ENIGMAS FREUDIANOS O Problema da Consciência e outros Paradoxos (livro: 172 pgs)


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ENIGMAS FREUDIANOS —  O Problema da Consciência e outros Paradoxos

Novas articulações entre Psicanálise,Ciência e Filosofia

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Marcos Bulcão

mbulcao@gmail.com

Aparelho Psiquico

ÍNDICE

 

 

CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

 Nos meus estudos de filosofia, e mesmo anteriormente a eles, dois temas sempre perpassaram meus interesses: a questão da verdade e da apreensão da realidade. Dois temas tão intimamente relacionados que dificilmente pode ser tratado um sem que o outro seja tocado em seguida. Com efeito, trata-se dos temas epistemológicos absolutamente centrais, e nenhuma doutrina que lide com a questão do conhecimento pode pretender-se completa se não oferece ao menos uma tentativa de resposta às perguntas-chave sobre os mesmos:

O que é a realidade? Como é o mundo que nos cerca?

Podemos conhecer esse mundo, essa realidade? Interior e exterior?

Como formamos — defendemos e modificamos — nossas crenças a respeito do mundo?

Ou, em outras palavras, que critérios utilizamos, que fatores nos influenciam, que fatores são decisivos para criarmos, mantermos ou mudarmos nossas crenças, opiniões, teorias?

Como dar conta, além disso, das considerações epistemológicas que defendem a posição segundo a qual deveríamos falar antes de uma “realidade constituída” do que de uma “realidade dada, imutável”? Isto é, como podemos dar conta do fato de que toda realidade é apreendida por um ser humano (e descrita por seus conceitos), sem abandonar, com isso, a pretensão à objetividade?

Em filosofia da ciência, o nome sugere, a resposta é dada sobretudo via estudo das teorias e método científicos, com as predições e os experimentos passíveis de testemunho intersubjetivo desempenhando papel crucial na objetividade e confiabilidade dos resultados (e, conseqüentemente, das crenças) atingidos.

Já a psicanálise aponta antes para a precariedade da formação de nossas crenças sobre a realidade, no sentido de que cada sujeito apresenta um conjunto de crenças irredutivelmente seu. Assim, o fato de cada indivíduo possuir um modo peculiar de construir suas respectivas visões de mundo impediria, quase por definição, a possibilidade de uma intersubjetividade consistente. Na psicanálise, não parece valer a fórmula: o mundo é objetivamente o mesmo para todos.

De outro lado, entretanto, não se pode esquecer que a psicanálise tem como um de seus conceitos basilares a noção de aparelho psíquico, cujas operações constitutivas são regidas por certas leis que devem valer para todos os sujeitos. Isto é, se é verdade que esses sujeitos particulares vêm a possuir crenças e visões de mundo distintas, não é menos verdade que há uma espécie de núcleo central “universal”, por assim dizer, que guia a formação das mesmas.

Diferenças à parte, vale salientar que, tanto num quanto noutro caso, é requisito primordial entender como se dá o processo de construção das crenças de um sujeito, entender como esse sujeito constrói sua visão de mundo, sua realidade.

A psicanálise, naturalmente, vai focar na especificidade de cada sujeito (na sua realidade psíquica), enquanto a ciência privilegiará as crenças que adquirem um valor mais universal, isto é, crenças que, por seu caráter intersubjetivo, podem obter um acordo mais amplo por parte da comunidade (científica) relevante.

A “realidade” na teoria psicanalítica

Naturalmente, devemos estar advertidos, embora esses temas epistemológicos interessem direta e fundamentalmente à psicanálise, não se trata exatamente do conhecimento que essa teoria trata. Mas nem por isso são temas menos importantes a ela. Ao contrário, o tema da realidade e suas questões associadas atravessam a teoria freudiana de ponta a ponta. Não é preciso muito para estabelecer o ponto.

Nós vemos, com efeito, que se formam ao redor desta problemática algumas de suas noções fundamentais. Por exemplo, Freud vai distinguir entre realidade material e realidade psíquica, a primeira designando tudo o que é obtido a partir do mundo exterior, a segunda designando ao mesmo tempo as construções fantasmáticas do desejo e a apropriação que ele faz da realidade material. Ele vai, de outra parte, opor o princípio do prazer ao princípio da realidade, atribuindo a este o papel de princípio “corretivo” do primeiro. E, finalmente, não devemos esquecer que Freud definiu a neurose como uma espécie de fuga de um fragmento insuportável da realidade (material) e a psicose como a rejeição e um remodelamento dramático desta última.

Ora, o que nós temos de ver é que estas definições e diferenciações não são tão claras e tão nítidas quanto poderíamos supor à primeira vista. De fato, se olhamos mais de perto, vemos por exemplo que o princípio do prazer não se opõe verdadeiramente ao princípio da realidade, este último não sendo mais do que, num certo sentido, um princípio do prazer retardado. Além disso, deve ser salientado que, desde o fracasso da teoria freudiana da sedução, se enfraquece o império da realidade material em relação ao da realidade psíquica, já que esta tem o poder não apenas de criar um mundo independente daquela, mas também de estender seus efeitos sobre a realidade material ela mesma. E é exatamente o que se vê na neurose e na psicose.

Aqui, entretanto, há ainda um agravamento: com efeito, o que significa uma fuga ou um remodelamento da realidade material, feitos por ou a partir da realidade psíquica? Aqui é a ocasião de se perguntar se toda realidade material não é já apreendida em termos de realidade psíquica. É o momento de se perguntar se há efetivamente meios neutros e objetivos de apreender a realidade, quer dizer, se a realidade não é já e sempre contaminada pelos fantasmas e desejos do sujeito.

Observe-se que temos aqui uma questão análoga (embora não idêntica) àquela que se apresenta à filosofia da ciência, qual seja, a questão de saber se há efetivamente meios neutros e absolutamente objetivos de descrição da realidade ou se, antes, toda teoria (científica e outra) acerca da realidade seria já e sempre de algum modo contaminada pelas “categorias” (perceptivo-biológicas, lingüístico-culturais) humanas.

Sim, pois se a psicanálise aponta para o fato de que a realidade material é o “substrato” a partir do qual o sujeito constrói sua realidade psíquica; a ciência, de seu lado, também sugere a existência de um “mundo objetivo, existente independentemente de nós”, a partir do qual construiríamos nossas rebuscadas teorias científicas. Num caso como no outro, o resultado obtido é diretamente tributário dos modos específicos como se dá o processo de captura, apropriação e/ou processamento dos dados disponíveis.

Além disso, a analogia torna-se ainda mais pertinente e relevante no momento em que percebemos que as reflexões epistemológicas contemporâneas apontam diretamente para a existência de uma irredutível imbricação entre os ditos “fatos do mundo” e os ditos “fatos lingüísticos”. Citando Quine, “não existe realidade não conceitualizada”, querendo com isso estabelecer que não existem questões puramente factuais em oposição a questões puramente lingüísticas (ou convencionais).

Ora, levando a analogia um passo adiante, podemos perguntar-nos se essa imbricação não é da mesma ordem que aquela existente entre realidade material e realidade psíquica, no caso da teoria psicanalítica, e se, portanto, não poderíamos, talvez, beneficiarmo-nos do arsenal de uma para pensarmos a outra.

De fato, o holismo quineano nos conduz a e nos fornece o arcabouço conceitual para pensarmos as relações entre ciência e mundo como relações criadas fundamentalmente na linguagem e a partir da linguagem, o que pode ajudar-nos a lidar com as difíceis e por vezes paradoxais relações entre realidade psíquica e realidade material. Parodiando Quine, poderíamos dizer: “não existe realidade não psíquica”[1].

Trabalhar simultaneamente nesses dois pólos de investigação pode abrir, assim, espaço para uma compreensão mais rica e mais ampla das questões centrais subjacentes, desde que, naturalmente, atentemos para uma diferença não menos importante. O “valor” fundamental por trás da construção “psicanalítica” da realidade é menos oferecer uma representação acurada do mundo exterior (da “realidade material”) do que encontrar as vias para a satisfação pulsional. Já o “valor” fundamental por trás da construção “científica” da realidade teria, sim, a ver com uma representação mais ou menos acurada do mundo exterior (o que chamamos propriamente de conhecimento), ainda que, não menos, também com um subproduto direto da mesma, a saber, o controle tecnológico da natureza[2].

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5 responses to “ENIGMAS FREUDIANOS O Problema da Consciência e outros Paradoxos (livro: 172 pgs)

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