Curso Rápido de Psicanálise: Sobrevoo inicial


CURSO RÁPIDO[1] DE PSICANÁLISE:

(I) SOBREVOO INICIAL

A psicanálise é uma teoria que, ao postular o inconsciente, permite resgatar a compreensibilidade de atos, gestos, pensamentos que, de outra forma, se tornariam ‘irracionais’, ‘ininteligíveis’.

Realmente, todos estamos familiarizados com os atos falhos, lapsos, erros de linguagem ou esquecimentos. Para não mencionar aquelas situações em que agimos contra o interesse próprio e que nos deixa tão perplexos depois.

Por que fizemos isso? — perguntamos. Como fui capaz de agir assim?

A (aqui simplificada) explicação que Freud encontrou foi supor que uma “intenção velada”, implícita, às vezes desconhecida, irrompeu e interrompeu o suposto curso ‘normal’ das coisas.

A ideia central, então, é: o ato que ‘falha’ é o da intenção consciente; o ato, oportunista e bem sucedido, é o da intenção inconsciente.

Nós podemos mesmo dizer que a força, a importância da teoria psicanalítica vem justamente desse insight fundamental: o de que dentro de nós mesmos habitam desejos e intenções conflitantes uns com os outros e, tão importante quanto, habitam dentro de nós desejos e intenções de que nem sempre nos damos conta.

Duas teses fundamentais da psicanálise são, então:

(a). Temos desejos inconscientes (que, portanto, não conhecemos).

(b). Esses desejos (freqüentemente) conflitam com nossos desejos conscientes.

Hoje, isso parece trivial de ser dito, mas durante muito tempo não foi.

A pressuposição anterior era de que, enquanto seres racionais, nós teríamos a obrigação de sermos coerentes em nossas ações e desejos. A oposição clássica era entre ‘razão’ e ‘paixões’ ou ‘instintos’. Nossa vontade racional só seria impedida de alcançar seus objetivos se nossos primitivos instintos não deixassem. Mas, mesmo esse combate se dava no plano da consciência. A ideia ali era a de que a razão e seus elevados motivos deveriam subjugar as paixões e seus fúteis caprichos.

A teoria psicanalítica mudou significativamente esse quadro. Não somos seres tão racionais quanto gostaríamos. Somos seres “cindidos”, “divididos”, com vontades, desejos, propósitos que travam seus sangrentos combates ali, no lugar mais íntimo de nós mesmos, justamente naquele lugar indisponível para (auto-)observação. E, se não os vemos — se deles só tomamos conhecimento por seus efeitos —, como evitá-los, mudá-los, ou mesmo ajudá-los?

À psicanálise, então, o mérito de nos dar essa valiosa e inovadora ferramenta, que nos permite resgatar a compreensibilidade de uma série de fenômenos que até então nos eram não apenas enigmáticos mas também inacessíveis.

* * *

Mas que ‘ferramenta’ é essa, que novo método nos oferece a psicanálise? Qual arsenal conceitual ela nos disponibiliza para que possamos “acessar” o inconsciente?

O método, embora traga algo de revolucionário, traz também algo de uma fórmula conhecida:

Se todo efeito tem por trás uma causa, todo ato (humano) tem por trás um motivo, tem um desejo.

O passo além que a psicanálise deu foi levar isso às últimas conseqüências, e didaticamente podemos dividi-lo em “duas etapas”:

(a). Se faço algo que me causa perplexidade, há algo dentro de mim que desconheço. (—> postulação/pressuposição do inconsciente).

E o grande “salto”:

(b). Se faço algo que me causa dor ou me traz prejuízo, há uma outra parte de mim que lucra com isso. (—> postulação/pressuposição do sujeito dividido).

A partir de (a), temos a postulação/pressuposição do Inconsciente.

Mas, a partir de (b), temos a postulação/pressuposição que parecia ameaçar toda a dita “racionalidade humana”: não somos coerentes em nossos desejos ou motivações.

Mas por que precisaríamos sê-lo?

Nós, humanos, somos seres com motivações tão distintas quanto são as combinações entre genes e cultura, e nada mais natural, portanto, supor que, nessa incrível complexidade, nós nos encontremos, aqui e ali, hesitantes em relação ao que queremos ou desejamos, em relação ao que nos convém ou não fazer.

A revolucionária conclusão que se pode tirar de (b), portanto, é que por trás de todo ato que “falha” (consciente), há um outro ato que é bem sucedido (inconsciente).

Uma conclusão adicional, que se impõe por si mesma, é que, no fim das contas todos nossos atos são, em alguma medida (leia-se: conscientemente ou inconscientemente), desejados e bem sucedidos.

Ora, isso parece trazer um paradoxo imediato — e, pra muitos, difícil de aceitar —, pois isso é o mesmo que dizer que mesmo quando fracassamos, somos bem sucedidos, mesmo quando nos boicotamos e somos infelizes, ganhamos algo com isso.

Como solucionar esse paradoxo?

A solução, na verdade, já foi sugerida nos parágrafos anteriores.

O que a psicanálise faz é pensar no ser humano como um ser com desejos de múltiplas ordens, de múltiplas intensidades, alguns que encontram fácil aceitação por parte da sociedade (e por nós mesmos) e alguns que encontram difícil ou mesmo nenhuma aceitação (e por isso mesmo tentamos escondê-los, seja da própria sociedade, seja de nós mesmos!).

O panorama que se desenha é, então, o seguinte.

Temos uma infinidade de desejos, e cada um deles briga para ganhar destaque e assim nos mobilizar para ser realizado. Acontece que muitos de nossos desejos conflitam entre si.

Queremos ficar magros/esbeltos, mas também queremos comer aquela lasanha, aquela feijoada, aquele doce de leite.

Queremos ficar saudáveis e em forma, mas quantas vezes a tevê e o sofá vencem a disputa com a academia?

Sabemos que fumar faz mal à saúde e pode matar no longo prazo, mas quantos não sucumbem ao prazer imediato que traz o cigarro?

Queremos ter sucesso, ser reconhecido por nossos feitos e méritos, mas isso convive com nosso medo de nos expor, medo de fracassar.

Queremos ser “sexy”, ousados e atraentes, mas não queremos parecer vulgares.

E a lista não tem fim, com oposições bem mais sutis e complexas do que os (triviais) exemplos mencionados.

Sim, já sabemos, não dá pra ter tudo ao mesmo tempo.

Não temos, deste modo, outra opção senão tentar achar um “meio-termo” entre nossos desejos, dar um jeito de conciliar os interesses conflitantes. Ou, como se diz em psicanálise: não temos outra opção senão achar uma solução de compromisso.

Notemos que tampouco essa ideia é original em si mesma. Já há 2.000 anos Aristóteles nos diz que “a virtude está no meio”, e em qualquer instância da vida comum assistimos à complexa dança da conciliação de diferentes interesses entre as partes, em cuja negociação se cede de um lado para se tentar ganhar do outro, de modo que o impasse encontre solução.

A ideia inovadora da psicanálise — hoje relativamente óbvia — é assim que esse conflito de interesses entre as ‘diferentes partes’ se dá no interior da mesma pessoa!

E, ao descobrir isso, a psicanálise nos permite formular a pergunta que nos pode tirar do impasse e perplexidade quando realizamos algo que nos prejudica (a nós ou a pessoas queridas) ou cuja causa não entendemos:

Cui Bono? Quem — ou melhor, que parte de mim — ganha com isso?

E as perguntas concretas que, a partir daí, tentamos responder são tudo menos óbvias, porque parece tudo menos óbvio que possa existir algo dentro de nós que tenha a ganhar com atos e gestos que só parecem nos trazer sofrimento.

Alguns dos ‘enigmas’ mais comuns são:

O que ganhamos quando nos boicotamos no trabalho ou nos relacionamentos afetivos?

O que ganhamos quando formamos uma fobia ou um sintoma?

O que ganhamos quando ‘paralisamos’ de medo ao falar em público?

O que ganhamos quando adiamos indefinidamente tarefas e compromissos de que não podemos escapar?

O que ganhamos quando fazemos algo que claramente nos prejudica a saúde?

Mas perguntas semelhantes se poderiam colocar mesmo quando os resultados das ações buscadas têm também algo claramente positivo:

O que realmente ganhamos quando, na busca por fama, riqueza e poder, nos tornamos ‘workaholics’?

O que realmente ganhamos quando seguimos os ditames sociais e nos tornamos ‘cidadãos respeitáveis da sociedade’?

Etc, etc, etc.

Na verdade, o que essas últimas perguntas nos trazem à reflexão é que se, de um lado, é verdade que todo gesto pode ser dito (em alguma instância) bem sucedido; de outro lado, não é menos verdade que todo gesto tem um preço. Ou, como ficou canonizado na máxima da economia: não existe almoço grátis.

Em ainda outras palavras.

Dada a complexidade de nossas necessidades e desejos — biológicos, pulsionais, afetivos, culturais — o melhor mesmo é falar de uma complexa balança de custos e benefícios.

O desafio de cada ser humano é, então, construir uma estratégia global de satisfação que, na sutil avaliação de prós e contras, consiga um equilíbrio dos diferentes aspectos de nossa ‘personalidade’.

O desafio, sabemos, é colossal.

De fato, quando pensamos em nossas estratégias de satisfação, raramente temos noção de tudo que está em jogo. Os aspectos inconscientes de nossas crenças predominam, partes importantes de nossas estratégias tendo sido definidas em tenra idade. Deste modo, as crenças que geram nossas ações não são explícitas, freqüentemente não são conscientes e, pior, muitas vezes não são nem mesmo consistentes entre si.

Por que isso acontece?

Em todas as fases de vida, o sujeito tem determinadas experiências bem sucedidas de satisfação. Ele registra esses modelos e tenta generalizar, isto é, extrair dessas experiências uma espécie de estratégia para guiar sua busca futura. Em outras palavras, ele tenta, nas experiências seguintes, repetir essa(s) experiência(s) bem sucedida(s).

O que temos de ver, no caso humano, é que a satisfação de nossas pulsões não pode acontecer sem respeitar certas restrições sociais, digamos assim.

É por isso que temos de encontrar uma espécie de solução de compromisso entre o que desejamos e o que nos permite a sociedade.

É por isso que temos de considerar uma complexa relação de custos e beneficios antes de realizar esta ou aquela ação, de satisfazer este ou aquele desejo.

Se fazemos algo impulsivamente, contra certos ditames sociais, pagamos o preço desse “desrespeito”: estamos suscetíveis de sofrer “retaliações” por parte da sociedade.

Se, por outro lado, respeitamos demais tais ditames, ficamos frustrados e também pagamos um preço, desta vez o preço de não satisfazer nossos desejos, de não satisfazer nossas pulsões.

O que a psicanálise revela é que essa avaliação, tão complexa quanto pode ser, é fundamental ou grandemente inconsciente, daí a dificuldade de sermos “coerentes”, “racionais” em todos os nossos passos, atos, gestos.

O que a psicanálise revela é que há muito mais entre nosso ego e superego do que sonhava nossa cartesiana filosofia…

TO BE CONTINUED…


[1] A ideia aqui é discutir temas e conceitos psicanalíticos de modo mais “informal” e “fluido”, tentando se prender o mínimo possível em questões e discussões mais “técnicas”. Visa sobretudo o leitor não familiarizado, para que ele possa, aos poucos, conhecer — e utilizar! — algumas das principais noções psicanalíticas.

2 responses to “Curso Rápido de Psicanálise: Sobrevoo inicial

  1. Pingback: O INCONSCIENTE: UMA FABRICAÇÃO FREUDIANA? « Penso, logo hesito·

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