eu diria que estou numa fase mais “estável”. Moro com minha esposa e duas filhas – a mais nova com 1 ano e meio – em Montreal, Canadá, e fui convidado recentemente para ensinar na Universidade do Québec.

Dito isso, uma sensação que nunca me abandona é a de que o Canada é uma etapa de vida, e não o destino, digamos, definitivo.

Prevejo não apenas outras aventuras, mas também outros pousos e países no meu futuro.

 

  • Quando pensou em fazer a Via Francígena, você já tinha em mente a ideia do livro? Porque passou a viagem fazendo notas, escrevendo, não é? Quanto do livro foi escrito durante o percurso? Quando você decidiu enviá-lo para a editora? Como foi esse processo?

A ideia de transformar a experiência em livro existia realmente antes mesmo de começar o percurso, eu só não sabia bem que tipo de livro seria, a quem se poderiam dirigir meus pensamentos, minhas reflexões.

A maior parte do livro, acredito, vem dessas anotações escritas durante a viagem. A essas reflexões – naturalmente depuradas, estendidas, editadas –, acrescentei depois pesquisas históricas sobre os lugares por onde passei, complementando informações que havia obtido antes, à época do planejamento, ou durante a própria caminhada.

 

Como se pode depreender desse intervalo entre a viagem e a publicação – já se vão nove anos –, eu não persegui o projeto do livro tão logo retornei ao Brasil. Seja pela necessidade de me distanciar um pouco da experiência vivida, seja pelas obrigações profissionais que acabei assumindo – publiquei dois outros livros nesse período –, muito tempo se passou antes que eu o recolocasse em prioridade máxima. Isso coincidiu com nossa mudança pro Canadá, e acredito que esse novo momento de estabilidade familiar contribuiu bastante à conclusão desse projeto, a que eu pudesse sedimentar tudo que havia sido vivido e tivesse uma perspectiva mais global em relação ao que esse livro poderia ser.

O livro foi concluído no natal de 2012, após o que fiz seu registro na Biblioteca Nacional e então o enviei à Record. Vemos então que, entre a última linha escrita e a publicação propriamente dita, houve uma longa estrada!

 

  • Você acha que seu livro tem um público alvo? Quem não é aventureiro e só faz viagens mais convencionais pode ser um leitor em potencial? Mais: esse livro pode afetá-lo de alguma forma, ou seja, fazer com que ele também se “movimente”?

Eu imagino que meu “leitor potencial” provavelmente tem, em alguma medida, um “espírito aventureiro”, que existe nele um prazer genuíno em descobrir novos lugares ou sensações.

Ter um “espírito aventureiro”, claro, não implica querer escalar o Everest ou o Kilimanjaro. Mas implica que ele, de algum modo, se conecta e se emociona com experiências desse tipo.

Haverá aqueles que vão experimentar a aventura sobretudo através de meus olhos e aqueles outros que tomarão meus relatos como inspiração para que eles mesmos coloquem em prática esse desejo de aventura e descoberta. Mas o que eu espero mesmo é que tanto uns quanto outros possam “movimentar” seus próprios desejos, suas próprias questões e, com sorte, encontrar algumas pistas ou respostas.

 

  • Você se valeu de sua experiência anterior no caminho de Santiago de Compostela para aprimorar a “carreira” de peregrino e não repetir alguns erros, como o desgaste de primeiro e ansioso dia de viagem, de certos equipamentos, etc. Aconselha o peregrino de primeira viagem a começar pela Via Francígena?

Se pensarmos estritamente do ponto de vista da estrutura, não vejo problema nenhum em um “peregrino de primeira viagem” começar pela Via Francígena. A organização em torno do caminho vem crescendo e, com uma boa dose de planejamento, ele bem pode fazer aí sua estreia e com sucesso.

É claro que se, em sua estreia, alguém se dispuser a caminhar os 2.000km que separam Londres/Canterbury de Roma, ele se colocará a teste de um modo sem precedentes e terá de lidar com seus próprios fantasmas para ser capaz de superar o desafio – sobretudo mental – de completar a jornada.

O que eu recomendo então é que esse peregrino tenha uma boa dose de autoconhecimento para saber se ele tem o perfil necessário para essa empreitada. E ler o livro, o que pode lhe dar uma boa ideia do que está em jogo!

 

  • Como resistir às tentações de se aventurar por caminhos desconhecidos, garantindo um pouco mais de risco e adrenalina à viagem? Em vários momentos, você optou por ficar mais um dia na cidade, ou se deslocar para alguns dias de descanso com amigos, retornando de onde parou. Como ter forças e perseverança para voltar ao caminho? Isso é um paralelo também com os caminhos que precisamos escolher na vida, não? Seguir a intuição ou os mapas? O coração ou a razão? Como encontrar esse equilíbrio?

Realmente, essas são questões com que frequentemente nos deparamos em nossas vidas, e talvez venha daí a força de uma experiência como essa da Via Francígena.

O sucesso de qualquer grande empreitada depende certamente de se manter o foco, de se manter determinado mesmo quando tentado ou a desistir diante das dificuldades ou a desviar porque outras coisas se oferecem como mais prazerosas.

Como encontrar um equilíbrio, você me pergunta? Sem querer colocar ênfase demais numa “fórmula pronta”, eu diria: alocação de prioridades. Saber ou tentar conhecer melhor quais são as nossas prioridades certamente é um primeiro passo para achar esse equilíbrio.

O que uma aventura como essa tem de extremamente poderoso é que, após tantos quilômetros nas costas, o realmente prioritário tende a se revelar, a se desvelar com mais força e clareza.

 

  • A cada experiência religiosa que encontrava na caminhada, principalmente o acolhimento nas igrejas, você se questionava se seria justo se aproveitar dessa rede católica não sendo religioso no sentido mais formal. Esses questionamentos também levavam à pergunta central: por que fazer a caminhada. Quando pegou o avião para Londres e, de Canterbury iniciou a caminhada, você não tinha ainda ideia desse porquê? O que mudou até a chegada a Roma?

Em toda grande meta, nós sempre temos razões que acreditamos importantes/relevantes para persegui-la, nunca é algo totalmente aleatório ou casual.

Mas, de outro lado, em toda grande meta, existem também aquelas razões que não estão totalmente claras ou explícitas, e estas podem muitas vezes ser tão fortes quanto aquelas que declaramos para todo mundo ouvir.

Antes de partir, minhas principais razões – as declaradas – eram o desejo de uma grande aventura aliado à necessidade de ter um tempo privilegiado para repensar algumas coisas em minha vida.

Contexto aqui é fundamental. Eu acabava de defender minha tese de doutorado, mas entretinha sérias dúvidas e questões sobre meu futuro profissional, sobre como me posicionar em relação à vida acadêmica por exemplo.

A Via Francígena me fornecia assim o pretexto privilegiado – um novo contexto – para que eu pudesse pensar, para que eu pudesse repensar a mim mesmo e, eventualmente, me reinventar.

O que mudou, então, até a chegada a Roma, foi ganhar mais clareza em relação ao papel que desempenhava cada uma dessas – e outras – motivações na minha, por assim dizer, “economia psíquica”. Na verdade, podemos mesmo dizer que tal nitidez constitui um dos principais frutos dessa viagem.

 

  • Hoje, passados alguns anos da peregrinação, o que mudou para você? A falada viagem para o Kilimanjaro aconteceu? Como repercutiu entre seus amigos o e-mail que você reproduz no livro?  

Desde há muito eu percebi a existência de diversas facetas minhas que competiam entre si para ganhar a primazia, pra ganhar o direito de ditar minhas prioridades. A diferença é que, antes da viagem, eu pensava que eu deveria decidir qual dessas facetas era a mais importante e, a partir daí, traçar meus caminhos.

Um grande insight da peregrinação foi perceber que eu não precisava decretar a vitória de uma dessas facetas, em detrimento das outras, mas que eu deveria, antes, tentar estabelecer uma espécie de “coexistência em igualdade de direitos” ou, em outras palavras, garantir que minha vida teria a variedade e riqueza necessárias para que nenhuma delas ficasse sem a devida atenção.

 

Quanto ao Kilimanjaro, embora o e-mail tenha mexido com todos, ele acabou não tendo a força necessária para “realocar as prioridades” que tinham gerado a desistência da viagem. De tempos em tempos, esse projeto vem à tona, com datas hipotéticas, ideias de obter patrocínio e/ou fazer um livro associado. Eu sempre dou força, claro, mas me fica a impressão de que a “conquista do Kilimanjaro” terá que ser decidida unilateralmente: isto é, eu decidirei que e quando farei e, se tiver companhia, melhor.

 

  • Você fala em desconexão do mundo e das pessoas, um impulso de desaparecer para se encontrar, para conhecer o mundo e dele extrair memórias e conhecimentos. Como lida com esse sentimento no dia a dia e como uma viagem como essa te leva de volta ao cotidiano, aos seus? Na época da viagem, você ainda não era casado nem tinha filhos, certo? Hoje, com a família, você a faria de novo?

Sim, sem hesitação, eu posso dizer que a faria de novo, esta é uma faceta presente em mim que não posso nem desconhecer nem negligenciar. Na verdade, farei de novo. Não a mesma Via Francígena – o fator novidade é importante –, mas flerto com a ideia de, por exemplo, cruzar o Canadá de bicicleta ou, ainda, embarcar na aventura de percorrer “The Amber Route”, uma trilha de 3.200km que vai de St. Petersburg até Veneza, cruzando nada mais nada menos do que 12 países!

Terei que convencer minha esposa, é verdade, mas tenho como “trunfo” o fato de que, quando ela me conheceu, ela já sabia que eu tinha uma certa propensão ao inusitado…

 

  • Em algum momento do livro, você diz ter vontade de viver desse tipo de literatura. Ou seja, que ela financie viagens futuras, que deem outros livros como frutos. O plano ainda se mantém?

Acho que me antecipei e já respondi acima, e é um sonoro ‘sim’.

Uma observação importante, porém.

É claro que, para mim, seria um sonho poder não apenas realizar uma viagem, uma aventura desse porte, mas também poder dela extrair frutos profissionais e financeiros. Esse é praticamente o “mundo ideal”.

Mas que algo fique bem claro desde sempre: eu tento construir minha vida de modo a poder me permitir realizar projetos como esse. Então, eu não tenho medo em fazer a previsão: com ou sem ‘patrocínio’, Kilimanjaro e Amber Route… me aguardem!

 

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