Um insight terapêutico


Um insight terapêutico

ou

O melhor para si mesmo pode ser também o melhor para todos?!

 

Parece um fato inquestionável que uma pessoa mais tolerante, mais flexível, se estressa menos, é freqüentemente menos infeliz com acontecimentos imprevistos do mundo, com aqueles eventos que lhe escapam do controle.

Não menos importante, freqüentemente também é uma pessoa que torna o ambiente onde ela está mais leve, e conseqüentemente mais harmônico, por ser uma fonte a menos de estresse, de exigência e desequilíbrio para os outros.

O intolerante, de outro lado, não apenas sofre mais — encontra mais situações que o descontentam —, mas também faz outros sofrerem mais, constantemente reprovando-lhes gestos e comportamentos.

Ora, essa idéia (de adaptação, flexibilidade —> tolerância) acaba por se tornar, então, um princípio terapêutico — pela maior potencialidade de bem-estar pessoal — e, incidentalmente, um ‘princípio moral’.

Os dois convergem, com efeito, muito bem.

Enquanto terapia, a idéia favorece a circulação de energia psíquica (de pensamentos, valores, desejos) e com isso tende a impedir, a evitar estagnações, bloqueios da mesma: isto é, recalques.

Ora, precisamente ao favorecer uma circulação mais livre, maior flexibilidade é gerada, o que contribui potencialmente para o indivíduo ficar mais aberto às diferenças, ao que lhe é estranho, favorecendo por sua vez uma convivência mais suave com os outros, minimizando, por exemplo, conflitos de valores e culturas.

De fato, assim que o indivíduo realiza a vantagem que há em ser mais adaptável e flexível, ele pode, sem perda, desapegar-se de uma noção que lhe é tão preciosa, a saber, a de controle, a de querer o mundo de um modo determinado, específico, rígido.

Na verdade, o que se pode vislumbrar é que o controle das situações lhe retorna à mão ainda com mais força, no momento em que mais situações lhe são desejáveis, favoráveis. E assim, ainda nessa perspectiva algo renovada, atinge com mais facilidade sua idéia preliminar de querer o mundo do seu modo. Sim, porque agora, assumindo esse mundo formas (potencialmente) mais variadas, amplia ele suas possibilidades de realização, de satisfação.

Não se trata, portanto, mais daquela idéia de “o feliz é quem deseja pouco e consegue esse pouco”, noção que desagrada[1] devido à sua limitação intrínseca. Por que (necessariamente) desejar pouco? Por que abdicar, na fonte, de toda a riqueza do mundo, estética, cultural, afetiva, e até mesmo material?

O indivíduo pode desejar amplamente, se quiser, e na medida em que não mais se apega a valores, a objetivos, a objetos (excessivamente) específicos de desejo como condição de sua felicidade, ele pode ser feliz também mais freqüentemente, com mais leveza, já que pode ser feliz com diferentes ventos e paisagens.

* * *

Ora, o que podemos ver também aparecer, subjacente a essa noção de circulação de energia e ampliação potencial das redes de satisfação, é uma espécie de — na falta de uma expressão melhor —‘princípio moral’.

Note-se, porém, que não se trata de um princípio moral ‘clássico’, que nasce ou precisa ser justificado por um dever ser (imposto de fora para dentro); é um ‘princípio’ que deriva antes e sobretudo do “desejar ser” (gerado, portanto, de dentro para fora).

É algo que favorece antes e diretamente o indivíduo; apenas depois, como desejado ‘efeito colateral’, favorece também e grandemente as demais pessoas que o cercam.

Esse ‘novo’ indivíduo, mais flexível e tolerante, não acha que deve ser ou se comportar assim porque o mundo dos “seres racionais” assim o demanda, como quiseram Kant e outros. Antes, ele deseja ser assim, pois ao desenvolver essa capacidade, esse estilo, ele é imediatamente — e independentemente de (diretas) conseqüências nos outros — mais feliz.

Naturalmente, e por isso ganha cores de um “princípio moral”, esse novo modo de viver e estar no mundo também gera benefícios imediatos para o resto da comunidade, nos permitindo pensar num harmônico mundo dos “seres tolerantes/flexíveis/adaptáveis”.

Assim, do ponto de vista individual, torno-me tolerante/flexível porque quero, porque isso é o melhor pra mim.

E, do ponto de vista social, ganha-se reforço no fato de que, incidentalmente, o que é melhor pra mim é também melhor para a sociedade.

* * *

Seria esse o melhor dos mundos? Conseguir agir no melhor interesse de si mesmo e, ainda assim, contribuir para o melhor interesse da comunidade como um todo?

Quer parecer que sim, que essa tríade ‘flexibilidade/adaptabilidade/tolerância’ pode ter esse efeito.

Assim, de um lado, esse ‘princípio da tolerância’ pode ser justificado e incentivado como uma prática terapêutica, não mais vinculada ou constituindo uma imposição arbitrária dos valores pessoais seja do analista, seja do psicólogo ou mesmo do amigo. A tolerância é uma arma terapêutica porque ela propicia a circulação de idéias e dos circuitos psíquicos, promovendo assim a revitalização e eventualmente ampliação dos circuitos de satisfação.

E, de outro lado, esse mesmo ‘princípio da tolerância’ pode ser incentivado e justificado como um ‘princípio moral’, já que tende a beneficiar a convivência pacífica e harmoniosa entre as pessoas, já que potencialmente mais capazes de assimilar e aceitar o estranho, o diferente, o imprevisto.

* * *

Sim, essa parece ser uma idéia filosófica e psicologicamente atraente.

Parece, além disso, altamente conectada às necessidades do mundo de hoje. E com o bônus de ser também altamente assimilável, em suas grandes linhas.

* Idéia que precisa, claro, ser cuidadosamente re-pensada e desenvolvida…


[1] Pelo menos a nós, membros da civilização (capitalista-consumista) ocidental.

4 responses to “Um insight terapêutico

  1. Caro Marcos,

    – Tenho acompanhado seu blog e suas interessantes intervenções. Muito bom o texto sobre a tolerância e nossa capacidade de melhor dimensionarmos a forma como devemos agir e interagir, o que possibilita-nos relações sociais mais abertas e afetivas.

    abraço,

    Rogério.-

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    • Caro Rogério,
      Comentários como o seu apenas me estimulam a continuar publicando, obrigado!
      Aliás, se você achar conveniente, pode fazer uma subscrição ao blog e ser notificado por email a cada novo post.
      Abraços,
      Marcos

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