Por uma nova tópica: a consciência e os sistemas psíquicos


FREUD E A METAPSICOLOGIA III

Por uma nova tópica: a consciência e os sistemas psíquicos

 

Marcos Bulcão Nascimento (USP-Fapesp)[1]

(mbulcao@gmail.com.br)

Preâmbulo

Nosso retorno ao ‘primeiro Freud’ foi um retorno ‘pragmático’, por assim dizer.

Ele foi motivado especialmente pelo fato de que foi a partir do arcabouço conceitual disponível naqueles textos que o secular problema da consciência pôde encontrar solução.

Por mais tributo que queiramos prestar a esses textos iniciais, entretanto, nós não podemos fechar os olhos ao fato de que a teoria psicanalítica avançou e não se reconhece mais em muitos daqueles conceitos.

Com efeito, ninguém mais fala — ninguém mais quer falar — em neurônios, sistemas w, f, y pallium ou y núcleo, bem como tantos outros termos de ‘coloração’ fisicista, como era bem do gosto freudiano em seus primeiros anos.

Trata-se realmente de um vocabulário majoritariamente ultrapassado e — à parte para alguns estudiosos que se dedicam a esses textos, eu incluído — é muito difícil seguir formulações e argumentações construídas apenas ou fundamentalmente em cima daquela ordem de conceitos.

Pessoalmente, fico desapontado com isso — acho aquelas formulações, naquele vocabulário (pelo menos depois da etapa inicial de familiarização), até mesmo mais claras, menos sujeitas às tradicionais ambigüidades —, mas não quero e felizmente não preciso ‘remar contra a maré’. Não preciso e por uma ótima razão: é uma tarefa relativamente tranqüila transportar — traduzir — aquelas articulações e conclusões alcançadas a partir daquele arcabouço conceitual ‘fisicista’ (primeiro Freud) para o vocabulário mais ‘psicológico’, por assim dizer, do último Freud.

É o que faremos a seguir.

Por que, então, ter recorrido àqueles textos, àqueles conceitos se os dizemos ‘ultrapassados’?

O melhor modo de responder a isso é usar uma metáfora famosa.

Utilizamos os textos e vocabulário do passado como uma espécie de ‘escada’, que nos permitiu escalar um difícil e até então inacessível muro — o problema da consciência. Mas agora, uma vez no topo do muro — isto é, de posse de nossa solução tentativa —, podemos prescindir da escada e seguir adiante.

Nosso próximo passo será, então, formular os resultados epistemológicos obtidos até aqui, já atualizados para o vocabulário ‘corrente’, nos permitindo deixar os dois artigos anteriores como espécies de ‘alicerces’ heurísticos e estruturais do edifício que estamos tentando (re)construir.

Em outras palavras, aqueles que não se sentirem motivados em acompanhar a exegeseda rearticulação conceitual que propusemos, podem, sem maiores perdas práticas, começar por esse artigo. De todo modo, os dois primeiros estarão sempre à disposição para uma leitura ulterior[2].

* * *

No primeiro artigo, nós apresentamos uma solução para o problema da consciência. Em que ela consiste?

Um pouco de história

Dissemos que Freud, durante toda sua obra, travou uma luta particular com o chamado problema da consciência. E perdeu.

Sugerimos nos primeiros artigos que um dos motivos que podem tê-lo impedido de chegar à nossa solução proposta deveu-se ao fato de ele jamais ter deixado de pensar que à função da consciência deveria corresponder um lugar específico no cérebro — tal como era a concepção vigente na época. Afinal, era uma época em que o mapeamento das funções cerebrais estava sendo extensamente trabalhado e se acreditava que a cada função significativa do cérebro correspondia uma localização específica. Com efeito, descobertas importantes — como por exemplo as áreas de Broca e de Wernicke, ambas relacionadas à linguagem — reforçavam e muito as teorias localizacionistas do cérebro.

Freud, é verdade, foi capaz de romper, e em vários níveis, com o modelo científico da época. Mas, particularmente no que diz respeito à existência de uma localização para a consciência, ele não foi capaz de desapegar-se dessa concepção então vigente.

* * *

Nossa tentativa de solução parte, portanto, de um ambiente mais propício a que se pense na consciência antes — e apenas — como função do que como lugar.

De fato, com o avanço significativo das pesquisas em neurociência em tempos recentes, é cada vez maior o número de fenômenos e funções cerebrais que não podem mais ser reputados como desempenhados por uma área específica do cérebro. E a consciência é um deles[3].

Diante disso, foi sem dúvida mais fácil retornar aos textos de Freud e conseguir enxergar o que — nos parece — estava ou parecia estar diante de seus olhos: que a consciência não é um verdadeiro sistema, que não era necessário requerer uma localização precisa para ela e que, portanto, os neurônios w — sistema percepção-consciência — não eram requeridos para que o aparelho psíquico pudesse desempenhar suas funções[4].

Com esse pano de fundo, coube-nos ‘apenas’ ver como e se era possível redesenhar o aparelho psíquico — respeitando tanto quanto possível as concepções originais freudianas —, mas agora sem precisarmos recorrer aos famosos “neurônios w”.

Sem os neurônios w — do sistema percepção-consciência — ficamos apenas com os neurônios y (pallium e núcleo) a desempenhar todas as funções psíquicas necessárias[5].

E foi o que tentamos fazer no primeiro artigo.

O aparelho psíquico ficou assim:

 

 

 

 

 

 

Exercício histórico e heurístico à parte, aonde nos leva o trabalho empreendido?

No diagrama acima, já podemos perceber algumas tentativas de aproximação ou mesmo identificação entre os conceitos antigos e atuais.

 

 

 

(1). PULSÕES

A primeira identificação é entre a quantidade/energia que vem do interior do corpo e as pulsões. Essa energia, que num primeiro momento pode ser associada às nossas necessidades fisiológicas (fome, sede, sexo), fará ‘pressão de trabalho’ no aparelho psíquico — isto é, exigirá ser descarregada, eliminada, satisfeita —, e este terá de criar estratégias para realizar essa missão.

Como reza a clássica definição: as pulsões têm sua origem no corpo, mas se fazem representar no psiquismo através de seus representantes (Freud, 1915b, 121-2). Serão eles o afeto (aspecto quantitativo, intensivo, energético) e a representação (aspecto qualitativo, simbólico).

Essa energia ‘bruta’ pulsional será então ‘capturada’ — e, nesse mesmo movimento, transformada — pelo psiquismo.

Mas por que ‘capturada’, por que ‘transformada’?

 

Instintos ou pulsões?

Aproveitemos o ensejo para uma pequena digressão sobre a diferença (e semelhança) entre pulsões e instintos.

Antecipando a conclusão: as pulsões são os instintos modificados pela ação da linguagem (leia-se: pela imensa riqueza cultural humana, possibilitada pelo advento da linguagem simbólica).

Com efeito, tanto instintos quanto pulsões podem ser considerados a fonte básica de energia — leia-se ‘tensão’ — de nossos corpos. É essa energia, essa tensão que gera um ‘estado de urgência’ — seja nos animais em geral, seja no ser humano — e que os obriga a tomar providências para eliminar essa fonte de desconforto.

Nos animais em geral, porém, as ‘instruções’ para eliminação desse desconforto são mais diretas, menos ambíguas.

Quando o animal sente fome, por exemplo, ele canaliza sua energia e atenção para conseguir comida, e qualquer um dos alimentos geneticamente pré-definidos como adequados vai satisfazê-lo. E não apenas isso: ele vai ser ‘plenamente’ saciado.

‘Plenamente’ no sentido de que um leão, após matar e comer uma zebra, não pensará: “hum, essa zebra estava gostosa, mas o que eu queria mesmo comer hoje era um antílope”.

A satisfação pode ser dita ‘plena’ também no sentido de que o leão não mistura diferentes ordens de necessidade, isto é, ele não come mais hoje para compensar o fato de que não teve sexo ontem, nem tampouco desconta sua agressividade acumulada (talvez por ter perdido a fêmea que cobiçava) no primeiro animal mais fraco — ou na primeira árvore! — que lhe apareça pela frente[6].

* * *

No ser humano, por contraste, o que acontece é precisamente uma ‘mistura’, uma imbricação dessas diferentes ordens de necessidades. E essa imbricação deve-se não apenas a um consideravelmente mais complexo sistema nervoso, mas também, e sobretudo, à sua inigualável capacidade simbólica.

E a ‘captura’ ou ‘transformação’ de que falamos acima pretende retratar esse novo quadro.

Em outras palavras, dizer então que a energia pulsional ‘bruta’ será capturada e transformada no/pelo psiquismo equivale a dizer que seus ‘caminhos de eliminação’ não seguirão o curso ‘unilateral’ e pré-determinado geneticamente, tal como acontece com os instintos/animais em geral[7].

Antes, seus ‘caminhos de eliminação’ (leia-se: suas vias de satisfação) serão, no ser humano, tributários dessa inevitável imbricação entre a ordem ‘instintiva’ e a ordem ‘cultural’ ou ‘simbólica’(Lacan diria: entre o ‘real’ e o ‘simbólico’).

Em ainda outras palavras, no ser humano, não há satisfação instintiva pura, mas sempre mediada/atravessada pela ordem cultural/lingüística/simbólica. Daí preferirmos falar de ‘pulsões’, e não de ‘instintos’.

* * *

Digressão à parte,

O que acontece com as pulsões, quem são seus dois representantes? Como se dá essa ‘captura’?

Essa história tem vários artigos, mas vamos dar uma versão resumida deles.

(i).

Uma vez acumulada, essa energia/tensão pulsional ‘bruta’ exige do organismo que providências sejam tomadas para sua eliminação.

Quando o organismo consegue tomar as medidas necessárias (realiza o que Freud chamou de ‘ação específica’), a tensão é eliminada, satisfação é sentida. A equação é simples: aumento de tensão = desprazer; diminuição/ eliminação da tensão = prazer.

O organismo (e conseqüentemente o aparelho psíquico) terá desde sempre duas metas convergentes: de um lado, evitar o desprazer, o que lhe provoca tensão e dor; de outro lado, buscar o prazer, o que lhe é capaz de eliminar a tensão.

Sendo a tensão interna impossível de erradicar em caráter permanente, não resta ao aparelho psíquico senão aprender como lidar com ela.

E a fórmula para isso é transformar toda experiência de satisfação numa espécie de ‘modelo’ a ser seguido ou, melhor, usar toda experiência bem sucedida de satisfação numa espécie de ‘guia para ação futura’. A estratégia com efeito parece bem simples: o que deu certo no passado, repita no futuro (E inversamente para o que diz respeito às experiências desprazerosas).

Deste modo, enquanto parte fundamental de sua estratégia de sobrevivência, quando acontece uma experiência de satisfação é importante que o aparelho psíquico seja capaz de identificar (para depois ser capaz de reproduzir) os elementos-chave que permitiram com que ela acontecesse.

Nada mais natural, portanto, que o psiquismo associe àquela prazerosa descarga de tensão (aspecto intensivo, quantitativo) os dados/traços mais relevantes daquele evento (aspecto qualitativo/representacional).

E é nesse complexo associativo que reside o que é mais particularmente humano. Porque juntamente com o leite, com o seio, a criança também se alimenta de palavras, de carinho.

E toda tragédia — e beleza — da história humana podemos dizer que advém desse ‘fato original’: comida e amor estão imbricados desde a nossa mais tenra infância. Lá, na raiz mesma de nosso ‘desejo original’, está (a dependência d)o outro.

Como vemos, a estratégia parecia simples…

(ii).

Eis por que dissemos que energia ‘bruta’ pulsional é capturada e mesmo transformada no/pelo psiquismo.

Porque aquela energia ‘bruta’, antes livre, é agora ligada, isto é, passa a gerar e ser parte de um complexo associativo.

Aquela energia que era livre (leia-se ‘sem associações’) agora é cooptada a percorrer caminhos preferenciais[8].

Sim, aquela energia livre busca agora percorrer preferencialmente as rotas/vias/facilitações em que se encontre o ‘testemunho’ das experiências passadas de satisfação.

Ora, esse ‘testemunho’ é justamente o que chamamos de ‘aspecto qualitativo’ da experiência; leia-se: as qualidades, as informações, os traços relevantes e salientes daquelas experiências, daquelas percepções.

O aparelho psíquico vai então formar-se respeitando a ‘lógica’ desse processo de memorização, o qual, por sua vez, é guiado por essa estratégia combinada de buscar prazer (eliminar tensão) e evitar desprazer (evitar dor ou acúmulo de tensão).

Fica agora mais fácil compreender o que Freud chama de Vorstellungsrepräsentanzen — ou representantes da pulsão: o afeto e a representação propriamente dita.

O afeto (aspecto intensivo) pode ser dito um derivado direto da pulsão. É, com efeito, a própria energia pulsional[9] porém já cooptada, capturada na/pela rede qualitativa, representacional, simbólica.

Numa formulação ainda mais simples, o afeto é a energia pulsional já contaminada pelas experiências (de satisfação e de dor) pessoais do sujeito, tendo portanto seu destino atrelado às características globais (aspecto qualitativo) das mesmas.

Com efeito, segundo essas imagens qualitativas — ou representações (Vorstellungen) — sejam associadas à satisfação ou à dor, o afeto vai encontrar diferentes destinos, sendo a descarga, a sublimação e o recalque os mais importantes dentre esses.

(2). OS SISTEMAS PCS E ICS

Discussão preliminar

Falamos e repetimos que parte da solução do problema da consciência consistia em retirar-lhe o estatuto de “sistema”. Mas o que significa isso?

No vocabulário do Projeto, significa dizer que não há um conjunto específico de neurônios (no caso neurônios w) encarregado de gerar qualidade e consciência.

Antes, o fenômeno da consciência acontecia também entre neurônios y, que agora acumulavam a função de percepção-consciência e memória[10].

Agora, entretanto, que não queremos mais usar o vocabulário fisicista do Projeto, que não estamos mais comprometidos com neurônios e (explícitas) localizações cerebrais, o que significa dizer que o Ics e o PCs são verdadeiros ‘sistemas’ enquanto a consciência não o é?

 

Dualismo X Materialismo ® o Monismo Anômalo

Em primeiro lugar, devemos dizer que, abandonando ou não o vocabulário do Projeto, estamos ainda assim inteiramente comprometidos com o materialismo freudiano.

É importante que se diga isso porque, a nosso ver, nos dias de hoje, o dualismo não é uma opção — nem filosófica nem cientificamente — viável ou mesmo aceitável.

Em outras palavras, ainda que passemos a usar todo um vocabulário mais ‘psicológico’, de conotações eminentemente ‘mentalistas’, nem por isso precisamos abdicar da assunção de que nosso aparelho psíquico, aparelho mental, tem como base o cérebro e, portanto, os neurônios de que se compõem.

Isso aparentemente poderia gerar um paradoxo — longamente discutido e rediscutido nas rodas filosóficas —, mas algo que ‘salva a situação’ é o que Davidson e Quine chamaram de “monismo anômalo”[11].

A idéia básica é a seguinte: não precisamos assumir nenhuma substância mental em nossa ontologia[12], mas devemos admitir que existem maneiras irredutivelmente mentais de agrupar estados físicos (Quine, 1990, 71).

Ou seja, podemos falar tanto quanto quisermos de ‘mente’, ‘pensamentos’, ‘desejos’; falar de ‘entidades’ como o id, ego e superego, e ainda assim dizer que somos materialistas.

Mas o que significa exatamente dizer que ‘não existem substâncias mentais’?

Significa dizer que não existe ‘mente’, ‘pensamentos’, ‘consciência’, ‘desejos’, ‘disposições’? Obviamente não.

Significa, porém, dizer que não existe mente sem corpo, que não existem pensamentos ou consciência sem atividade cerebral que os gerem, que não existem desejos e disposições sem um organismo, físico, material, que — via atividades neurais — os possua.

Ou seja, quando dizemos que substâncias mentais não pertencem à nossa ontologia significa dizer que ‘mente’ não é uma substância propriamente dita (não tem existência independente), mas um ‘atributo’. De fato, se não existe mente sem cérebro, é o cérebro[13] a verdadeira substância, não a mente.

Significa, natural e não menos obviamente, que não existe uma “alma” — tal como no dualismo cartesiano — incorpórea, que não apenas sobreviveria sem o corpo como dele independeria para sua existência.

* * *

Não se deve, porém, confundir o dualismo corpo/matéria X mente/alma com o (aparente) dualismo matéria X energia.

No primeiro caso, o dualismo existe quando (e apenas quando) se diz da mente/alma que é uma substância que independe do corpo para sua existência.

No segundo caso, o dualismo nem chega se pôr propriamente, já que matéria e energia são mais como o verso e reverso da mesma moeda, no sentido de que uma pode transformar-se na outra e vice-versa. Com efeito, isso fica bem explicitado na mais famosa das fórmulas da Física: E = m.c2 (onde ‘E’ = energia; ‘m’ = massa; e ‘c’ = velocidade da luz). São, portanto, em realidade, uma substância apenas.

O monismo anômalo, poderíamos dizer, pretende dissolver o primeiro dualismo estabelecendo uma identidade semelhante entre substâncias mentais e substâncias materiais, ainda que a ênfase recaia nestas últimas. Em outras palavras, entidades e eventos mentais nada mais são do que propriedades ou agrupamentos especiais (isto é, não-especificáveis) de entidades e eventos materiais. Em termos mais concretos: a ‘entidade mental’ ‘pensamento’ nada mais é do que — isto é, equivale a — o efeito de certas reações físico-químicas em nosso cérebro, o mesmo valendo para ‘consciência’ e outros conceitos ‘mentalistas’.

 

Ser ou não ser um ‘sistema’: eis a questão

Sim, somos — com Freud — materialistas. A localização do aparelho psíquico é o cérebro, e todos seus fenômenos — conscientes e inconscientes — são resultados de complexas interações físico-químicas que acontecem nos bilhões de neurônios que o compõem.

Mas não, definitivamente não precisamos sucumbir a um reducionismo radical, no sentido de afirmar que existe um conjunto específico e determinado de neurônios que compõe o “sistema Ics” e outro conjunto específico e determinado de neurônios que compõe o “sistema PCs”.

Retornemos, então, à pergunta: Por que continuar a falar em ‘sistemas’? E, nesse caso, por que a consciência não ‘merece’ esse estatuto?

O que diferencia, afinal, aquilo que pertence ao Inconsciente enquanto sistema (Ics) daquilo que é inconsciente no sentido descritivo?

* * *

Uma conhecida analogia nos pode ajudar nessa tarefa.

Freud gostava de comparar o aparelho psíquico a um sistema de canais ou tubulações interligados.

Imaginemos, então, tal rede de canais, por onde escorrem correntes de água, com variável quantidade e intensidade.

Imaginemos também que, nessa rede de canais, existe uma espécie de alarme que dispara a cada vez que a corrente de água atinge um determinado limiar de quantidade e/ou intensidade.

Pois bem, essa rede de tubos e canais é o análogo do que chamamos de ‘sistema’. É a estrutura de base, mais permanente (embora não fixa), cujas propriedades determinam o curso da água. Diferentes tipos de tubulação teriam diferentes propriedades e, conseqüentemente, poderiam ser ditos diferentes sistemas (tal como ocorre com os sistemas PCs e Ics, cujas propriedades influenciam diretamente o ‘curso’ dos processos psíquicos).

O próprio correr da água, por sua vez, é o análogo dos processos psíquicos.

Correntes intensas fazem o alarme soar — os processos psíquicos tornam-se conscientes —, enquanto correntes menos intensas não são capazes de fazer disparar o alarme — os processos permanecem (descritivamente) inconscientes.

A consciência é, deste modo, uma propriedade descritiva dos processos psíquicos, gerada sempre que a intensidade da corrente atinge/supera um determinado limiar.

Descritivamente falando, de outro lado, os processos inconscientes são aqueles em que — por variados motivos — a intensidade da corrente se mantém abaixo do limiar.

* * *

Naturalmente, e aproveitando o ponto, não devemos confundir o inconsciente tomado em seu sentido descritivo e o inconsciente em seu sentido sistêmico.

Aqui devemos antecipar (e tentar evitar) uma possível confusão.

Conteúdos recalcados são sistemicamente inconscientes mas nem por isso precisam ter uma intensidade baixa. Ao contrário, sabemos pela experiência clínica quão poderosos e intensos são esses conteúdos recalcados. Como, então, dizer que necessariamente correntes mais intensas vêm acompanhadas de consciência?

Trata-se de um paradoxo fácil de resolver — ainda que não necessariamente preservando toda a analogia da rede de canais e tubulações.

Como escapar, porém, de implicitamente estar assumindo que o sistema Ics corresponde a uma rede neuronal específica?

Isto é, que os processos psíquicos Inconscientes percorrem trilhas necessariamente distintas das trilhas percorridas pelos processos psíquicos pré-conscientes?

Conteúdos recalcados podem ser associados com grandes volumes de água e, portanto, com potencial intensidade na corrente.

Enquanto represados, porém, permanecem ‘inativos’ e assim inconscientes tanto no sentido descritivo quanto no sentido sistêmico.

Há ocasiões, entretanto, em que a ‘represa’ não dá conta da pressão, podendo gerar uma corrente intensa o bastante para fazer soar o alarme (isto é, gerar consciência).

E, nesse ponto, a analogia encontra seus limites.

Como dizer, agora, que o conteúdo recalcado (sistemicamente inconsciente) torna-se consciente?

A analogia encontra seus limites no momento em que precisamos distinguir os dois aspectos da corrente: o qualitativo e o quantitativo/intensivo.

O que faz disparar o alarme é a intensidade da corrente (aspecto quantitativo) e é essa intensidade que se torna consciente, na forma de afeto, desprazer ou ainda angústia. Cabe notar, porém, que o que permanece inconsciente sistêmica e descritivamente é o aspecto qualitativo, o conteúdo propriamente dito. Esses conteúdos (sistemicamente) inconscientes — veremos — é que não se tornam nem se podem tornar conscientes sem antes, primeiro, se tornarem pré-conscientes.

E o que examinaremos na seqüência é justamente quais as propriedades dos sistemas PCs e Ics, bem como de seus respectivos conteúdos.

 

Função e importância da consciência

Incidentalmente, a melhor forma de estudar as propriedades dos sistemas Ics e PCs é através da suas respectivas relações com os processos conscientes.

Com efeito, não podemos perder de vista que, embora a consciência tenha perdido seu status de ‘sistema’, nem por isso perdeu ela sua importância.

Recoloquemos então a pergunta:

Qual a importância da consciência, dos processos conscientes; que diferença ela faz?

Felizmente, a resposta a essa pergunta-chave é simples e direta o bastante.

O aparelho psíquico tem como principal função manter em níveis otimizados (isto é, tão baixos quanto possível) a tensão (quantidade, energia) interna.

Na fórmula mais simples possível: elimine toda fonte de tensão do organismo que conseguir, desde que se mantendo vivo.

Onde a consciência entra nisso?

Os processos conscientes são cruciais no sentido de que eles indicam ao aparelho psíquico onde a ação deve acontecer para que tenhamos uma satisfação duradoura.

Escrutinamos, mapeamos o mundo exterior de modo a detectar, de um lado, potenciais ameaças e, de outro, potenciais fontes de satisfação, colocando-nos numa melhor posição para agir no momento adequado.

Em outras palavras, “estar ou tornar-se consciente” é um tipo de ‘indicador’, de ‘alerta de prontidão’, algo como um “estar-pronto-para-a-ação”: apenas coisas que podem — pelo menos em princípio — transformar-se em ‘ação’ podem/devem tornar-se conscientes[14]. ‘Tornar-se consciente’, então, significa passar em algum tipo de ‘teste ou critério de relevância’. Que critério é esse? Como vimos, nenhum outro além de descarregar/evitar tensão. Buscamos obter satisfação enquanto evitamos dor.

Vemos que, deste modo, o ‘critério de relevância’ funciona tanto do lado ‘positivo’ quanto do lado ‘negativo’.

Algo simplificadamente, podemos dizer que os eventos com associações positivas — prazer, satisfação — são marcados com o ‘indicador-de-ação’, sendo portanto os candidatos mais óbvios para acesso[15] à consciência.

De outro lado, os eventos com associações negativas — dor, tensão — são marcados com algum tipo de ‘alerta’, sendo assim candidatos a não se tornarem conscientes.

* * *

Há uma ambigüidade ao mesmo tempo proposital e inevitável nessa passagem, o que nos exige fazer uma espécie de adendo à definição anterior.

Não estamos, claro, dizendo que não podemos ter pensamentos desagradáveis. Não só os temos como seria péssimo que não os tivéssemos, já que eles justamente nos ajudam a prevenir certos eventos indesejáveis. Isso não impede, entretanto, que demos o devido destaque a essa tendência psíquica. Nós poderíamos, talvez, enunciar a mesma proposição com uma ressalva adicional.

Eventos/pensamentos com associações negativas tendem a não se tornar conscientes, a menos que sua supressão seja mais custosa do que sua tomada de consciência.

Em outras palavras, todas as coisas (percepções, pensamentos, desejos, planos, etc) que podem tornar-se conscientes são aquelas e apenas aquelas que o aparelho psíquico determina como sendo potencialmente úteis para ação no ‘mundo real’.

Naturalmente, esse ‘cálculo’ dos prós e contras a respeito do que é melhor suprimir/reprimir e do que é melhor enfrentar (para melhor prevenir) é complexo e sutil, muitas vezes mobilizando o psiquismo em seus mais diferentes propósitos e níveis (leia-se: sistemas).

Ressalva feita, nós poderíamos arriscar a seguinte fórmula:

Os pensamentos e conteúdos a se tornarem conscientes são os pensamentos e conteúdos a (potencialmente) se tornarem realidade, a se transformarem em ação.

Nossa consciência é, então, uma espécie de ‘palco’, onde ensaiamos em pensamento as ações que queremos ou consideramos performar no mundo.

Todo o resto é barrado e permanece inconsciente. Isto é: todas as coisas que são reconhecidas como sendo ou (relativamente) desimportantes ou perigosas permanecem inconscientes. Entre essas últimas estão os conteúdos reprimidos/recalcados.

 

Os sistemas Ics, PCs e seus conteúdos psíquicos

Aqui, nós poderíamos falar de uma intensa e permanente ‘competição’ entre todos nossos pensamentos, ou melhor, entre todos os processos psíquicos que acontecem no nosso cérebro/mente.

Os ‘vencedores’ tornam-se conscientes, o que significa basicamente que o aparelho psíquico os elegeram, naquele momento, como (mais) relevantes segundo o critério pragmático de atuação no mundo.

De fato, aquilo que vemos capturar nossa atenção no dia a dia são justamente aquelas percepções e/ou sensações que julgamos relevantes para nosso bem-estar: seja este mais imediato ou mais longínquo, seja no sentido de proteção seja ou de satisfação.

Os ‘perdedores’, de outro lado, permanecem inconscientes e podem ser divididos em dois grandes grupos, como sugerido acima:

— o grupo dos conteúdos psíquicos (relativa e presentemente) desimportantes;

— o grupo dos conteúdos psíquicos (relativa e presentemente) ‘perigosos’.

No primeiro caso, trata-se de conteúdos que o psiquismo não vê (comparativamente) razão suficiente para focar neles atenção (no momento em questão, pelo menos).

São conteúdos neutros ou inofensivos e não ganham acesso à consciência apenas por essa (comparativa) falta de significação/importância.

Tais conteúdos permanecem (descritivamente) inconscientes, embora ativos no ‘pano de fundo’ e podem tornar-se conscientes a qualquer momento, desde que adquiram ‘força’ (leia-se: importância contextual relativa) o bastante para vencer a ‘competição’. São o que poderíamos chamar de conteúdos pertencentes ao sistema PCs.

No segundo caso, ao contrário, trata-se de conteúdos que o psiquismo entende trazer alguma ameaça para seu bem-estar e, deste modo, prudentemente os deixa à margem, inacessíveis à consciência.

Na sutil e complexa balança de prós e contras, o psiquismo ‘estima’ que o melhor destino para tais conteúdos é o ocaso, o esquecimento, a obliteração. Os conteúdos recalcados estão nessa categoria e pertencem ao sistema Ics.

Nós poderíamos falar em ainda um terceiro grupo de conteúdos psíquicos, a saber, aqueles conteúdos que são inofensivos, porém ‘desorganizados’ ou ‘inconsistentes’ o bastante para pertencerem ao PCs. Nesse caso, é a falta de organização desses complexos associativos que impede o acesso dessas representações — ao menos enquanto tais — à consciência[16].

Aproveitando o ensejo, podemos relembrar que uma forma eficaz de demarcação dos diferentes sistemas psíquicos é através da diferenciação de seus respectivos conteúdos, isto é, do tipo de representações característico de cada sistema.

Com efeito, tivemos oportunidade no segundo artigo de delimitar as representações-coisa (Sachvorstellungen) como as representações pertencentes do sistema Ics, ao passo que o sistema PCs conteria as representações-objeto (Objektvorstellungen) mais as representações-palavra (Wortvorstellungen).

Reiteremos aqui apenas os pontos principais.

 

(a). Representações e pulsões

As representações-coisa são formações psíquicas (mais) diretamente relacionadas às experiências de satisfação/dor e portanto mais próximas da fonte pulsional propriamente dita.

Dito de outra forma.

A cada experiência de satisfação, por exemplo, os traços salientes desses eventos tendem a se associar, tendem a orbitar em torno de um mesmo núcleo. Novos eventos trazem novas qualidades e portanto novas associações, de modo que grandes grupos associativos se formam e se imbricam, segundo maior ou menor semelhança entre os mesmos. Esses grandes grupos associativos ganham progressivamente corpo, à medida que as experiências se acumulam, e vão servir como espécies de “guias” para experiências futuras, isto é, as associações prazerosas (ligadas a uma satisfatória descarga de tensão) incitarão à sua repetição. Num certo sentido, então, podemos dizer que o que confere unidade a esses grupos associativos inconscientes é justamente a “marca do desejo”[17].

Trata-se de uma “unidade” representacional mais fraca justamente por se tratar de uma “série aberta”, por assim dizer, já que novos elementos podem agregar-se a todo momento, redesenhando o quadro associativo. Elementos conflitantes podem, inclusive, coexistir, caso em que traços ou elementos acabam sendo associados tanto com experiências prazerosas quanto com experiências desprazerosas.

Precisamente por essa relação estratégica com as experiências de satisfação/dor, desempenharão essas representações inconscientes papel fundamental na constituição da matriz de todos nossos desejos e defesas.

(b). Representações e retranscrição pré-consciente

Tais conteúdos representacionais não contam, porém, com direto acesso à consciência. Como dissemos acima, sua falta de organização e linearidade impede que esse material possa ser convenientemente utilizado num aparelho psíquico mais maduro. De fato, lembremos, a consciência é uma espécie de “palco” onde ensaiamos as ações que pretendemos executar no mundo. Sem uma organização prévia, portanto, essas representações inconscientes nos dariam, na melhor das hipóteses, um guia caótico para nossas ações.

Para que essas representações ganhem assim esse ‘passaporte’ de acesso, é preciso que elas sofram o que chamamos de ‘retranscrição pré-consciente’, algo que é realizado fundamentalmente através do vínculo dessas às representações-palavra (Wortvorstellungen).

Tais representações-coisa, fluidas e maleáveis em sua essência mesma, ganham, através de sua associação com as representações-palavra, uma unidade conceitualque lhes faltava. Esse novo conteúdo, agora dotado de uma maior organização e consistência, é o que chamamos no artigo segundo de representação-objeto (Objektvorstellung). As representações-objeto são, propriamente falando, os nossos próprios objetos cotidianos, são as representações de que nos valemos no dia a dia como referência para comunicação intersubjetiva.

Na verdade, podemos perceber, o que a retranscrição pré-consciente faz é, num certo sentido, traduzir (parte d)o conteúdo psíquico inconsciente, desorganizado e idiossincráticopor excelência, num conteúdo organizado e — ponto-chave — intersubjetivamente manejável.

Em ainda outras palavras, o que era inconsciente, desorganizado, idiossincrático, privado torna-se — mediante transdução[18] lingüística — (pré-)consciente, organizado, conceitual, passível, portanto de intersubjetividade.

(c). Representações e recalcamento

O que dizer então dos conteúdos recalcados? O que o diferencia das demais representações inconscientes?

Dissemos acima que as representações inconscientes são (mais) diretamente tributárias das experiências de satisfação/dor do sujeito e, desta forma, elas servem de base para posterior organização de nossos processos tanto desejantes quanto defensivos.

Numa tentativa de generalização, o que poderíamos dizer para ambos os casos é que cada uma das experiências relevantes que vivenciamos possui uma espécie de “marcador”, seja positivo, seja negativo.

Ora, considerando que a consciência é uma espécie de palco onde ensaiamos nossos passos antes de executá-los no mundo, temos que esses “marcadores” desempenham um papel importante no que tem ou não acesso concedido à consciência.

O que aparelho psíquico faz, então, é mapear o mundo — aí incluídos os nossos pensamentos, desejos, etc — tentando detectar ambos os tipos de marcadores.

Aos eventos/pensamentos com marcadores positivos, um “sinal verde” é acionado, significando que uma ação está pronta para ser consumada no mundo.

Quando, ao contrário, marcadores negativos são detectados, um sinal de alerta é gerado, indicando ao aparelho psíquico que está diante de algo potencialmente ameaçador.

Se se trata de um evento no mundo exterior, a ordem se dividirá entre “lute” ou “fuja”.

No caso de pensamentos ou desejos, o aparelho psíquico deverá avaliar que nível de alerta foi gerado.

Num caso mais simples, o psiquismo pode lidar com a questão tranquilamente (leia-se: conscientemente) pesando prós e contras e deliberando o resultado mais conveniente.

Em outros casos, porém, o psiquismo pode entender que o risco associado a tal marcador é grave e determinar que tudo a ele conectado deve ser mantido tão à distância quanto possível. Temos aí sérios candidatos a recalcamento.

Tentando sintetizar o dito numa espécie de fórmula:

— As representações-coisa ligadas à experiência de satisfação viram base para a matriz de desejos.

— As representações-coisa ligadas à experiência de dor viram base para a matriz de recalques.

* * *

Notemos então que um determinado conteúdo não precisa ter sido uma vez (pré-)consciente para depois ser recalcado. Com o dispositivo do que chamamos de “marcadores”, uma ameaça pode ser detectada “à distância”, isto é, algo pode ser colocado de “quarentena” apenas por seu poder de remeter a algo previamente marcado como ameaçador. Deste modo, quanto mais sensíveis forem os níveis de alerta do aparelho psíquico, mais suscetível ele será a formar (e ampliar) núcleos representacionais recalcados.

Disso poderíamos tirar a seguinte lição.

Um aparelho psíquico cego a “marcadores negativos” é indefeso. Entretanto, um aparelho psíquico excessivamente sensível a eles torna-se inevitavelmente vítima de sua própria prudência, abertas que estarão suas portas a recalques e, conseqüentemente, sintomas de toda espécie. Um psiquismo saudável dependerá, portanto, de achar uma justa medida entre ambos os extremos. Como já advertia Aristóteles, a “virtude está no meio”.

 

(d). Representações, sonhos e consciência

No sonho, como sabemos, a consciência é despertada e os conteúdos psíquicos são vividos como realidades.

Na verdade, poderíamos equacionar ambas as coisas: estar consciente de algo é vivenciar esse algo como real.

Isso não é um acidente. A consciência é justamente um espaço para experimentação, onde podemos entreter hipóteses, ponderar sobre alternativas antes de optar por seguir um determinado curso de ação. Esse, na verdade, pode ser um excelente critério para demarcar que animais possuem consciência e que animais não a possuem.

O critério seria o seguinte. Quando quer que o sistema nervoso de um animal seja complexo o suficiente para ter alternativas comportamentais diante de um estímulo, estamos diante de um animal com consciência. Quanto mais complexas forem essas alternativas comportamentais, mais complexo o sistema nervoso, mais complexo o nível de consciência desse animal.

Estar consciente de algo, portanto, é estar diante de opções, de alternativas de comportamento, as quais devem ser julgadas, comparadas, aceitas ou eliminadas.

Na verdade, esse tipo de processo comparativo acontece todo o tempo no nosso cérebro, tanto em nível consciente quanto em nível inconsciente.

Em nível inconsciente, esse tipo de atividade pode acontecer “em paralelo”, isto é, múltiplas cadeias de eventos, pensamentos, desejos podem ser entretidas ao mesmo tempo, com toda a rede neuronal podendo trabalhar sem impedimentos.

Diferente é o caso dos processos conscientes, cujo processamento tem sempre de ser linear e limitado. Utilizando mais uma vez a metáfora do ‘teatro’, nem todo mundo pode estar no palco ao mesmo tempo. Os processos conscientes são, então, entre os processos cerebrais, aqueles que atraem para si mais atenção, que são tidos pelo psiquismo como mais relevantes no momento.

Por exemplo, quando em vigília, é fácil entender por que tanta atenção (leia-se: consciência) é dedicada aos fenômenos perceptivos. É, afinal, através de nossas percepções que obtemos dados fundamentais para nossa sobrevivência. Precisamos monitorar constantemente o mundo tentando tanto detectar fontes potenciais de ameaça quanto fontes potenciais de satisfação.

Não causa espanto, portanto, que quanto maior foco for dado aos eventos perceptivos, menos “espaço” pode ser dedicado a funções mais reflexivas, por assim dizer. Inversamente, quanto mais concentrados estivermos em nossos próprios pensamentos, menos atentos estaremos ao que se passa à nossa volta. Essa inequívoca e intrínseca limitação da consciência pode ser celebremente ilustrada com a história de Tales de Mileto, que de tão absorto em sua contemplação do cosmos, não olhou o caminho à sua frente e caiu num buraco.

* * *

E os sonhos?

O sonho é um momento privilegiado de ensaio e experimentação. É o momento de consolidar o que se aprendeu durante o dia, bem como de eliminar os restos desnecessários.

Com efeito, com a motricidade paralisada e sem o influxo contínuo das percepções (do mundo exterior), a energia psíquica pode ser redirecionada para testar diferentes combinações, conexões, associações entre seus diversos conteúdos.

Entretanto, sem a premência de agir, de interagir, o aparelho psíquico pode ‘indulgir-se’ em associações, combinações e trocas simbólicas de/entre suas representações que não precisam respeitar as regras do mundo da vigília.

No sonho, como em vigília, buscamos a ‘realização de desejo’. No sonho, entretanto, podemos experimentar mais livremente, testar mais combinações, com o intuito de que, nesse processo criativo, novas estratégias possam ser concebidas, descobertas. Com efeito, com a censura reduzida durante o sono (leia-se: com riscos reduzidos para as experimentações psíquicas), o critério de ‘consistência e linearidade’ exigido pela vigília é relaxado, e assim as imagens podem fluir mais livremente, associando-se e desassociando-se de outras imagens ou representações. Ou seja, sem as restrições práticas da vigília — sem o ‘perigo real e imediato’ — o fluxo das representações pode intensificar-se e o ‘comércio’ simbólico entre as mesmas pode ganhar outra escritura.

Em uma palavra: ao sonhar, ensaiamos livre e ‘loucamente’; ao pensar (em vigília), ensaiamos pragmática e estruturadamente. Tudo isso para que, ao agir, nossas chances de sucesso sejam maximizadas.

* * *

Com esses três primeiros artigos, já reunimos o instrumental conceitual necessário para abordar a questão central da realidade na teoria psicanalítica, a aplicação teórica final que pretendíamos extrair da reformulação da tópica freudiana proposta.

Faremos isso em duas etapas. Na primeira, examinaremos o que a ciência nos tem a dizer a respeito da realidade. Na segunda, trataremos propriamente da abordagem psicanalítica, aproveitando para destacar os contrastes e semelhanças entre as duas concepções. Será o objeto central do próximo — quarto e último — artigo da série.

REFERÊNCIAS

BAARS, B. In the Theater of Consciousness: The Workspace of the Mind, NY: Oxford University Press, 1997.

CRICK, F. The Astonishing Hypothesis: The Scientific Search For The Soul. Scribner reprint edition. 1995.

BULCÃO NASCIMENTO, M. (2007) A Constituição da Realidade no Sujeito: Psiquismo, Real e Epistemologia, Salvador: Edufba.

EDELMAN, G., TONONI, G. Consciousness – How matter becomes Imagination, Basic Books, 2000, Reprint edition 2001.

FREUD, S. (1892-1899), Extracts from the Fliess papers. Standard Edition, 1: 173-280.

FREUD, S. (1895), Project for a scientific psychology. Standard Edition, 1: 295-387. London: Hogarth Press, 1964.

FREUD, S. (1915a), The unconscious. Standard Edition, 14: 166-204. London: Hogarth Press, 1957.

FREUD, S. (1915b), Instincts and their Vicissitudes. Standard Edition, 14: 166-204. London: Hogarth Press, 1957.

PUTNAM, H. (1981). Reason, Truth, and History. Cambridge University Press.

QUINE, W. v. (1990). Pursuit of Truth. Cambridge: Harvard.

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marcos bulcão nascimento é doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo-USP (2005), com doutorado sanduíche pela University of South Carolina (E.U.A.: 2003-04). Graduou-se em Filosofia também pela USP (1995), tendo feito seu mestrado em Teoria Psicanalítica na Université de Paris VIII (França: 1998).

Tem ainda pós-doutoramento pela UFBA (Prodoc-Capes, 2006-07), onde também lecionou, e pela USP (Fapesp, 2008-11), com estágio de pesquisa na University of London — Birkbeck College (Inglaterra: 2009).

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FREUD E A METAPSICOLOGIA III

Por uma nova tópica: a consciência e os sistemas psíquicos

 

RESUMO: Este é o terceiro de uma série de quatro artigos sobre Freud e a metapsicologia.

Nos dois primeiros artigos, a partir de um retorno conceitual-heurístico ao Projeto de 1895, nós oferecemos uma solução para o problema da consciência e apresentamos as principais implicações disso para o aparelho psíquico.

Nesse artigo, nós faremos a transição/tradução vocabular do ‘primeiro’ ao ‘último’ Freud, aproveitando para descrever em maior detalhe as relações entre a consciência e os ‘verdadeiros’ sistemas psíquicos — o Ics e o PCs — particularmente no que diz respeito aos seus conteúdos psíquicos.

 

PALAVRAS-CHAVE: consciência; sistemas e conteúdos psíquicos; representações; dualismo vs. materialismo

FREUD AND METAPSYCHOLOGY III

Towards a new topology: consciousness and the psychical systems

 

ABSTRACT:

This is the third of four articles about Freud and his metapsychology.

In the first two papers, from a conceptual-heuristic return to the Project, we have offered a solution to the problem of consciousness and presented the main implications for the psychical apparatus.

In this paper, we will “translate” the vocabulary from the ‘first’ to the ‘last’ Freud in order to describe in greater detail the relationship between consciousness and the ‘real’ psychical systems — the Ics and the PCs — particularly in regards to their psychical content.

KEYWORDS: consciousness; psychical content and systems; representations; dualism vs. materialism


[1] Essa série de artigos é fruto da pesquisa desenvolvida durante meu pós-doutoramento junto à Universidade de São Paulo e financiado pela Fapesp.

[2] Cf. Freud e a Metapsicologia I e II.

[3] Esta parece, com efeito, a vertente dominante nos dias de hoje. Cf., por exemplo, Edelman, Crick, Baars.

[4] Que seja repetido que, mesmo depois de abandonar o vocabulário fisicista do Projeto, Freud manteve-se fiel à idéia de que havia uma localização específica para a consciência, fazendo dela um ‘verdadeiro sistema’.

[5] Já que o sistema f não é, propriamente falando, um sistema psíquico. Ele, antes, fornece informações preciosas ao sistema psíquico, sendo uma espécie de ‘mediador’ entre o mundo exterior e o psiquismo.

[6] Exceções poderiam ser pensadas, ou melhor empiricamente observadas, nos animais domésticos. Mas, nesses casos, não é preciso muita ginástica conceitual para dizer desses animais que eles também são ‘atravessados’ pela linguagem e cultura humanas. E isso pode ser afirmado inclusive do ponto de vista genético, já que seus cruzamentos e conseqüente seleção de espécimes freqüentemente foram/são feitos com vistas a atender e satisfazer interesses humanos.

De qualquer modo, como parte de um exercício de ‘prudência’, podemos pensar essa noção de ‘satisfação plena’ nos animais não de forma absoluta, mas como suscetível a ‘graus’. Nesse caso, quanto mais ‘simples’ — em termos de sistema nervoso, por exemplo — for o animal, mais ‘plena’ por assim dizer é sua satisfação, porque menos possibilidades de associações nervosas e conseqüentemente comportamentais entre os diferentes tipos de estímulos. Mesmo admitindo ‘graus’ — e queremos admiti-los —, a distinção acima não perde seu valor didático.

[7] Novamente, é prudente admitir “graus” para essa “pré-determinação genética”.

[8] As chamadas ‘facilitações’ (Bahnungen).

[9] Posto que as pulsões são a única fonte de energia do psiquismo.

[10] Vide primeiro artigo da série: Freud e a Metapsicologia I – O problema da consciência: solução.

[11] Também conhecido como “token fisicalism”.

[12] “Ontologia”, aqui, refere-se apenas ao conjunto de ‘objetos’ (‘substâncias’, ‘seres’) que assumimos como existentes ou reais.

[13] O cérebro tomado como conjunto de suas partes componentes, que são, em última instância, as partículas físicas elementares.

[14] Cf. primeiro artigo da série.

[15] Leia-se: “candidatos mais óbvios para ‘se tornarem conscientes’”. Mesmo a consciência não sendo um sistema, um ‘lugar’, não precisamos abdicar do uso da expressão corrente ‘acesso à consciência’. Nesse e em outros casos semelhantes, deve-se fazer a óbvia ‘tradução’.

[16] De fato, como vimos no artigo primeiro: para se tornarem conscientes, os pensamentos… “têm de passar o ‘teste da consistência’. Aqui nós poderíamos falar da diferença entre os processos inconscientes, multi-modais, ‘processados em paralelo’, e os processos conscientes, lineares, ‘processados serialmente’. Em outras palavras, enquanto as representações inconscientes não têm de ser coerentes, consistentes, compatíveis umas com as outras, as representações conscientes têm de exibir essa coerência. Deste modo, as representações ou conjunto de representações que não satisfazem essas condições têm de ser, de algum modo, “traduzidas” para se ajustar às mesmas”.

Notemos que aqui e em outros pontos dessa série de artigos, nós nos valemos de uma certa ‘liberdade terminológica/conceitual’, o que é consistente com nosso propósito de aplicar a solução e raciocínios desenvolvidos a uma teorização mais contemporânea, por assim dizer.

[17] Inversamente, as experiências desagradáveis teriam a “marca da repulsa”, por assim dizer.

[18] Termo tomado de empréstimo a Putnam. “No sentido de transducer, transformador de energia que transforma inputs de energia em outputs de energia de diferente tipo: um microfone, por exemplo, é um transdutor na medida em que transforma energia “sonora” em energia “elétrica” (cf. PUTNAM, H. Reason, Truth, and History, p. 172).

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