O INCONSCIENTE: UMA FABRICAÇÃO FREUDIANA?


O INCONSCIENTE: UMA FABRICAÇÃO FREUDIANA?

Réplica a Milena

Num comentário ao post ” Réplica a Carmem” — em que discorro sobre as evidências (ou falta delas) da existência de Deus —  Milena me faz uma oportuna pergunta sobre o inconsciente freudiano: considerando que o ônus da prova recai sempre sobre quem propõe a existência de algo, tem Freud (ou a Psicanálise) argumentos/evidências bons/boas o bastante para que assumamos a existência do inconsciente?

A meu ver, a resposta é sim.

Uma argumentação mais completa a respeito pode ser lida no post Curso Rápido de Psicanálise, mas retomo parte dessa argumentação e aproveito para desenvolver algumas reflexões sobre o que significa assumir a existência do inconsciente.

Vou tentar aqui desenvolver três pontos principais.

 (1). A postulação do inconsciente não é gratuita. Ao contrário, ela cumpre uma importante função teórica e explicativa.

Na ciência contemporânea, é praticamente um lugar-comum assumir a existência de entidades/objetos inobserváveis para explicar os fenômenos que observamos no dia-a-dia.

Com efeito, as melhores teorias físicas atuais falam da existência de prótons, nêutrons, elétrons, quarks e neutrinos — todas elas entidades inobserváveis — e as propõe como as partículas fundamentais do universo. Mas se não podemos observá-las, como ou por que deveríamos assumir que realmente existem?

A resposta, incrivelmente resumida, vai na seguinte linha:

A confiança na existência de tais objetos está atrelada à confiança e sucesso das respectivas teorias científicas que os postulam.

Em outras palavras: as melhores teorias de que dispomos precisam assumir a existência dessas entidades para serem construídas e realizarem suas (incríveis) predições.

Em ainda outras palavras: porque gostamos e queremos os resultados que nos apresentam tais teorias (e porque não vemos melhores alternativas), aceitamos o que tais teorias nos propõem, aí incluída a postulação de entidades/objetos inobserváveis.

 

Obviamente, sabemos, a Psicanálise não goza do mesmo prestígio que as teorias físicas modernas. No entanto, as razões para a postulação do inconsciente atende a critérios semelhantes, a saber: tal postulação nos ajuda a explicar uma série de fenômenos, ela nos permite, por exemplo, resgatar a compreensibilidade de atos, gestos, pensamentos que, de outra forma, se tornariam ‘irracionais’ ou ‘ininteligíveis’.

Com efeito, duas teses fundamentais da psicanálise são:

(a). Temos desejos inconscientes (que, portanto, não conhecemos).

(b). Esses desejos (freqüentemente) conflitam com nossos desejos conscientes.

Isso vem substituir a pressuposição anterior de que, enquanto seres racionais, nós teríamos a obrigação de sermos coerentes em nossas ações e desejos. A oposição clássica era entre ‘razão’ e ‘paixões’ ou ‘instintos’. Nossa vontade racional só seria impedida de alcançar seus objetivos se nossos primitivos instintos não deixassem. Mas, mesmo esse combate se dava no plano da consciência. A ideia ali era a de que a razão e seus elevados motivos deveriam subjugar as paixões e seus fúteis caprichos.

Entretanto, cabe notar que não somos seres tão racionais quanto gostaríamos. Ao contrário, ao observar as complexidades do comportamento humano, constatamos — antes — que somos seres “cindidos”, “divididos”, com vontades, desejos e propósitos conflitantes entre si. Mas não há nada de tão estranho nisso. Afinal, nós, humanos, somos seres com motivações tão distintas quanto são as combinações entre genes e cultura, e nada mais natural, portanto, supor que, nessa incrível complexidade, nós nos encontremos, aqui e ali, hesitantes em relação ao que queremos ou desejamos, em relação ao que nos convém ou não fazer.

Ao assumir a existência do inconsciente, portanto, a Psicanálise nos oferece justamente um meio de dar conta dessa (aparentemente contraditória) complexidade comportamental que podemos observar quase que diariamente tanto em nós mesmos quanto nas pessoas que nos cercam.

É importante aqui não temer ser redundante e explicitar a contraparte disso: sem assumir processos/desejos inconscientes não conseguimos (ou não encontramos meios melhores de) explicar muitos dos fenômenos que observamos no dia-a-dia.

 

(2). Qual o “estatuto” do “Inconsciente”? O que é “o Inconsciente” ou, antes, o que não é o Inconsciente?

 

Em primeiro lugar, é importante dizer desde logo que o inconsciente freudiano não é um “lugar”, não é um sistema com localização física precisa em nossos cérebros.

Nós podemos falar, antes e mais apropriadamente, em processos psíquicos inconscientes

Nesse sentido, falar em “o Inconsciente” é uma espécie de “atalho” teórico, por meio do qual nos referimos a um determinado conjunto de processos psíquicos possuidores de determinadas características, as quais a teoria psicanalítica tenta descrever. Similarmente, podemos falar de um “pré-consciente, isto é, de um conjunto de processos psíquicos que possuem, por sua vez, outras características.

* * *

Outro ponto importante para esclarecimento a respeito dos sistemas psíquicos é a questão do dualismo entre físico e mental/psíquico.

Afirmemos desde já e com todas as letras: não há tal dualismo.

O assim chamado “dualismo freudiano” não passa de um mal-entendido. Freud era um materialista, assim como o são a maioria dos psicólogos hoje em dia. O dualismo corpo-mente que aparece na obra de Freud é, na verdade, um dualismo metodológico, não substantivo/ontológico.

É importante que se diga isso porque, a meu ver, nos dias de hoje, o dualismo não é uma opção — nem filosófica nem cientificamente — viável ou mesmo aceitável.

Em outras palavras, ainda que passemos a usar todo um vocabulário mais ‘psicológico’, de conotações eminentemente ‘mentalistas’, nem por isso precisamos abdicar da assunção de que nosso aparelho psíquico, aparelho mental, tem como base o cérebro e, portanto, os neurônios de que se compõem.

Isso significa dizer que não existe mente sem corpo, que não existem pensamentos/processos psíquicos (inconscientes/conscientes) sem atividade cerebral que os gerem, que não existem desejos e disposições sem um organismo, físico, material, que — via atividades neurais — os possua.

 

(3). O que a ciência tem a nos dizer sobre o inconsciente (ou processos psíquicos inconscientes)?

Hoje em dia, pode-se afirmar que a existência de processos (físico-)psíquicos inconscientes está bem aceita e estabelecida pela ciência, e isso pode ser dito independentemente de uma subscrição à teoria psicanalítica do inconsciente.

De fato, renomados cientistas como Bernard Baars e o prêmio Nobel de Medicina Gerald Edelman[2] descrevem amplamente tais processos inconscientes (ex. multi-modais, processados em paralelo), bem como seu respectivo contraste com os processos conscientes (ex. lineares, processados serialmente).

Na verdade, não nos deveria causar nenhum espanto essa descoberta, considerando o óbvio fato de quão restrito é o foco de nossa experiência consciente num determinado momento. Parece, com efeito, uma conclusão imediata que nosso cérebro deva tratar, processar inconscientemente uma infinidade de dados em ‘segundo plano’ e paralelamente àqueles poucos que merecem/exigem nossa atenção imediata.

Para utilizar uma metáfora consagrada, poderíamos dizer que os processos conscientes são aqueles que ocorrem no centro do “palco” (no chamado “spotlight”), enquanto os processos inconscientes incluem desde as ações que ocorrem na ‘periferia do palco’ (aqueles eventos que, dizemos, podem a qualquer momento tornar-se conscientes) até aquelas ações/decisões que são tidas nos “bastidores”.

Um outro modo de visualizarmos a questão é imaginar uma grande e permanente ‘competição’ entre todos nossos pensamentos/processos psíquicos. Os ‘vencedores’ — aqueles que ganham/merecem/exigem nossa atenção presente e imediata — tornam-se conscientes, significando que nosso cérebro os considerou (mais) relevantes para as ações que o sujeito pretende executar no mundo (naquele instante).

Os demais pensamentos/processos permanecem inconscientes — embora ativos em “segundo plano” — e podem tornar-se conscientes num momento ulterior, desde que eles consigam ganhar força o bastante para ‘vencer a competição’ contra os outros pensamentos.

 

Dito isso, nós, obviamente, não estamos afirmando que as teorias de, por exemplo, Baars ou Edelman, respaldam diretamente a teoria freudiana ou o modo particular como esta descreve o inconsciente ou os processos inconscientes, suas características e relações com nossos sintomas/recalques.

Entretanto, é bastante interessante (e, por que não dizer, promissor) constatar que a formulação teórica freudiana sobre os processos psíquicos inconscientes é, em suas grandes linhas, compatível com os recentes desenvolvimentos científicos sobre o tema.

Num certo sentido, ao menos para os otimistas, as recentes descobertas até emprestam plausibilidade à (parte d)a teoria psicanalítica, já que a competição entre os diferentes pensamentos/processos psíquicos para se tornarem conscientes pode muito bem espelhar/traduzir/simular a competição entre os pensamentos/desejos recalcados e aqueles efetivamente aceitos pelo sujeito em questão.

 

 * * *

 Podemos então concluir, Milena, na forma de um breve resumo, que:

— Sim, podemos dizer que o inconsciente freudiano é uma fabricação teórica, mas que seja acrescentado: trata-se de uma boa fabricação teórica, já que nos permite explicar certos fenômenos que, de outro modo, permaneceriam enigmáticos ou incompreensíveis.

— O inconsciente freudiano não é um ‘objeto’ no mundo, passível de ter sua existência (fisicamente) descoberta/provada. É, antes, uma construção teórica, válida e útil enquanto e na medida em que ela nos permite explicar fenômenos que outras propostas teóricas não conseguem.

— Ao menos em sua formulação mais geral, não há qualquer incompatibilidade entre o inconsciente (leia-se: processos psíquicos inconscientes) freudiano e as recentes descobertas científicas sobre o tema. De outro lado, certas similaridades teóricas entre as respectivas formulações, científica e freudiana, parecem emprestar alguma plausibilidade teórica a esta última.

 


[2] Cf. BAARS, B. In the Theater of Consciousness: The Workspace of the Mind, NY: Oxford University Press, 1997; EDELMAN, G., TONONI, G. Consciousness – How matter becomes Imagination, Basic Books, 2000, Reprint edition 2001.

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