Réplica a Carmem e seu ‘Just know that I know nothing’


Cara Carmem,

[Para acessar o post de Carmem, clique aqui]

Obrigado por visitar meu blog e parabéns pela iniciativa de também criar o seu.

Também gostei de seu post sobre religião, mas gostaria de acrescentar alguma coisa às suas (ótimas) reflexões.

Vou tentar não me alongar muito.

Você está em certa em dizer que não existem provas (no sentido forte da palavra) nem da existência nem da inexistência de deus(es). Mas nem por isso se deve dizer que as evidências de cada lado se equivalem ou são igualmente boas!

Em primeiro lugar, não podemos esquecer que há uma importante assimetria/diferença entre provar que algo existe e provar que algo não existe. Afinal, não podemos jamais esquecer que o “ônus da prova” é daqueles que afirmam a existência de algo, e não o contrário!

Sim, é verdade que eu não posso provar (de modo absoluto) que não existem espíritos, almas que sobrevivem à morte do corpo, deuses ou mesmo aliens inteligentes vivendo em planetas a milhões de anos-luz daqui. Mas o fato de não poder provar suas respectivas inexistências não torna racional ou inteligente a atitude de neles acreditar sem que me forneçam fortes e sérias evidências de sua existência.

Me vem a mente um interessante (e engraçado) exemplo do filósofo Bertrand Russell. Me permita citar o pequeno texto:

“Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados – em vez de os dogmáticos terem de prová-los. Essa idéia, obviamente, é um erro.

De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá chinês girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos.

Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice.

Entretanto, se a existência de tal pote de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade.”

Ora, se alguém me fala da existência de tal pote de chá, não cabe a mim provar sua inexistência. Cabe a essa pessoa (ou pessoas) me dar boas razões para que eu possa acreditar ou sequer levar a sério tal hipótese. E o mesmo deve se aplicar a qualquer outra teoria ou hipótese ou crença.

Se digo que aliens existem, cabe a mim fornecer evidências para apoiar minha afirmação.

E o mesmo para quem afirma a existência de espíritos, deuses ou entidades ditas sobrenaturais.

Trata-se, no fim, de analisar as evidências fornecidas e disponíveis para cada teoria ou crença proposta.

As perguntas que se põem são:

— Há boas evidências para a existência de deus(es)?

— Elas resistem à análise e crítica?

— Após minucioso e cuidadoso exame, sou mais inclinado a supor que os argumentos pró-existência divina são “fabricações humanas” ou há argumentos/evidências independentes da fé e/ou da milenar tradição?

Acho que, no fim — me arrisco — o que te incomoda é a crença absoluta em algo. E nisso estou de acordo com você.

Deveríamos ser, como Sócrates, prudentes e humildes e reconhecer nossas limitações. E nada melhor para fazer jus ao legado socrático do que renunciar a toda e qualquer crença absoluta no que quer que seja.

Mas — ressalte-se — isso não significa que não devamos nos posicionar em face de diferentes hipóteses, teorias, possibilidades, crenças! Porque elas não são todas iguais, e freqüentemente temos boas razões para preferir umas às outras!

Sejamos críticos e analisemos as evidências, os prós e contras de cada hipótese, teoria ou crença que nos apresentem. E que, depois disso, não tenhamos medo de nos posicionar, de dizer — sempre que possível — algo como o seguinte:

“Dado o estado do conhecimento atual, dadas as evidências ora disponíveis, acho que a melhor coisa a fazer é acreditar nisso. Com a ressalva de que, em face de novos dados e novas evidências, podemos mudar de opinião”.

A pergunta que te faço então, Carmem, é essa:

Você realmente acredita que as evidências a favor da existência de divindade(s) satisfazem seu senso crítico?

E se, ao tentar responder a essa questão, você chegar à conclusão de que a resposta é negativa, não tema em se declarar “ateia” ou “ateísta”.

Bem, Carmem. Eu sou ateu. Até que me apresentem (boas) evidências em contrário…

PS1. Ateísmo = ausência de crença em divindades, e não precisa envolver nenhum tipo de negação, absoluta, das mesmas.

PS2. Não consegui cumprir a promessa e temo ter me alongado demais…

2 responses to “Réplica a Carmem e seu ‘Just know that I know nothing’

  1. Caro Marcos,

    Muito interessantes suas colocações no post acima. Considerando seus argumentos, poderíamos dizer então o que o “inconsciente” não existe, que foi uma “fabricação freudiana” ?
    Abraço,
    Milena

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    • Oi Milena, em primeiro lugar, peço-lhe que me desculpe pela demora na resposta.
      Sua pergunta é muito oportuna, especialmente nesse contexto, em que falo que o ônus da prova (da existência de qualquer coisa) é de quem a propõe. Com efeito, no post acima, argumentei que não há evidências (boas o bastante, em todo o caso) em relação à existência de Deus.
      No caso do inconsciente freudiano, porém, a situação é inversa, pois precisamente há tais evidências, e, a meu ver, elas são boas o bastante para assumir, sim, sua existência.
      Há inclusive um post que trata disso, a saber, da postulação do inconsciente pela teoria freudiana e as razões pelas quais ela é uma ótima hipótese.
      Acesse pelo link:
      https://marcosbulcao.wordpress.com/2011/02/22/curso-rapido-de-psicanalise-i-sobrevoo-inicial/

      Mas, como acho que sua pergunta suscita também outras questões — por exemplo: O que significa, exatamente, assumir a existência do inconsciente? Qual seu estatuto: é uma existência “física” ou meramente “funcional”? — eu pretendo escrever um tópico dedicado a isso.
      Abraços e obrigado pelo seu comentário.

      Gostar

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