O problema da consciência: solução


FREUD E A METAPSICOLOGIA I

O problema da consciência: solução

 

Marcos Bulcão Nascimento (USP-Fapesp)[1]

(mbulcao@gmail.com.br)

Aquele que ler atentamente o Projeto de 1895, as cartas subseqüentes a ele (especialmente a Carta 39), e seguir a obra de Freud até o final, perceberá espontaneamente que um problema em específico o afligiu durante toda sua vida intelectual: o problema da consciência. Qual sua localização exata? Qual a explicação de suas singularidades? — são algumas das perguntas que ficaram sem resposta. Apesar disso, a psicanálise progrediu.

Porém, o fato de que Freud tenha conseguido manejar suas construções teóricas sem resolver propriamente tal problema não deve minimizar a importância teórica que tinha a seus olhos, sendo abundantes as oportunidades em que ele salienta a importância do mesmo[2]. Deste modo, uma solução adequada para tal problema pode certamente gerar grandes benefícios teóricos (e, conseqüentemente, práticos) para a Psicanálise, propiciando não apenas a oportunidade de resolver enigmas passados como também de rever certos encadeamentos teóricos não totalmente satisfatórios.

A relevância do problema da consciência torna-se ainda mais explícita quando nos lembramos de seu papel chave para a obtenção do “critério de distinção” ou do que Freud chamou de “teste ou prova de realidade”. De fato, desde o Projeto, é fundamental, para o psiquismo, distinguir o objeto percebido do objeto rememorado, contar com os signos de qualidade fornecidos pela consciência. Com efeito, o psiquismo usaria esses “signos de qualidade” como “signos de realidade”, apontando, assim, a ‘direção correta’ aonde dirigir a atenção psíquica e realizar a ação específica. Ora, acontece que essa “solução” freudiana para o critério de distinção, no entanto, o leva a paradoxos até então insolúveis.

O que tentaremos fazer aqui é proceder a um exame minucioso do problema da consciência e mostrar é que a consciência não é um sistema propriamente dito e, portanto, não possui uma localização tópica determinada. O que essa solução proposta nos trará, portanto — além de nos propiciar um critério (mais) satisfatório de distinção (para a prova de realidade) — é um novo modo de pensar a questão tópica dos sistemas psíquicos.

* * *

A solução do problema da consciência não se resume, deste modo, apenas ao prazer intelectual de eventualmente pôr fim a um enigma secular. Nós acreditamos que sua influência vai além. De fato, se a solução deste problema que tanto afligiu Freud é aceita como meritória, então devemos, na extensão desse mérito, retornar nossos olhos com redobrada atenção ao Projeto de 1895 bem como à carta 39. Não poderia realmente ser de outra maneira, pois se aí se encontram as chaves para a solução de um problema que se estendeu às demais tópicas freudianas, então se torna claro que o valor de tais textos pode ultrapassar em muito o meramente histórico. Pode-se agora voltar a tais textos não mais na intenção de provar que “toda a psicanálise já estava ali contida em germe”, mas naquela de se valer deles para eventualmente reconstruir uma nova tópica freudiana. Reconstrução que pode ser tanto a partir dos sistemas f-y quanto a partir das últimas tópicas, as quais, naturalmente, teriam de ser repensadas à luz das descobertas e soluções obtidas.

E, acreditamos, tal reconstrução não traria dificuldades tão assustadoras. É verdade que o Projeto de 1895 trata com sistemas de neurônios, vocabulário há muito extinto na teorização psicanalítica, mas mesmo lá (parte III do Projeto) já vemos que a importância central se concentra no seu aspecto representacional. Os neurônios eram a “matéria-prima” dos sistemas f e y, mas a ‘prima-dona’ era já a representação que o ocupava ou investia[3]. Além disso, a uma leitura precisa se revela que o y núcleo e o y pallium não somente guardam grandes aproximações teóricas com os sistemas Ics e PCs respectivamente, como também, sob certos aspectos, lhes acrescentam características complementares e extremamente frutíferas. Com efeito, sua própria concepção original associada a um sistema físico (em oposição a psíquico) lhes permite, por vezes, explicitar melhor algumas relações energéticas.

Assim, é nossa hipótese e aposta que vários conceitos centrais da psicanálise, e em especial a interconexãodesses conceitos, podem ganhar enorme depuração teórica com essa reformulação da tópica freudiana e o resgate para a teoria atual destes textos preciosos que se mostraram cruciais na solução de problema tão delicado.

* * *

Naturalmente, num único artigo, não poderemos senão abordar alguns dos muitos aspectos envolvidos nessa questão tão complexa quanto central à teoria freudiana, de onde o ensejo e a necessidade de outros artigos — quatro no total — que complementarão a série.

I

Nós retornaremos assim ao Projeto de 1895 e buscaremos nele o instrumental conceitual necessário para resolver um problema que atravessa toda a teoria freudiana, a saber, o problema da consciência.

O que nós tentaremos fazer, então, é:

(a) propor uma solução para o problema da consciência;

(b) tentar proceder, a partir da mesma — isto é, a partir dos conceitos retrabalhados em sua solução — a uma reescrita das tópicas freudianas.

Nessa reescrita, naturalmente, nós procuraremos gradualmente transpor — ou mesmo “traduzir” — essa terminologia mais “fisicista/neurológica” presente nesses textos de modo a fazer coincidir com a terminologia mais “psicológica” do último Freud[4].

Dado que os conceitos do Projeto são fundamentais nessa primeira fase, esse capítulo conterá uma exposição mais detida dos mesmos. Ao mesmo tempo, aproveitaremos essa exposição para circunstanciar nosso problema e mobilizar o arsenal conceitual requerido para sua solução.

No fim, nosso maior objetivo é atingir uma concepção, tão precisa quanto possível, do aparelho psíquico, de sua estrutura e funcionamento.

Realmente, a concepção freudiana do aparelho psíquico constitui o núcleo mesmo de sua teoria. Apesar disso, os modelos topográficos construídos por Freud não estão livres de problemas ou paradoxos. De fato, pelo menos um deles o perseguiu durante toda sua vida, a saber, o problema da consciência.

Estrategicamente, então, nós primeiramente atacaremos esse problema e, ao propor uma solução para ele, nos colocaremos numa melhor posição para tentar obter uma visão mais consistente do aparelho psíquico, da teoria freudiana como um todo.

Ao fazer isso, nós subscrevemos à idéia de que a concepção freudiana da consciência traz algo cuja importância vai além de uma mera curiosidade histórica, traz algo que possui um valor atual e presente.

Importante dizer, nós não estamos sozinhos nessa aposta. Mais do que isso, estamos em ótima companhia. Thomas Natsoulas merece uma menção especial aqui, dada sua notável série[5] de artigos dedicados ao tema. Nós aqui seguimos suas pistas e partilhamos seu ponto de vista de colocar Freud como um grande teórico da consciência e, portanto, da importância de dedicar esforços na elucidação desse aspecto crucial de sua teoria[6]. Seu trabalho será um significativo ponto de referência em todo esse capítulo.

* * *

Nossa estratégia consistirá de dois movimentos principais.

(1). Primeiramente, nós tentaremos, desde o começo, contextualizar o problema da consciência em relação ao papel que ela desempenha dentro da teoria freudiana, particularmente dentro do aparelho psíquico[7].

As questões centrais que nos concernem são:

De acordo com a teoria freudiana:

(a). Quais são as principais funções do aparelho psíquico? O que ele tenta evitar, o que ele tenta realizar?

(b). Qual é a função da consciência nesse contexto, isto é, que papel ela desempenha de modo a que o aparelho psíquico possa atingir seus objetivos?

Finalmente:

(c). Que problemas conceituais são gerados para que a consciência possa executar apropriadamente suas funções?

(2). Em segundo lugar, nós tentaremos oferecer uma solução ao problema da consciência, defendendo a idéia de que as inconsistências ou paradoxos na concepção freudiana podem ser removidos se nós fizermos um ajuste especial na teoria.

O que nós vamos propor é que um modo privilegiado de evitar algumas das grandes dificuldades envolvidas na teoria é — nós antecipamos — eliminar o sistema da consciência enquanto sistema, isto é, eliminar o sistema w de neurônios[8].

Nesse sentido, nós vamos diferir da abordagem tentada por Natsoulas, que afirmou que não iria “escrever nem como competidor nem como revisor” e nem iria “propor remover os defeitos para que a concepção freudiana pudesse executar melhor suas funções” (Natsoulas, 1992, p. 174).

Todavia, nós não iremos oferecer uma solução teoricamente indisponível para Freud no tempo de seus escritos. Com efeito, nós defendemos que a solução aqui proposta poderia ter sido atingida pelo próprio Freud em sua época, especialmente se ele tivesse dado o passo-chave de abandonar a idéia de um lugar específico para a consciência[9]. Nesse sentido, também aqui “um especial esforço é feito para permanecer fiel à própria concepção freudiana da consciência” (Natsoulas, 1992, p. 171).

 

II

Apesar de seus valiosos esforços no estudo do problema, Natsoulas de certo modo falhou em contextualizar o problema da consciência, e isso pode ser visto como uma conseqüência de sua abordagem. Realmente, as escolhas de Natsoulas quanto a quais premissas são centrais na concepção freudiana da consciência conduziram a problemas insuperáveis, os próprios problemas que acompanhariam Freud até o fim.

A premissa problemática que Natsoulas toma como central é justamente a idéia de um lugar, uma sede para a consciência, a qual, por sua vez, empresta credibilidade à primeira distinção-chave que ele faz em sua série de artigos, a saber, a distinção entre consciência básica (ou intrínseca) e consciência derivada[10].

Essa escolha terá conseqüências decisivas em relação a como Natsoulas constrói a concepção freudiana da consciência, em relação a como ele explica certas passagens difíceis, a como ele levanta certas questões ou desmerece certas interpretações, por exemplo, a hipótese da consciência como (meramente) um “apêndice”[11].

Diferentemente, nosso primeiro passo consiste em abordar a questão da consciência como ‘secundária’ em relação ao aparelho psíquico. Esse é um passo importante principalmente porque ele enfatiza o fato de que a concepção freudiana da consciência nasceu e cresceu no contexto das funções e propósitos do aparelho psíquico, e não o contrário.

Esse passo é também importante porque ele nos fornece um critério em relação a quais conceitos deveriam ser considerados mais centrais e “intocáveis” e quais conceitos são mais “ajustáveis” ou revisáveis. Os conceitos (mais) centrais são aqueles relacionados aos propósitos principais do aparelho psíquico, aqueles sem os quais o aparelho psíquico não pode desempenhar suas funções. Conversamente, os conceitos mais revisáveis são aqueles nos quais ajustes podem ser feito sem prejudicar o funcionamento do aparelho psíquico.

Mais concretamente, o ponto que queremos estabelecer é o seguinte. Embora Natsoulas esteja obviamente bem respaldado ao dizer que Freud manteve a idéia de um lugar ou sede para a consciência até a última de suas obras, nós argumentaremos que revocar/questionar essa posição é apenas aparentemente uma alteração maior na visão freudiana das coisas (dado que, naturalmente, esse ajuste seja capaz de preservar os principais objetivos visados pela teoria).

Então, antes de tudo, nós temos de perguntar e ser tão claros quanto possível ao definir:

(a). Quais são os principais propósitos do aparelho psíquico?

(b). O que é necessário para que ele atinja tais propósitos?

(c). Qual o papel da consciência nesse contexto?

 

III

Freud (1920) reflete sobre os fundamentos para a existência de uma “compulsão à repetição”, algo que ele remonta a um “instinto a retornar ao estado inanimado”. Uma tal tendência é assim explicada: todos os ‘sistemas’ (seres), vivos ou inanimados, têm como sua lei mais primitiva a eliminação de toda energia/quantidade que os invade. Num sistema/ser inanimado, isso não é um problema. Toda quantidade (Q) que aí entra (ou o atinge) pode ser imediatamente removida (defletida) por uma espécie de “ação reflexa”, seguindo o chamado “princípio de inércia”. Um organismo vivo, no entanto, não pode funcionar seguindo apenas esse princípio. Recorrendo apenas à ação reflexa, o organismo pode até eliminar as quantidades vindas de fora (exógenas), mas não conseguirá se livrar daquelas vindas de dentro (endógenas). Deste modo, o organismo vivo deve encontrar outra solução. Do estímulo interno, não há fuga direta/imediata.

A solução, de acordo com Freud, está em ser capaz de suportar certa acumulação de quantidade/energia no sistema. Não sendo capaz de erradicar imediatamente toda quantidade, a tarefa agora é mantê-la num nível controlado, de modo que, uma vez que exceda um determinado limite, ela possa ser descarregada através de uma ação apropriada no mundo exterior (a chamada “ação específica”). No sistema vivo, o princípio de inércia deve dar lugar ao “princípio de constância”: manter o nível de excitação/energia tão baixo quanto possível ou, pelo menos, mantê-lo constante.

Uma reflexão similar pode ser achada no Projeto[12], cerca de vinte e cinco anos antes, mas naquele tempo no contexto de um sistema neuronal, base material do primeiro modelo freudiano para o aparelho psíquico. Lá, Freud diz que o objetivo primário de um sistema neuronal é aquele de se livrar da quantidade (Q) (Freud, 1895, p. 296), seguindo o modelo do arco reflexo e respeitando o princípio de inércia. Ali é dito ainda que o sistema neuronal de um organismo vivo não pode funcionar apenas de acordo com esse princípio, pois a ação reflexa não é o bastante para eliminar a pressão constante do estímulo endógeno. Como acima, a solução é conseguir suportar certo acúmulo de Q. O sistema neuronal deve agora respeitar o princípio de constância, o que significa ser capaz de manter Q no organismo em níveis optimais até que seja capaz de eliminá-la por meios de uma apropriada (específica) ação no mundo exterior.

Tanto num lugar quanto no outro, observe que nós temos o mesmo objetivo fundamental para organismo/sistema vivo: evitar Q, de um lado; suportar/eliminar Q, de outro.

Devemos observar ainda que esse modelo “energético” do aparelho psíquico será mantido em todas suas formulações através da obra freudiana. Realmente, a despeito de diferenças no vocabulário, o objetivo do aparelho psíquico será sempre o mesmo, dos primeiros textos até os últimos: administrar quantidades (Q), proteger o sistema de um excesso de tensão. O aparelho psíquico saudável é aquele que consegue manter um balanço ótimo das quantidades. Conversamente, aquele que não consegue lidar ou livrar-se satisfatoriamente das tensões, adoece. Os sintomas são, propriamente falando, fruto de um acúmulo indevido de tensão em um sistema incapaz de drenar adequadamente as quantidades que o invadem.

Mencionar o Projeto aqui não é, insistimos, meramente devido a uma curiosidade histórica. Na verdade, proceder a uma minuciosa análise do mesmo é chave para nossos propósitos, pois, na nossa visão, em nenhum outro lugar encontra o aparelho psíquico uma versão mais concreta ou bem definida, em nenhum outro lugar o materialismo de Freud é mais evidente. Com efeito, ali é o lugar onde o aparelho psíquico é mais explicitamente descrito como um sistema físico, como uma parte física do cérebro. E Freud nunca abandonou exatamente esse ponto de vista ‘materialista’, nem mesmo quando ele elegeu um vocabulário (mais) ‘psicológico’ em relação a um vocabulário (mais) ‘fisicalista’. O assim chamado “dualismo freudiano” não passa de um mal-entendido. Como Natsoulas bem colocou:

“A respeito da relação entre o mental e o físico, Freud era um materialista, assim como o são a maioria dos psicólogos hoje em dia. Em sua visão, a mente ou aparelho psíquico era antes um sistema físico do que algo mental, o qual se situava no corpo humano numa relação interativa, paralela, epifenomênica. O dualismo corpo-mente que algumas pessoas detectam na obra ulterior de Freud (ex. 1938) é, na verdade, um [dualismo] metodológico, não um substantivo. Além disso, seus enunciados de coloração dualista são uma admissão de ignorância em relação a como processos psíquicos podem possuir aquelas propriedades que lhes dão um ‘aspecto subjetivo’ (Natsoulas, 1984, pp. 196-7).

Este ponto merece ênfase, pois não deveria haver qualquer dúvida que na visão de Freud o aparelho psíquico é literalmente (parte de) um sistema físico. No caso específico do Projeto, o aparelho psíquico será concebido como um aparato neuronal.

 

IV

O Projeto começa com uma referência a seus dois conceitos básicos: “os neurônios devem ser tomados como as partículas materiais” e Q representa a “concepção da excitação neuronal como quantidade num estado de fluxo”, sujeita portanto às leis gerais do movimento (Freud, 1895, p. 295-6).

Freud concebe o aparelho psíquico como o resultado de uma relação entre três sistemas de neurônios, assumidos originalmente como idênticos entre si, mas funcionalmente diferenciados pelas posições relativas que eles ocupam dentro do aparato.

Primeiramente, há um sistema de neurônios f (lê-se ‘PHI’), encarregado da recepção dos estímulos externos.

Depois, há o sistema y (PSI), o qual “está fora de contato com o mundo exterior; ele apenas recebe Q, de um lado dos neurônios f, e de outro dos elementos celulares no interior do corpo” (Freud, 1895, p. 304).

Finalmente, há w (ÔMEGA), um sistema especial de neurônios, capaz de capturar informações-chave transmitidas por f (através de seu “período”) e produzir, a partir daí, qualidade perceptiva. É o chamado sistema percepção-consciência.

No Projeto, os sistemas são assim ordenados: f – y – w.

A relação entre os três sistemas podem assim ser brevemente descritas.

Toda quantidade vinda de fonte externa atinge o aparelho psíquico através de f.

Esta quantidade externa será então ‘quebrada’ em partes muito menores de tal modo que a “quantidade em f é expressa via complicação em y” (Freud, 1895, p. 315). Em outras palavras: quanto mais intensa a quantidade em f, mais ramificados serão os caminhos em y. Deste modo, y trabalha com níveis muito menores de quantidade (Q) do que f.

Quanto a w, o sistema percepção-consciência, nenhuma quantidade de f o atinge. Em lugar de quantidades, w captura seu período. O ‘período’ é descrito por Freud como um fator de “natureza temporal”, o qual é transmitido em todas as direções sem inibição ou resistência através dos neurônios, “como se fosse um processo de indução”. Através do período, características discriminativas essenciais do mundo exterior podem ser capturadas pelo aparelho psíquico. Freud acrescenta também que “Os neurônios y têm também seu período, claro; mas ele é sem qualidade ou, mais corretamente, monótono” (Freud, 1895, p. 310). É então o aspecto “variado” (não-monótono) dos períodos vindos de f que podem ser “interpretados” em w como qualidades.

Tendo, porém, assumido todos os neurônios como originalmente idênticos, como explicar essa especialização funcional dos três sistemas?

Freud tenta fornecer uma explicação mecânica, quantitativa para isso[13].

Primeiro, os neurônios f, estando sujeitos a uma intensa quantidade do mundo exterior, não conseguem barrar a passagem da quantidade e permanecem assim totalmente permeáveis a ela. Em outras palavras, os neurônios f deixam a quantidade passar completamente, sendo incapazes, portanto, de gerar memória. De outro lado, a intensidade da quantidade também os impede de produzir qualidade.

Os neurônios y, por sua vez, recebendo apenas as quantidades endógenas (que são de magnitude reduzida) e os já enfraquecidos estímulos de f, são capazes de oferecer alguma resistência[14] à passagem de quantidade e assim de retê-la, sendo por ela preenchidos. Eles são mais impermeáveis aos estímulos e portanto capazes de produzir memória. Não de produzir quantidade, porém, já que seu período é monótono.

Finalmente, os neurônios w — já protegidos do excesso de quantidade tanto por f quanto por y — são atingidos por quantidades virtualmente nulas, o que lhes permite produzir qualidade.

w não pode produzir memória, porém, já que os neurônios encarregados de percepção devem sempre estar livres para receber novos estímulos. Com efeito, memória parece implicar retenção permanente de informação, alteração permanente dos neurônios envolvidos, enquanto percepção e consciência parecem requerer neurônios sempre ‘frescos’ para novas impressões. Percepção (consciência) e memória são pensados como sendo mutuamente incompatíveis[15].

 

V

 

As primeiras experiências humanas

De acordo com Freud, os seres humanos nascem prematuramente, tanto física quanto psiquicamente. Como resultado, eles exibem mais plasticidade, uma maior capacidade de aprender, mas também requerem um maior período de dependência.

Este fato terá conseqüências decisivas no desenvolvimento da criança.

Primeiramente, incapaz de sobreviver por si mesma, ela precisará que outro ser humano venha a seu socorro.

Em segundo lugar, na falta de instruções básicas de sobrevivência, ela terá de adquirir através da experiência — e especialmente através de outras pessoas — quase toda informação necessária para seu sucesso.

Assim precariamente preparada para a vida, a criança não tem nenhuma outra possibilidade além de gritar/chorar quando perturbada por uma estimulação interna conectada com suas necessidades físicas. “Mas… nenhuma descarga pode produzir um resultado duradouro, uma vez que o estímulo endógeno continua a ser recebido e a tensão em y é restaurada” (Freud, 1895, p. 317). A chegada de outra pessoa é requerida para prover as necessidades da criança. Não há nada exceto essa ajuda externa para fazer cessar a estimulação endógena.

Uma vez removida, tal tensão interna dará lugar a uma experiência de satisfação (Befriedgungserlebnis), a qual será registrada pela criança e será, por assim dizer, sua primeira instrução de sobrevivência. Após isso, esta experiência será interpretada pela criança como um modo privilegiado de descarga/satisfação.

“Assim, como um resultado da experiência de satisfação, uma facilitação (Bahnung) é criada entre as duas imagens mnêmicas e os neurônios nucleares, os quais são investidos no estado de urgência” (Freud, 1895, p. 319) de tal modo que, quando o estado de necessidade reaparece, um impulso psíquico tentará re-investir a imagem mnêmica do objeto (leite, seio) com a finalidade de reproduzir a satisfação original. Em outras palavras, após a re-ocorrência do estado de urgência, a quantidade irá fluir através do caminho facilitado e re-investir aqueles neurônios y (pallium[16]) — aquelas imagens mnêmicas — envolvidos na experiência prévia de satisfação. Não havendo, contudo, a presença de um objeto real, o que se segue é uma alucinação.

Como escreveu Freud:

“Não tenho dúvidas de que, num primeiro momento, essa ativação de desejo produzirá a mesma coisa que uma percepção — a saber, uma alucinação. Se a ação reflexa se segue após isso, decepção não pode deixar de ocorrer” (Freud, 1895, p. 319).

Esse caminho ‘direto’ para a satisfação — envolvendo o assim chamado ‘processo primário’ — se revela, portanto, inadequado. Sem o objeto externo, a urgência não é removida.

O primeiro desejo humano é, assim, intimamente associado com o processo alucinatório. O que a atividade desejante procurava era obter “identidade perceptiva”, isto é, reproduzir a percepção conectada à remoção do estado de urgência.

Tendo a satisfação alucinatória se revelado ineficaz, contudo, a criança terá de obter sua segunda instrução vital: ela deverá aprender a distinguir entre o objeto real e o objeto alucinado, a distinguir entre percepção e memória.

Aqui o sistema w — sistema percepção-consciência — entra em cena e acha sua missãochave: habilitar o aparelho psíquico a discriminar entre percepção e memória, a desempenhar o que Freud chamou “teste de realidade”.

Vamos relembrar a interação entre os três sistemas.

A quantidade vinda do mundo exterior (Q) primeiro atinge f, após o que magnitudes reduzidas atingem y, onde elas podem ser retidas e registradas. De outro lado, quando f é estimulado, w se apropria do período de excitação e então o fenômeno da percepção-consciência tem lugar, com qualidade sendo produzida.

Vamos agora acrescentar que, quando w gera qualidade, uma pequena descarga é produzida e informação da mesma atinge y, indicando que houve percepção de um objeto real (e não apenas lembrança). Em outras palavras, a “indicação de qualidade” (em w) também funciona como uma “indicação de realidade”.

Confiando nesse ‘critério’, o aparelho psíquico pode então distinguir entre percepção (objeto externo) e memória (objeto interno) e assim prevenir a satisfação alucinatória, inibindo deste modo o processo primário e abrindo espaço para que o processo secundário assuma a proeminência no controle dos processos psíquicos (Freud, 1895, p. 323 seg.)[17].

 

VI

 

Ligação (Bindung) e psiquismo

O aparelho psíquico humano deve ser então examinado sob dois aspectos: enquanto organismo vivo, ele deve ser capaz de acumular energia/quantidade; enquanto organismo ‘prematuro’, ele deve aprender como obter satisfação.

A primeira condição será atingida pela operação de ‘ligação’ das quantidades; a segunda envolverá uma tendência a repetir a experiência primária de satisfação, a qual será daí em diante o modelo privilegiado de toda satisfação futura.

O conceito de ‘ligação’ envolve como noção subjacente a importante distinção entre os estados livre e ligado das quantidades, uma distinção-chave que aparece na obra freudiana tão cedo quanto em 1894/1895 (Manuscrito G), adquire mais importância no Projeto (1895), e permanece válida ao longo de toda sua obra[18].

Com efeito, o aparelho psíquico, forçado por um acúmulo de Q, deve tomar providências para sua descarga. Não sendo capaz de livrar-se completamente da tensão via ação reflexa, ele deve capturar e transformar essa energia que o invade. Tal captura ou transformação é essencialmente feita pelos mecanismos de ligação (Bindung) e investimento/catexe (Besetzung).

Uma vez capturada, contudo, a excitação não é simplesmente conduzida em direção à descarga. Ela é de algum modo transformada. Ela passa de energia somática a energia psíquica. A diferença entre os dois tipos de energia é coextensiva à diferença entre Q nos estados livre e ligado. Nós podemos mesmo dizer que o psiquismo é propriamente inaugurado pela ligação de Q[19].

O que acontece então?

De acordo com Freud, ligar a energia equivale a mudá-la de um estado livremente móvel a um estado onde a energia está contida. Em outras palavras, a ligação de Q é equivalente à capacidade dos neurônios de manterem seus investimentos/catexes. A ligação consiste propriamente numa restrição ao livre processo de escoamento das excitações.

Conectando isso à experiência primária de satisfação, nós podemos contar a seguinte história.

Nós temos uma quantidade endógena, somática, livremente móvel (Qή) fazendo crescente pressão em y e criando, assim, um ‘estado de urgência’. Com a experiência de satisfação, caminhos especiais — facilitações — são criados entre as imagens mnêmicas ativadas durante o processo e os neurônios nucleares. Uma vez reativado tal estado (de urgência), a Qή irá seguir preferencialmente aqueles caminhos/facilitações.

Com o tempo, contudo, o aparelho psíquico aprende que ele deve evitar a satisfação alucinatória e, deste modo, deve abster-se de autorizar uma descarga direta e esperar receber as indicações de qualidade (que lhe ‘garantem’ estar diante de uma percepção/objeto real). Ora, o modo de conseguir isso é ligar a quantidade livremente móvel. Ao proceder assim, o aparelho psíquico consegue reduzir a pressão interna[20] — desde que a quantidade interna de movimento é reduzida — e ‘ganhar tempo’ até que as indicações de qualidade/realidade possam chegar.

A era dos processos secundários pode então começar.

 

VII

 

Dos processos primários aos processos secundários

O conceito de ligação está intimamente ligado àquele de ego, pois ele também desempenha um papel fundamental na inibição do processo primário e conseqüente passagem ao processo secundário.

Nós vimos que o aparelho psíquico tinha de aprender a distinguir entre memória e percepção, para que ele pudesse saber quando autorizar a descarga de modo a obter a satisfação desejada. Contudo, o que temos de ver é que não é o bastante ter os meios de distinguir entre percepção e memória para evitar o processo primário. Na verdade, para que as indicações de qualidade/realidade tenham alguma utilidade, é preciso que o processo primário já tenha sido inibido. Caso contrário, antes mesmo de as indicações de descarga em w chegarem, o processo primário já teria ocorrido, com a conseqüente alucinação. E é aqui que o ego desempenha seu papel central.

Vamos examinar por quê.

Quantidades endógenas (do corpo) fazem pressão no aparelho psíquico, o qual lida com a situação capturando-as através dos mecanismos de ligação e investimento.

Acontece que essa contenção — levada a cabo via barreiras de contato — terá como importante conseqüência a formação de um grupo de neurônios constantemente investido. Será esse conjunto, essa primeira organização em y que Freud intitulará ego.

Em outras palavras, originalmente o ego consistia em nada além desse agrupamento de neurônios investidos do y núcleo (a parte de y dirigida à recepção das quantidades endógenas), o qual tenta livrar-se da Qή por meios que conduzem apenas a uma mudança interna (ultimamente conduzindo à satisfação alucinatória). Tais mudanças internas, contudo, não tendo nenhum efeito propriamente dito no mundo exterior, não gera alívio da tensão. Esse primeiro movimento corresponde ao registro do processo primário.

Num segundo momento, todavia, o ego se torna uma organização mais eficaz, capaz de diferenciar — recorrendo às indicações de qualidade enviadas por w — as imagens mnêmicas das imagens perceptivas. É esta produção de qualidade que é usada pelo ego como um índice da presença de um objeto externo, portanto um índice de realidade. Em posse desse critério, o ego pode agora usar seu investimento para direcionar a atenção psíquica para o mundo exterior, sem o que as indicações de realidade não teriam grande valia.

Não é senão nesse momento que o processo primário pode ser efetivamente inibido. Através do mecanismo da atenção, portanto, o ego amplia sua extensão ao englobar também o y pallium[21] (a parte de y que se comunica com f). Deste modo, o ego consegue desempenhar um tipo de função reguladora de todo o sistema y, permitindo que aparelho psíquico passe aos processos secundários.

 

VIII

 

Quando o critério de distinção falha

Devemos, porém, fazer a pergunta: quão confiável é esse “critério de distinção”?

Realmente, mesmo num indivíduo dito ‘normal’, há, segundo Freud, pelo menos duas circunstâncias na qual o critério de distinção falha:

— Devido a um investimento excessivo do objeto desejado.

— No processo onírico.

Sobre o primeiro caso, Freud escreve:

“Se o objeto desejado for abundantemente investido, de modo que seja ativado numa maneira alucinatória, a mesmaindicação de descarga ou de realidade se segue também como no caso da percepção externa. Nesse caso, o critério falha” (Freud, 1895, p. 325).

Mas sendo esse o caso, se nós queremos alguma segurança ao usar o critério de distinção, deve haver alguma inibição prévia do investimento desejado de modo que ele não atinja níveis tão elevados de intensidade a ponto de qualidade (descarga em w) ser produzida. Essa inibição, vimos, é feita pelo ego. O teste de realidade é, assim, uma de suas funções principais (Freud, 1895, p. 325-7).

O segundo caso, e um fenômeno privilegiado para examinar, é o sonho. Com efeito, o sonho é um fenômeno psíquico que não apenas possui alguma similaridade a alguns estados patológicos, mas também simula, em certa medida, o modo primitivo de funcionamento do aparelho psíquico.

O que acontece é que, quando o indivíduo dorme, o ego “retira um enorme número de seus investimentos, os quais, todavia, são restaurados ao despertar, imediatamente e sem problema”. Tal “diminuição da carga endógena em y núcleo… torna a função secundária supérflua” e é uma pré-condição do sono (Freud, 1895, p. 336).

Ora, ocorre que, estando o ego esvaziado (de seus investimentos), ele não consegue executar apropriadamente a inibição do processo primário e, deste modo, nada previne as representações oníricas de alcançar um caráter alucinatório, isto é, nada as previne de serem ultra-estimuladas e, conseqüentemente, de despertarem a consciência (com qualidade perceptiva) e gerarem crença do sujeito em sua realidade.

 

IX

 

A concepção freudiana da consciência em julgamento

A explicação é convincente, mas há ainda alguns problemas que precisam ser enfrentados, especialmente aqueles concernentes às intrincadas relações entre os sistemas neuronais. Particularmente importantes são aquelas envolvendo w e sua capacidade de fornecer ao ego um meio de desempenhar o decisivo teste de realidade.

Realmente, nós devemos procurar respostas apropriadas às seguintes questões:

(i). Ao descrever os sistemas neuronais, Freud disse que f é incapaz de produzir memória porque ele recebe muita quantidade, permanecendo permeável todo o tempo. Assim sendo, todavia, por que w não pode gerar memória se ele é atingido apenas por quantidades de ínfima magnitude?

(ii). Em segundo lugar, não é claro por que os neurônios y não podem produzir qualidade. Freud nos diz que seus períodos são monótonos, mas nós não deveríamos esquecer que os períodos “ricos”, “não-monótonos” de f passam desinibidamente através de y antes de atingir w. Por que, então, não é y capaz de produzir qualidade através desses períodos? O que impede y de fazer isso se a quantidade que o atinge já foi razoavelmente enfraquecida?

E, mais diretamente relacionado às duas circunstâncias em que o critério de distinção falha:

(iii). Se y não pode produzir qualidade por si mesmo; se é dito que w gera qualidade ao se apropriar dos períodos especiais de f, ef não está ativo durante o sono, como explicar a produção de qualidade nos sonhos?

(iv). Se qualidade tem sua produção associada com os períodos vindos de f, como explicar o fato de que um mero investimento excessivo das imagens mnêmicas em y poderia produzir “a mesma indicação de descarga ou de realidade… como no caso da percepção externa” (Freud, 1895, p. 325)?

Em uma palavra: como explicar a produção de qualidade quando f não está desempenhando nenhum papel? Não é a qualidade, afinal, uma função direta da apropriação de w dos períodos especiais de f? Ou, antes, seria ela derivada da intensidade dos investimentos em y?

 

Carta 39

Ciente da existência de alguns problemas no Projeto, logo após terminá-lo Freud escreveu a Fliess e lhe comunicou ter tido “uma idéia que resultaria numa completa reformulação de minhas teorias fyw” (Freud, 1896, p. 388). Realmente, ali nós achamos pistas valiosas para resolvermos os problemas gerados pelas singularidades de w, do sistema percepção-consciência.

Aqui estão algumas informações-chave trazidas pela Carta 39:

Freud começa referindo-se à existência de…

… “dois tipos de terminação nervosa. As livres recebem apenas quantidade e a conduzem a y por somação”; Os caminhos neuronais, no entanto, “que começam dos órgãos [dos sentidos] não conduzem quantidade, mas a característica qualitativa peculiar a eles; eles não acrescentam nada à quantidade nos neurônios y, mas meramente colocam esses neurônios num estado de excitação” (Freud, 1896, p. 388).

Aqui nós já podemos perceber significativas mudanças.

(a). O aparelho psíquico conta apenas com uma fonte de quantidade: o próprio corpo. Toda Q é Qή.

(b). f não transfere mais nenhuma quantidade para os outros sistemas. Toda quantidade que o atinge pode ser eliminada via ação reflexa. Ele continua a transferir, todavia, suas características qualitativas ou períodos. São essas características qualitativas que possibilitam w a gerar consciência. y permanece incapaz de gerar consciência, entretanto, pois seu período é monótono.

(c). Além disso, não sendo mais uma fonte/transmissor de quantidade, f pode agora estar perto de w.

Com efeito, Freud insere

“esses neurônios w entre os neurônios f e os neurônios y, de modo que f transfere sua qualidade a w, e w agora não transfere nem qualidade nem quantidade a y, mas meramente excita y” (Freud, 1896, p. 388).

É, então, dessas indicações que a distribuição de Q nos neurônios y dependerá principalmente (Freud, 1896, p. 389).

(d). A interação entre w e f conseqüentemente muda no que diz respeito às indicações de qualidade. Não há mais nenhuma descarga em w e, portanto, nenhuma indicação das mesmas em y. O que w faz agora é simplesmente excitar certos neurônios y, isto é, w “indica os caminhos a serem tomados pela energia y livre” (Freud, 1896, p. 388). Em outras palavras, ele(w) dirige a energia livremente móvel existente em y (atenção psíquica) para a ocorrência de percepção.

Aí reside a função primária de w, num certo sentido: atrair a atenção psíquica para a transmissão de informação qualitativa (os períodos) vinda de f ou, mais precisamente, atrair/dirigir a atenção psíquica para os eventos do mundo exterior.

 

X

Vamos agora ver como/se essa ‘reformulação’ pode ajudar-nos a resolver os problemas (i) a (iv).

(i). Por que w não é capaz de gerar memória se apenas quantidades virtualmente nulas o atingem?

Na verdade, a Carta 39 não nos ajuda muito aqui, mas nós poderíamos tentar algo na seguinte linha: se, de um lado, muita quantidade impede as barreiras de contato de reter qualquer informação (embora não precisemos nos preocupar mais com isso já que f não traz mais nenhuma quantidade para dentro do aparelho psíquico), de outro lado, muito pouca quantidade (ou nenhuma) pode não ser o bastante para deixar traços mnêmicos.

Mas agora, como explicar mecanicamente, quantitativamente — como queria Freud — a diferença funcional entre os neurônios y e w?

 

(ii). Por que y não é capaz de produzir qualidade a partir dos períodos vindos de f?

Com as mudanças topológicas na Carta 39, o privilégio que tinha w de gerar qualidade é explicado: é w que está próximo de f, assim recebendo em primeira mão seus períodos qualitativos. y, de outro lado, tendo acesso direto apenas a seus períodos monótonos, permaneceria incapaz de produzir qualidade a partir dos mesmos.

(iii). Como explicar qualidade (consciência) nos sonhos, se f (e seus períodos) não está ativo durante o sono?

Mesmo antes da Carta 39, Freud já tinha proposto uma explicação para isso.

De fato, no Projeto (e mais tarde, em A Interpretação dos Sonhos[22]), Freud recorre à idéia de que uma espécie “movimento regressivo” de y a f ocorreria nos sonhos. Essa regressão poderia acontecer nos sonhos porque a corrente ‘normal’ de f a y (que ocorre durante a vigília) teria cessado. Na ausência dessa corrente, assim como de um ego investido, o fluxo de Q poderia retroagir e atingir f simulando uma percepção. Com as mudanças na Carta 39, a alucinação não é “mais um movimento regressivo da excitação até f, mas apenas até w” (Freud, 1896, p. 389).

(iv). Como explicar a geração de qualidade por um ‘mero’ excesso de investimento das imagens mnêmicas (de desejo)?

Aqui, nós podemos aproveitar a explicação acima e supor que um excesso de Q também regride até w, alcançando assim os requisitos para simular uma percepção.

* * *

Essas respostas tentativas, entretanto, não nos livram inteiramente de algumas inquietantes interrogações.

Vamos supor aqui, para efeito de argumentação, que aceitamos a hipótese de regressão como válida. De qualquer modo, uma outra questão surge a ela associada.

Com efeito, vamos examinar uma vez mais os sonhos e as mudanças que eles impõem no aparelho psíquico.

No processo onírico, vimos, qualidade é produzida, consciência é despertada, e o ego acredita que tem diante de si experiências reais e concretas. Em outras palavras, enquanto sonhamos o ego concede tanta veracidade à “realidade de vigília” quanto à “realidade onírica”.

Ora, se o ego experencia ambos como “realidades”, o que sanciona a decisão de que em um caso ele deveria (poderia) desencadear uma ação motora, e não no outro caso?

A resposta parecer ser óbvia e clara.

Quando o ego retira seus investimentos, ele também remove o acesso à motricidade. Deste modo, não haveria nenhum perigo para o aparelho psíquico permitir o processo primário de acontecer. Como medida preventiva, portanto, o ego bloqueia a motricidade durante o sono.

Esse raciocínio, contudo, não é inteiramente satisfatório.

Por que não?

Ora, para que se possa justificar por que é importante remover o acesso à motricidade durante o sono, é necessário que nós tenhamos previamente aprendido que o sonho é, na verdade, uma alucinação, e não uma percepção atual.

Sim, pois o critério de distinção repousava, até aqui, no uso que y fazia das indicações de qualidade fornecidas por w. Temos, porém, que justamente essas mesmas indicações também são de algum modo fornecidas, já que também nos sonhos qualidade/consciência é gerada. Nesse o caso, vemos, o critério não pode funcionar adequadamente.

Sendo isso assim, devemos perguntar-nos, como o ego sabe que nós estamos dormindo de modo a poder bloquear, com segurança, o acesso à motricidade?

A resposta, constatamos, não pode mais ser dada apenas em termos das indicações de qualidade fornecidas por w. O critério de distinção parece ser um pouco mais precário do que tínhamos esperado.[23].

 

XI

 

Critério de distinção e o sistema f

Nós permanecemos com os seguintes problemas para resolver.

— Como explicar (mecanicamente) a diferença entre os neurônios w e os neurônios y?

— Como explicar a produção de qualidade sem os períodos de f, isto é, meramente baseado na existência de um investimento extra/excessivo em w?

— Como explicar a ‘paralisia motora’ enquanto sonhamos se o ego não tem qualquer critério funcional em que confiar (isto é, se o ego já não pode meramente contar com as indicações de qualidade para realizar a distinção)[24]?

Vamos tentar parafrasear a última questão.

Se tivéssemos perguntado qual a diferença — em termos do envolvimento dos sistemas neuronais — entre o estado de vigília e o estado onírico, nós prontamente responderíamos que era o ‘fechamento’ dos órgãos dos sentidos e a conseqüente interrupção de estímulos (ou dados) vindos de f.

A diferença crucial é, então, a ausência do sistema f nos processos psíquicos oníricos, e não exatamente a produção de qualidade ou o despertar da consciência.

Esse ponto necessita alguma ênfase.

É verdade que sempre que há percepção, há também consciência e produção de qualidade. Mas a recíproca não é verdadeira, já que consciência e qualidade ocorrem durante os sonhos, quando não há percepção acontecendo.

Quando nós dormimos, f também dorme.

Ora, a conclusão que se parece impor por si mesma é que o que permite o ego distinguir a qualidade de vigília (perceptiva, real) da qualidade onírica é a presença de comunicação entre os órgãos dos sentidos (fonte dos estímulos externos) e o aparelho psíquico, nomeadamente, entre f e w. O ego bloqueará, assim, o acesso à motricidade sempre que a comunicação entre f e w estiver interrompida[25].

Ora, acontece que isso pode bem ser uma base viável para o critério de distinção como um todo.

De fato, a partir dessas reflexões, nós nos damos conta de que o que realmente fornece um critério confiável de distinção entre percepção e memória, entre o mundo exterior e o mundo interior, é antes a presença/ausência de comunicação ao longo do eixo f-w do que (apenas) as indicações de qualidade fornecidas por w (já que w também as fornece em outras ocasiões — sonho e excesso de investimento — além da percepção propriamente dita).

Com efeito, o critério agora poderia ganhar a seguinte formulação tentativa:

(a) Sem períodos de f ® ‘sinal vermelho’ ® sono ® paralisia motora.

(b) Com períodos de f ® ‘sinal amarelo’ ® percepção está acontecendo ® ego dirige a energia psíquica à informação qualitativa vinda daquela direção (f), permitindo portanto que os investimentos atinjam uma intensidade maior (suficiente para gerar qualidade); caso contrário, o ego mantém seus investimentos baixos.

(c) Finalmente, se a informação fornecida coincidir com o objeto desejado (previamente investido), o ego dá sinal verde e autoriza a descarga via ação específica.

 

XII

 

Em direção à solução: será que realmente precisamos dos neurônios w?

Estejamos ou não preocupados com a capacidade do ego de bloquear a motricidade durante o sono, o raciocínio anterior se revela interessante em mais de um aspecto.

Mas, antes de tudo, nós claramente vemos que as indicações de qualidade dadas por w não podem mais ser consideradas o principal fator no que diz respeito ao critério de distinção. É antes f o sistema-chave nesse caso. Realmente, qualidade (consciência) é produzida promiscuamente e se o ego não sabe — antes — que ‘tipo’ de qualidade (lembrança/sonho ou percepção) está sendo produzida, ele não pode saber quando inibir o processo primário e/ou a descarga motora.

Ora, até aqui, w — o sistema percepção-consciência — tinha os seguintes papéis cruciais no aparelho psíquico.

(1). Gerar qualidade e, assim, consciência.

(2). Fornecer um critério (as indicações de qualidade de qualidade/realidade) a partir do qual o aparelho psíquico poderia distinguir entre memória e percepção, de modo a não se engajar numa satisfação alucinatória.

O que percebemos é que w não desempenha mais um papel (estritamente) necessário para realizar (2), já que não é apenas a produção de qualidade que gera um critério confiável, mas a presença de qualidade plus f.

Ora, isso abre espaço para que finalmente perguntemos: o que dizer de (1)? Será que nós realmente precisamos de um sistema de neurônios especial/separado para performar (1)? Será que nós realmente precisamos assumir que as funções de percepção e memória não podem ser desempenhadas pelo mesmo conjunto de neurônios?

E se nós atacássemos essa assunção completamente, isto é, e se nós assumíssemos que qualidade e consciência são geradas no sistema y, pelos neurônios y, desafiando portanto a idéia de haver contradição na concepção de um único sistema como responsável tanto pela memória quanto pela consciência? Em uma palavra, e se nós assumíssemos que os neurônios w não mais precisam existir?

Chegou a hora de tentarmos ir onde Freud não pôde e assumir que os neurônios y podem, afinal, gerar qualidade e assim ser responsáveis por ambos, memória e consciência, deixando aos neurônios w nada a fazer senão… desaparecer.

Vamos então, para efeito de argumentação, assumir isso — a saber, que y pode gerar qualidade e se apropriar dos períodos de f — e ver o que acontece no aparelho psíquico.

(1). f recebe a excitação dos órgãos dos sentidos, a partir dos quais ele captura informação discriminativa sobre o mundo exterior e a transfere para o sistema y por meio de períodos qualitativos. Nenhuma quantidade (Q) é transmitida daí para y.

(2). A única quantidade com que y realmente tem de lidar é aquela vinda de dentro do corpo. Toda Q dentro do aparelho psíquico é Qή. Com efeito, depois que essa quantidade atinge um certo nível, por somação, ela faz pressão em y, onde ela é capturada/acumulada até poder, eventualmente, ser descarregada.

Ou seja, abaixo de um certo nível, tal quantidade não é sequer notada. Após certo limite, ela põe o sistema y para trabalhar, criando um estado de urgência. O aparelho psíquico tem então como tarefa encontrar meios para sua (adequada) descarga.

(3). y recebe os períodos de f, os quais são — segundo certos, digamos, ‘critérios de relevância’ — de algum modo capturados/armazenados ao serem ligados aos eventos conectados com a experiência de satisfação (ou dor)[26].

Em outras palavras, biológica e psiquicamente, as experiências de satisfação (e dor) servirão como guias, como uma espécie de “critério de relevância”, segundo o qual o aparelho psíquico perceberá, filtrará, armazenará, utilizará a informação fornecida pelos períodos qualitativos de f.

(4). Primariamente, portanto, toda fonte de informação sobre o mundo exterior vem (através) de f.

(5). Uma percepção terá, então, dois aspectos, um qualitativo e outro quantitativo.

O aspecto qualitativo, discriminativo da percepção tem principalmente a ver com a informação fornecida por f através de seus períodos. Quando falamos de uma imagem perceptiva, nós nos referimos principalmente ao aspecto qualitativo da percepção.

O aspecto quantitativo da percepção, por sua vez, tem a ver com a Q investindo/ocupando os neurônios excitados por aqueles períodos (tendo em conta que certo nível de Q é requerido para uma percepção acontecer, abaixo do qual essa informação passa despercebida).

(6). Similarmente, uma lembrança/memória terá dois aspectos, um qualitativo e outro quantitativo.

O aspecto qualitativo/discriminativo da memória também tem a ver principalmente com a informação fornecida por f através de seus períodos, assim como com as sensações resultantes das experiências de satisfação (ou dor). Quando falamos de uma imagem mnêmica, nós nos referimos principalmente ao aspecto qualitativo da memória.

Analogamente, o aspecto quantitativo tem a ver com a passagem de níveis mais ou menos intensos de Q (assim como sua conexão com uma experiência de descarga), deste modo criando as facilitações entre os neurônios. Com efeito, facilitações serão criadas sempre que uma conjunção apropriada de “intensidade” e “relevância” aconteça.

O que dizer da consciência?

Nós agora estamos em posição de nos beneficiar integralmente da solução proposta.

(7). Uma memória sendo revivida será o resultado de um certo nível de Q circulando através dos neurônios previamente facilitados, os quais vão, a partir daí, reativar seus aspectos qualitativos.

Dentro de certos limites, essa corrente ativará aqueles aspectos qualitativos de modo ‘suave/leve’, isto é, o aparelho psíquico será capaz de reviver aquelas imagens enquanto memórias, e não as tomará, equivocadamente, como percepções[27].

Acima de um certo limite, entretanto, a corrente ativará aqueles aspectos qualitativos no seu máximo, isto é, ela vai gerar basicamente os mesmos aspectos qualitativos que uma percepção é capaz de produzir. Nesse caso, o aparelho psíquico pode (vai) realmente enganar-se e tomar tal memória (intensamente) revivida por uma percepção.

(8). A geração de qualidade/consciência será também uma função de dois fatores. Ela dependerá

(a). Da existência de uma corrente (fluxo de Q) através dos neurônios que atinja/exceda um certo limite;

(b). Da existência de haver informação qualitativa sendo fornecida pelos neurônios.

Ora, num aparelho psíquico logo ocupado/investido com memórias/facilitações, a segunda condição estará sempre preenchida, nos deixando assim com a regra simples e direta:

Sempre que uma corrente de energia livremente móvel investe os neurônios y acima de um certo nível, o fenômeno da consciência ocorre, qualidade (máxima) é gerada.

(9). Sendo assim, nós também ganhamos um valioso insight para melhor caracterizar como uma lembrança/memória se relaciona à consciência.

Realmente, Freud freqüentemente afirmou de um lado que não há qualidade na rememoração e, de outro, que o fenômeno da consciência é a própria produção de qualidade.

Obviamente, de modo algum teve Freud a intenção de negar que tenhamos memória de aspectos qualitativos (tais como cores, cheiro, gosto, etc.) ou mesmo de negar que tenhamos memórias conscientes.

Todavia, esse pequeno e talvez insignificante ‘enigma’ encontra aqui fácil solução.

Com efeito, agora nós temos os meios de claramente diferenciar entre:

— uma memória consciente regular (com aspectos qualitativos sendo evocados, mas de um modo suave/leve) e uma percepção consciente (com seus aspectos qualitativos sendo evocados de modo máximo/completo);

— entre uma memória consciente regular e uma memória alucinada (com seus aspectos qualitativos sendo evocados de modo ‘máximo’, simulando deste modo uma percepção).

(10). Tanto a idéia excessivamente investida quanto os sonhos poderiam ser pensados como pertencentes a essa última categoria.

De fato, a primeira circunstância nos apresenta uma situação onde há um excesso de energia investindo certos neurônios, preenchendo portanto as condições para geração de consciência com qualidade ‘máxima’. Normalmente, um ego investido previne isso de acontecer ao inibir tais investimentos excessivos, interferindo em seu fluxo e assim os confinando dentro dos limites adequados.

Na segunda circunstância, porém, não há um ego propriamente investido para interferir no fluxo da energia livremente móvel, e assim tal energia pode circular desinibidamente na direção dos caminhos mais bem facilitados, não enfrentando por conseqüência nenhuma dificuldade em atingir/exceder o ‘limite-base’ para geração de qualidade/consciência.

(11). A transitoriedade da consciência também acha aqui uma explicação tranqüila. A produção de consciência é essencialmente um fenômeno efêmero/fugaz porque ela não é nada mais do que o resultado daquela energia livremente móvel excitando determinados neurônios em determinado tempo. Uma vez que essa energia ‘extra/excessiva’ é gasta ou deixa de estar disponível (devido à sua ligação ou descarga), nenhuma consciência/qualidade é gerada.

 

XIII

Ora, disso nós temos de tirar uma conseqüência-chave, a saber, o fato de que a ‘consciência’ não deveria ser pensada como um ‘verdadeiro’ sistema (como o são o PCs e o Ics; como o são o sistema y e suas subpartes, y pallium e y núcleo[28]), localizados no espaço e tendo um conjunto específico de neurônios dedicados a desempenhar essa função.

Na verdade, consciência enquanto sistema — o especial conjunto de neurônios w — deve literalmente desaparecer, de modo que nós só precisamos lidar com a consciência enquanto função, uma função que — defendemos — pode ser desempenhada integralmente pelos neurônios y.

* * *

Mas agora devemos perguntar-nos: como pode o mesmo conjunto de neurônios (y) ser responsável tanto pela memória quanto pela consciência? Não são tais funções incompatíveis?

Ora, no momento em que distinguimos entre o caminho (que enfatiza o neurônio em seu aspecto físico) e a corrente energética (efetiva passagem de Q), nós precisamente abrimos uma via de confrontar essa alegada incompatibilidade.

Senão vejamos.

Memória tem a ver com a criação (física) de facilitações/caminhos preferenciais; a memória consiste propriamente na diferença entre aquelas facilitações entre os neurônios.

Consciência, de outro lado, tem a ver com a passagem da corrente energética (passagem de Q) através dessas mesmas facilitações. O que essa passagem de Q através das facilitações faz — como descrita nos itens (5)-(6) — é excitar aquelas células, aqueles neurônios, isto é, ela ativa aquela informação qualitativa trazida pelos períodos f ou previamente armazenada.

Se essa corrente está dentro/abaixo de certos limites, uma lembrança regular é produzida, com qualidade de intensidade leve sendo gerada.

Se, de outro lado, essa corrente excede tal limite, as células/neurônios serão ativadas de modo completo/máximo e, nesse caso, qualidade máxima/perceptiva será produzida.

Vemos, portanto, que não é de modo algum contraditório assumir que tanto memória quanto consciência podem ser funções desempenhadas pelo mesmo conjunto de neurônios, pois elas correspondem a aspectos inteiramente distintos da atividade celular/neuronal.

E com isso acreditamos termos respondido a uma possível objeção contra nossa solução.

Realmente, o que deduzimos da explicação acima é que não há verdadeira incompatibilidade ao assumir que um mesmo conjunto de neurônios (y) seja responsável tanto pela memória quanto pela consciência.

 

XIV

Aceitando esta reformulação do aparelho psíquico, acreditamos que os principais paradoxos em torno da concepção freudiana da consciência podem ser resolvidos e, esperamos, nenhum adicionado.

Dada a já mencionada importância e qualidade de trabalho de Natsoulas sobre a concepção freudiana da consciência, nós tentaremos, nessa parte final do capítulo, estabelecer um diálogo mais direto com o mesmo. Com efeito, nós vamos tentar ver aqui como nossa solução faz frente a alguns dos desafios apresentados por Natsoulas e ver se ela consegue responder satisfatoriamente a problemas que tanto ele quanto Freud deixaram em aberto.

Os seguintes pontos podem ser listados como alguns dos principais problemas que Natsoulas enfrenta, especialmente na sua série de artigos “Freud and Consciousness”.

  • · Emoções inconscientes

Esse é um problema antigo, que sempre gerou debate entre os estudiosos.

De fato, embora o próprio Freud tenha escrito em alguns lugares que “sentimentos são ou conscientes ou inconscientes” (Freud, 1923, p. 23), ele claramente afirma que não há emoções ou sentimentos inconscientes, que afetos nunca são inconscientes e que referir a ‘emoções inconscientes’ é apenas uma espécie de ‘atalho’, um modo conveniente e útil de falar[29].

Natsoulas (1985; 1989b; 1991) e outros[30] discutiram bastante sobre isso, mas nenhum deles foi capaz de formar uma visão mais completa da questão e — na falta de um critério sobre quais textos freudianos privilegiar — nenhum consenso foi atingido.

O que nossa solução oferece, de seu lado, é precisamente esse critério.

Com efeito, a partir dela nós podemos ver que não há, simplesmente, nenhuma diferença ‘essencial’ entre um conteúdo consciente e um conteúdo inconsciente. Para um conteúdo consciente tornar-se consciente, (quase) tudo que é preciso é que a intensidade da corrente (Q) atinja/exceda um certo nível[31]. Naturalmente, como o ego controla (a maior parte) da distribuição de Q no aparelho psíquico, para um conteúdo não-consciente tornar-se consciente, ele precisará da ‘aprovação’ do ego.

Estritamente falando, então, emoções são conteúdos qualitativos que obtêm investimento (energia psíquica livre) grande o bastante para tornar-se consciente.

As assim chamadas ‘emoções inconscientes’, de outro lado, poderiam ser facilmente explicadas como sendo aqueles conteúdos que precisamente não conseguem o investimento (energia) necessário para se tornarem conscientes. Ou, alternativamente, aqueles conteúdos cuja energia associada está em um estado ligado (em oposição a estar ‘em um estado livre’).

Ora, isso significa que nós podemos falar significantemente do mesmo conteúdo mental como sendo ou consciente ou não-consciente, sendo esta diferença específica relacionada ao modo como o aparelho psíquico distribui suas cotas de energia livremente móvel. Naturalmente, os conteúdos reprimidos não obtêm (fácil ou diretamente) o investimento necessário para ganhar acesso à consciência. Nesses casos, o aparelho psíquico tem seus próprios motivos para fazer com que a energia encontre outros alvos e direções.

Nessa visão, a censura é, propriamente falando, nada além de um modo particular de distribuir/dirigir o investimento/energia aos conteúdos que o ego acha mais apropriados/relevantes (leia-se, aqueles conteúdos mais capazes de — serem meios para — produzir uma descarga satisfatória)[32].

Realmente, como a consciência não é mais um verdadeiro sistema (com uma posição determinada e com neurônios especialmente dedicados a desempenhar essa função), não há qualquer paradoxo em assumir essa posição.

Intimamente relacionada com essa questão está a pergunta:

  • · Como funciona a inibição?

Quando ou por que ela falha?

A inibição é um trabalho crucial desempenhado pelo ego. Ele diz respeito à coordenação da distribuição da energia livre disponível no aparelho psíquico.

Em outras palavras, sem a intervenção do ego, a energia livremente móvel fluiria em direção das melhores facilitações (o que, quase inevitavelmente, acabaria por gerar uma satisfação alucinatória, processo primário portanto). Isso é basicamente o que acontece nos sonhos.

Com um ego propriamente investido, porém, a Q livremente móvel não vai na direção das melhores facilitações; antes, ela é inicialmente retida e depois dirigida (ou melhor: desviada) para os estímulos vindos do mundo exterior. Essa é a razão pela qual Freud fala dos “processos primários ou livres (unbound)”, de um lado, e os “processos secundários ou ligados (bound)” (Freud, 1920, p. 63), de outro.

A inibição (do processo primário) falha quando quer que o ego não esteja propriamente investido: como acontece quando estamos dormindo (daí os sonhos) ou, em casos mais raros, quando a intensidade da Q móvel é tal que mesmo um ego investido não consegue controlar a distribuição (caso em que o objeto de desejo é excessivamente investido).

  • · Qual a real contribuição da consciência (ou antigo w)[33]?

Que diferença faz para os processos psíquicos serem conscientes ou não-conscientes?

Como vimos, não há necessidade de postular um conjunto especial de neurônios(w) encarregado da consciência, então não há nenhum “processo w” especial. Já em relação à consciência ou processos conscientes, a resposta (em relação à sua função/importância) é tão simples quanto direta.

O aparelho psíquico tem como sua principal função lidar com suas quantidades internas de modo que ele possa mantê-las num nível ‘ótimo’, idealmente retendo apenas a quantidade necessária para que a ação específica tenha lugar.

Os processos conscientes são cruciais, então, pelo fato de que eles indicam onde a ação deve tomar lugar para que possamos ter uma descarga duradoura. Na verdade, esse é o principal critério pelo qual algo se torna consciente! Em outras palavras, nós nos tornamos conscientes daquelas coisas que (pelo menos em princípio) podem ou poderão ser usadas para nos permitir obter uma duradoura experiência de satisfação. Daí o privilégio da informação vinda do mundo exterior (de f), pois o aparelho psíquico aprendeu desde cedo que a descarga duradoura é associada com a ocorrência de uma percepção.

Ao escrutinar o mundo exterior, portanto, monitorando a informação fornecida por f (e dela tornando-se consciente), o aparelho psíquico se coloca numa melhor posição para agir no momento certo. Eis por que um pré-investimento (no objeto) é importante, eis por que qualidades sem atenção (psíquica) são inúteis. Uma falta/falha de atenção é, de fato e na prática, uma falta de relevância que o aparelho psíquico está dando àquele evento, naquele momento particular.

Nós poderíamos aplicar o mesmo raciocínio ao conteúdo dos sonhos e fornecer, assim, uma resposta mais global quanto à sua principal função.

Com efeito, enquanto estamos dormindo, o aparelho psíquico pode performar uma espécie de “ensaio” ou “teste prévio” antes de que a ação seja levada a cabo no mundo real (de vigília). Ao fazer isso, caminhos e conteúdos podem ser mutuamente (re-)integrados, com a conseqüente consolidação do aprendizado.

Realmente, sem as restrições/afluência das percepções e sem os riscos (reais) de falhar, o aparelho psíquico pode “experimentar” mais livremente (com menos ‘censura’) durante os sonhos e tentar diferentes possibilidades em relação a suas alternativas potenciais de ação para obter satisfação. Por isso, a ‘censura’ é mais relaxada durante os sonhos, precisamente porque os riscos de experimentar diferentes alternativas são muito baixos, se algum.

De outro lado, esta é também a razão pela qual sempre haverá alguma censura, pois nem todas as possibilidades são realmente ‘aceitáveis/viáveis’ para serem postas em prática, querendo dizer com isso que aquelas coisas que o aparelho psíquico não pode sequer conceber, sob nenhuma hipótese, como sendo realizáveis no mundo exterior (de vigília), essas não se tornarão conscientes nem mesmo nos sonhos.

Em ainda outras palavras, “estar ou tornar-se consciente” é um tipo de ‘indicador’, de ‘alerta de prontidão’, algo como um “estar-pronto-para-a-ação”[34]. Realmente, apenas coisas que podem — pelo menos em princípio — ser motivos para ação no mundo exterior tornam-se ou podem tornar-se conscientes[35].  ‘Tornar-se consciente’, então, equivale a passar algum tipo de “teste de relevância”.

E qual a base para esse “critério de relevância”? Como vimos, precisamente aqueles eventos/elementos associados à experiência de satisfação e de dor. São nossas experiências bem sucedidas no passado — de obter satisfação e evitar a dor — que nos guia, que nos ajuda a filtrar, armazenar, utilizar os dados que coletamos para, no futuro, obter mais satisfação ao mesmo tempo em que tentamos evitar novos acúmulos de tensão.

Desnecessário dizer, aqueles eventos que dizemos reprimidos ou recalcados não podem ser considerados “prontos-para-a-ação”.

Ou seja, esse critério de relevância funciona tanto positiva quanto negativamente.

Supersimplificando, nós poderíamos dizer que os eventos com associações positivas — satisfação, alívio de tensão — facilmente ganham a marca “prontos-para-a-ação”. Conversamente, os eventos com associações negativas — dor, aumento de tensão — são marcados com um “sinal-de-perigo” ou “mantenha-distância”, sendo portanto candidatos a não (ou jamais) se tornarem conscientes.

Todas as coisas (percepções, pensamentos, desejos, planos, etc) que podem tornar-se conscientes são apenas aquelas coisas que o aparelho psíquico — após complexo balanço dos prós e contras — supõem serem potencialmente úteis no ‘mundo real’.

Nós poderíamos tentar a seguinte fórmula.

As coisas suscetíveis de se tornarem conscientes são aquelas coisas suscetíveis/candidatas — segundo juízo do aparelho psíquico — a se tornarem reais.

Ou, numa formulação mais curta: As coisas a se tornarem conscientes são as coisas a se tornarem reais. Ainda que potencialmente.

Nossa consciência é, então, como uma espécie de “palco”, um lugar onde ensaiamos, previamente, as coisas e ações que queremos ou consideramos realizar no mundo[36]. Todo o resto é barrado e permanece inconsciente (dinâmica ou sistemicamente)[37].

Dito de outro modo, todas as coisas que são consideradas ou inúteis ou perigosas permanecem inconscientes. E entre as ‘perigosas’ estão os conteúdos reprimidos.

  • · Como os processos de pensamento se tornam conscientes?

Primeiramente, para que pensamentos se tornem conscientes eles têm de passar o que chamamos ‘teste de relevância’. Aqui nós podemos falar de um grande e permanente ‘competição’ entre todos nossos pensamentos, entre todos os possíveis pensamentos que podemos ter. Os ‘vencedores’ tornam-se conscientes, significando que o aparelho psíquico os considerou (mais) relevantes para as ações que o sujeito pretende executar no mundo. Outros pensamentos relevantes (mas não tanto) permanecem não-conscientes — embora ativos em “segundo plano” — e podem tornar-se conscientes a qualquer momento, desde que eles consigam ganhar força o bastante para vencer a competição contra os outros pensamentos[38].

Em segundo lugar, eles têm de passar o ‘teste da consistência’. Aqui nós poderíamos falar da diferença entre os processos inconscientes, multi-modais, ‘processados em paralelo’, e os processos conscientes, lineares, ‘processados serialmente’. Em outras palavras, enquanto as representações inconscientes não têm de ser coerentes, consistentes, compatíveis umas com as outras, as representações conscientes têm de exibir essa coerência. Deste modo, as representações ou conjunto de representações que não satisfazem essas condições têm de ser, de algum modo, “traduzidas” para se ajustar às mesmas. Em termos de sistemas psíquicos, as representações Ics têm de ser traduzidas em representações PCs, sofrer o que Freud chamou de “re-transcrição pré-consciente”.

Nós traduzimos as representações-coisa[39] Ics em representações-objeto[40] PCs ao conectá-las com representações-palavra[41].

Correndo o risco de uma simplificação excessiva, o que acontece nesse processo pode ser descrito da seguinte forma.

As representações-coisa são formadas por uma associação de imagens mnêmicas cuja unidade é relativamente ‘fluida’, ‘instável’. Com efeito, normalmente essa unidade depende de seus elementos terem ocorrido simultaneamente no passado e/ou de seus elementos possuírem algum vínculo causal com alguma experiência de satisfação (ou dor).

Ocasionalmente, então, dada essa ‘fragilidade’ associativa, diferentes elementos de diferentes situações de diferentes épocas podem ‘flertar entre si’, independentemente de seus atributos ‘mutuamente contraditórios’. Operando em segundo plano, “em paralelo” e inconscientemente, isso não coloca nenhum problema.

De outro lado, sendo tais representações tão dependentes do contexto (context-dependent), quando o contexto muda, mudam também suas conexões. Deste modo, à medida que as experiências do sujeito se acumulam, o número de combinações possíveis (entre os elementos componentes) atinge proporções astronômicas, já que nenhum elemento em particular possui suficiente ‘força aglutinadora’ para fornecer uma unidade (mais) permanente para quaisquer das representações-coisa (Ics) formadas.

Com a ‘tradução/re-transcrição’ PCs, contudo, algo inteiramente diferente acontece. Ao serem tais representações ligadas/associadas a representações-palavra, as representações antes fluidas, podem agora obter um unidade bem mais estável, uma unidade que, embora ainda dependente do contexto (contextdependent), é dependente da linguagem (language-dependent) — e portanto dependente da comunidade (community-dependent).

Ora, com isso, o que antes podia sofrer uma variação virtualmente infinita (já que dependente do sempre mutável contexto idiossincrático), ganha fronteiras mais bem determinadas e estáveis (já que limitadas/restritas pelo fator social e institucionalizado da linguagem.

Mais do que isso. Por meio dessa ‘unidade conceitual’ recém-adquirida, tais representações passam automaticamente o ‘teste de consistência’, livrando-se de quaisquer elementos mutuamente contraditórios e, deste modo, tornando-se habilitadas para tornarem-se conscientes.

Com efeito, ao falar dos processos de pensamento, Freud escreve:

“Como podemos ver, estar ligado a representações-palavra ainda não é a mesma coisa que tornar-se consciente, mas apenas torna isso possível de acontecer; e isso é, portanto, característico do sistema PCs e dele apenas” (Freud, 1915, p. 202-3).

Com tal distinção, vemos, nós ganhamos maior insight na teoria freudiana, pois agora nós temos um meio de associar diferentes propriedades a diferentes tipos de conteúdos (representações) que cada sistema psíquico (PCs e Ics) possui.

* * *

No próximo artigo, nós seguiremos a mesma estratégia, a saber, nos valeremos desse instrumental conceitual do ‘primeiro Freud’, de modo a tentar aprimorar nosso entendimento do aparelho psíquico e de sua tópica reformulada.

Nele, nós teremos oportunidade de abordar principalmente o aparelho psíquico enquanto aparelho de memória e de linguagem e, a partir daí, precisar melhor as relações entre consciência e pulsão, linguagem e psiquismo.

REFERÊNCIAS

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marcos bulcão nascimento é doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo-USP (2005), com doutorado sanduíche pela University of South Carolina (E.U.A.: 2003-04). Graduou-se em Filosofia também pela USP (1995), tendo feito seu mestrado em Teoria Psicanalítica na Université de Paris VIII (França: 1998).

Tem ainda pós-doutoramento pela UFBA (Prodoc-Capes, 2006-07), onde também lecionou, e pela USP (Fapesp, 2008-11), com estágio de pesquisa na University of London — Birkbeck College (Inglaterra: 2009).

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FREUD E A METAPSICOLOGIA I

O problema da consciência: solução

 

RESUMO: Nesse trabalho — o primeiro de uma série de quatro artigos sobre Freud e a metapsicologia —, nós tentaremos reconstruir o problema da consciência em Freud e mostrar como o instrumental teórico mobilizado para chegar à solução proposta permite também resolver (ou mesmo dissolver) outros problemas/paradoxos relacionados, nos dando assim confiança no seu valor sistemático e teórico.

Ao fazer isso, nós subscrevemos à idéia de que a concepção freudiana da consciência traz algo cuja importância vai além de uma mera curiosidade histórica, traz algo que possui um valor atual e presente.

PALAVRAS-CHAVE: metapsicologia; consciência; aparelho psíquico; energia livre e ligada; processos primários e secundários

 

FREUD AND METAPSYCHOLOGY I

The problem of consciousness: solution

 ABSTRACT:

This is intended to be the first of a series of four articles on Freud and his metapsychology. Our purpose is to arrive at a conception, as precise as possible, of the psychical apparatus, its structure and functioning. Indeed, Freud’s conception of the psychical apparatus is the very core of his whole theory.

Nevertheless, Freud’s topographical models of the psychical apparatus are not free from problems. In fact, at least one of them pursued him his whole life, namely the problem of consciousness. Strategically, we will first attack this problem and, by proposing a solution to it, put ourselves in a position to hopefully achieve a more consistent view of the psychical apparatus, of Freud’s theory.

By writing this article, thus, we want to take part in this debate, for we believe that Freud’s conception of consciousness is something very much alive, not just a matter of historical curiosity.

 

KEY-WORDS: metapsychology; consciousness; psychical apparatus; free and bound energy; primary and secondary processes

 


[1] Essa série de artigos é fruto da pesquisa desenvolvida durante meu pós-doutoramento junto à Universidade de São Paulo e financiado pela Fapesp.

[2] Cf. por ex. Freud, 1915, 1938. Mesmo Lacan não o minimizou, tendo este declarado que se tratava de um problema que, dadas as dificuldades de solução adequada, deveria ser contornado como se contorna a um rochedo. “Eu não avançarei mais na investigação metafísica do problema da consciência. (…) Pois há problemas que é preciso se resolver a abandonar sem tê-los resolvido” (LACAN, J. Le Séminaire, livre II, p. 61).

[3] Isso será extensamente explorado nos desenvolvimentos teóricos deste trabalho — particularmente no segundo artigo da série, dedicado ao aparelho de memória/linguagem — deixando explícito o ponto de contato entre ambas as ordens de conceitos, a dita fisicista e a propriamente representacional.

[4] O que será feito a partir do terceiro artigo.

[5] Com efeito, Natsoulas escreveu até aqui (bem) mais de uma dezena de artigos sobre o assunto, sendo que apenas a famosa série Freud and consciousness conta com doze artigos.

[6] Outros nomes poderiam também ser citados. David Rapaport, por exemplo, escreveu: Eu gostaria de salientar que, sendo a teoria proposta por Freud válida ou não, o programa que ela implica… é uma das mais importantes e mais negligenciadas  contribuições a teoria psicológica” (Rapaport, 1960, p. 227). O livro de Smith — Freud’s Philosophy of the Unconscious — pode também ser mencionado como uma outro notável exemplo (Smith, D. L., 1999).

[7] Natsoulas optou por outra via: “Em geral, eu não persegui [aqui]… um outro amplo tópico pertencendo à teoria freudiana da consciência, a saber, o que a consciência realiza, por que ela existe. Eu deixo este tópico para um futuro artigo…” (Natsoulas 1985, p. 209).

[8] Como se sabe, o sistema formado pelos neurônios w são, no Projeto de 1895, os responsáveis pela função percepção-consciência. Evidentemente, a consciência enquanto “função” será preservada.

[9] É verdade, no tempo de Freud, essa era uma idéia bem difícil de ser abandonada. Porém ainda mais verdadeiro é o fato de que Freud, como cientista que era, não hesitaria em abandoná-la se ele tivesse concebido um modo de resolver os paradoxos que o afligiam. Aqui, nós tentaremos mostrar que há uma solução possível, e que a mesma estava dentro das possibilidades conceituais de Freud na época.

[10] Cf. Natsoulas (1984) e Natsoulas (1985).

[11] Cf. Natsoulas (1989b) e também Natsoulas (2002).

[12] Isso não é certamente uma coincidência. Como notou Strachey: “o que é particularmente notável é a proximidade com que algumas das seções previas desse trabalho seguem o “Projeto para uma Psicologia Científica” (Editor’s Note to”Beyond the Pleasure Principle”, in Freud 1920, p. 5).

[13] A respeito desse tópico, cf. Freud, 1895, p. 299-310.

[14] Freud diz que todos os neurônios possuem ‘barreiras-de-contato’ (Kontaktschranke), as quais seriam responsáveis pela retenção de Q. A diferença fundamental entre os dois sistemas seria então que as barreiras de contato em f permaneceriam intactas — isto é, elas não oferecem nenhuma resistência à passagem de Q — enquanto em y elas são alteradas, e permanentemente. Portanto, apenas y é um sistema mnemônico (cf. Freud 1895, p. 299-300).

[15] Uma importante observação: o sistema de neurônios f serve à percepção, mas, propriamente falando, ele não é responsável por ela. f é apenas responsável por receber o estímulo externo (e transferir seus períodos). O sistema que é responsável pela percepção (e consciência) é o sistema w.

[16] A parte de y mais próxima do sistema f.

[17] A inibição será performada por um ego investido. Cf. infra.

[18] Realmente, ver por exemplo Freud, 1938, p. 199: “Sua[do ego] função psicológica consiste em aumentar a passagem no id a um nível dinâmico mais elevado (talvez transformando a energia livremente móvel em energia ligada, tal como corresponde ao estado pré-consciente)”.

[19] Apenas no capítulo seguinte seremos capazes de desenvolver mais detidamente essa idéia. Ela implica distinguir um território das pulsões (Triebe) antes e depois de ser capturada ou transformada pelo aparelho psíquico. Antes, são as pulsões em seu aspecto puramente intensivo (somático). Depois, são as pulsões já capturadas na rede de facilitações (psíquicas), tendo já seu destino influenciado pelas experiências individuais. El inclui, assim, a identificação das pulsões com a Q endógena em seu estado livre, antes de ser ligada e/ou capturada na rede de facilitações. De outro lado, seus representantes seriam, daí em diante, a Q circulante no aparelho psíquico (afeto) e as imagens mnêmicas nos neurônios investidos (representações).

[20] “E parece não haver nenhuma dúvida de que os processos primários ou não-ligados (unbound) dão lugar a sensações/emoções muito mais intensas em ambas direções do que os processos secundários ou ligados (bound)” (Freud, 1920, p. 63).

[21] Ou y manto, como preferem algumas traduções.

[22] Cf. Freud, 1900, p. 542.

[23] Interessantemente o bastante, a mesma questão poderia ser levantada também no caso da psicose. De fato, o psicótico é alguém para quem o teste de realidade não produz os efeitos desejados. Com efeito, o psicótico é freqüentemente incapaz de inibir satisfatoriamente o processo primário e pode alucinar mesmo durante a vigília. Todavia, mesmo se ele não pode confiar num bom funcionamento de seu critério de distinção durante a vigília, seu aparelho psíquico ainda assim pode satisfatoriamente saber que ele está dormindo, que ele está sonhando. Sim, pois mesmo se ele é freqüentemente incapaz de inibir o processo primário durante a vigília, ele ainda assim consegue bloquear a motricidade enquanto dorme/sonha. A questão é, então, a mesma: como o ego do psicótico sabe que está sonhando? Como ele distingue entre a alucinação de vigília e a alucinação onírica? Nossa única certeza é que o ego psicótico sabe, uma vez que ele consegue bloquear a motricidade sempre que ele dorme/sonha.

[24] Uma solução alternativa para isso é dizer que a retirada dos investimentos do ego acarreta a paralisia motora. Isto é, o ego não teria de ‘saber’ que ou quando se está dormindo. A paralisia motora não aconteceria como resultado de uma ‘decisão’ feita pelo ego, mas seria meramente uma direta conseqüência causal da diminuição de seus investimentos/catexes. Isso não altera, todavia, a ‘moral’ tirada do que segue.

[25] E isso vale tanto para o neurótico quanto para o psicótico.

[26] Principalmente, mas não exclusivamente. Obviamente informação qualitativa não diretamente relacionada às experiências de satisfação ou dor é também apropriada pelo aparelho psíquico. Entretanto, não é inapropriado dizer que toda informação é, de um jeito ou de outro, ‘filtrada/processada’ tendo como objetivo primário ajudar o aparelho psíquico a livrar-se de Q.

[27] Uma explicação plausível para isso é que uma corrente dentro de certos limites ativaria apenas alguns daqueles aspectos qualitativos, não todos.

[28] No próximo capítulo, nós tentaremos estabelecer essa conexão (ou mesmo identidade) entre y pallium e o PCs, bem como entre y núcleo e o Ics.

[29] Sobre o tópico das emoções inconscientes, ver por exemplo, Freud, 1915, p. 178; 1920, p. 32; 1923; p. 22-3. Ver também Natsoulas, 1985, p. 187 seg.

[30] Ver, por exemplo, Smith, D.W. (1986), Wolheim (1982). Mais próximos de nossa posição estão Sandler & Joffe (1969) ou ainda Pulver (1971).

[31] Obviamente, teremos de explicar, no caso dos conteúdos recalcados, o que é que impede tais representações obtenham o fluxo energético necessário. Na mesma veia, a pergunta de Natsoulas — O que faz com que um processo psíquico seja (ou se torne) consciente? — também é respondida. Ver Natsoulas, 1989a, p. 97.

[32] Naturalmente, a avaliação em relação ao que é apropriado ou relevante é um assunto complexo, tendo a ver com o complexo balanço entre as diferentes pressões que o aparelho psíquico enfrenta.

[33] Cf. Natsoulas, 1989b, p. 631 seg. Ver também Smith, D.W., 1986, p. 152-3.

[34]Ready-for-action-flag”. Essa noção de “estar-pronto-para-a-ação”, embora seja, num certo sentido, anacrônica, descreve bem uma propriedade/função da consciência tal como descrita por Freud. Aqui e nos parágrafos seguintes, o leitor perceberá que nós nos valemos de uma certa ‘liberdade terminológica/conceitual’, já revelando/antecipando nosso propósito de aplicar a solução e raciocínios desenvolvidos nesse artigo a uma teorização mais contemporânea, por assim dizer. Isso será particularmente explícito no terceiro artigo da série, quando faremos a transição/tradução vocabular do ‘primeiro’ ao ‘último’ Freud, e no quarto, onde exploraremos articulações conceituais entre psicanálise, filosofia e ciência.

[35] Claro que o universo de motivos potenciais para agir no mundo é virtualmente infinito, então essa formulação fica inevitavelmente vaga. O ponto em questão pode ser mais bem compreendido, porém, se apelarmos para um exemplo ‘negativo’. É fácil perceber no nosso dia-a-dia, por exemplo, que aquelas coisas que não nos interessa (isto é, não achamos relevantes) tendemos a logo esquecê-las ou, até mesmo, não percebê-las.

[36] Ver nota 34, acima. A idéia da consciência enquanto ‘palco’ é bem explorada no ótimo livro de Bernard Baars, In the Theater of Consciousness.

[37] “Dinamicamente” se por mera falta de “relevância” no momento; “sistemicamente” se o aparelho psíquico julga aquele determinado conteúdo ‘perigoso’ em um nível mais profundo.

[38] Ver nota 34, acima. A idéia de que nossos pensamentos conscientes são os ‘vencedores’ numa competição que se processa no plano de fundo ‘cerebral’ foi excepcionalmente bem desenvolvida pelo vencedor do prêmio Nobel de Medicina Gerald Edelman, em seu Consciousness – How matter becomes Imagination. Como dito em nota acima, trazer conceitos contemporâneos para ajudar na discussão do problema da consciência em Freud respeita o objetivo de mostrar que a concepção freudiana da consciência, se reformulada, é mais do que uma ‘peça histórica’ e pode bem beneficiar e beneficiar-se do que há de mais atual no campo em questão. Também como dito acima, pretendemos ‘pagar essa promissória’ no quarto artigo da série.

[39] Sachvorstellungen.

[40] Objektvorstellungen.

[41] Wortvorstellungen.  “A questão ‘Como algo se torna consciente?’ seria assim mais bem enunciada: ‘Como algo se torna pré-consciente?’ E a resposta seria: ‘Através de sua conexão com as representações-palavra correspondentes a ela’” Freud, 1923, p. 20). A diferença conceitual entre representação-coisa (Sachvorstellung) e representação-objeto (Objektvorstellung) será explorada em detalhe no próximo artigo “Freud e a Metapsicologia II – A memória no aparelho psíquico: da pulsão à linguagem”.

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