Quando o diálogo faz todo sentido: reflexões sobre religião e ateísmo


QUANDO O DIÁLOGO FAZ TODO SENTIDO

Reflexões sobre religião e ateísmo

 

Há alguns dias, recebi um e-mail de Nelson Costa Jr., convidando-me a que tomasse parte do synchroblog sobre seu livro “Quando o cristianismo não faz sentido”.

* * *

Você está recebendo este e-mail porque o identifico como sendo alguém cuja opinião valorizo, a amizade também, e porque estou precisando de uma grande força!

Até Janeiro de 2011, estarei lançando o meu primeiro livro no Brasil: “Quando o Cristianismo não faz sentido”. O livro explora um pouco sobre Deus, Bíblia, Jesus Cristo, Fé, Igreja e Salvação dentro de uma perspectiva liberal.

(…)

Com respeito e admiração.

Nelson Costa.

* * *

Após esse inusitado convite, tomei a iniciativa de ir a seu blog (http://nelsoncostajr.com/) e ler alguns dos posts relativos a seu livro.

E publico a seguir, com mínimas alterações, nossa correspondência:

* * *

Caro Nelson,

Devo dizer que gostei de boa parte do que li, gosto de modo geral da sua visão e de como você compreende a religião. Não estou certo, entretanto, de ser alguém conveniente a esta empresa como um todo.

O ponto-chave em questão é que sou ateu e tenho uma visão algo crítica da religião.

No meu ponto de vista, religiões (bem como quaisquer crenças em seres sobrenaturais) são superstições que nasceram, foram criadas em tempos remotos de ignorância e, infelizmente a meu ver, continuam — por uma espécie de “inércia” — a ser encorajadas pela comunidade.

“Acredito em Deus porque meu pai e o pai do meu pai e o pai do pai do meu pai acreditavam”. Como acreditam em Alá os que nascem no Egito ou em Marrocos; como acreditam em Buda ou Confúcio os que nascem na China ou Japão; como acreditavam em Zeus, Hera e Afrodite os gregos do passado; como acreditavam em todo tipo de deuses e entidades sobrenaturais os povos anteriores a eles.

Como você menciona em seu texto, as comunidades ‘evoluem’ e, com elas, mudam suas crenças e suas histórias. Uns deuses morrem, outros nascem. Mas toda crença é invariavelmente determinada por lugar, região, laços culturais e familiares, de modo que a cada povo (ou mesmo indivíduo) uma “revelação” diferente é dada.

Uma pergunta se parece impor: será que continuaríamos a acreditar na existência de um “ser supremo” se nossos pais e educadores parassem de nos doutrinar, desde a mais tenra idade? Deveríamos realmente encorajar nossas crianças a crerem em algo apenas por “tradição”?

Não desconheço, naturalmente, os bons usos que se pode fazer da religiosidade humana, mas na minha opinião os males superam em muito os benefícios. As tantas mortes, guerras, intolerância e ódio entre povos estão certamente entre os maiores males, mas não menos nocivos são os efeitos de se ensinar (doutrinar) crianças a possuírem crenças sem fundamentos ou, pior, de se lhes ensinarem que “quanto mais cega for a fé, melhor ela será”. Marcas como essas são indeléveis e tendem a comprometer seriamente a capacidade de juízo crítico do futuro adulto.

De fato, se a mais elevada de nossas crenças pode ser admitida sem quaisquer provas ou evidências, que dizer das outras crenças, “menores”?

Se somos ensinados desde o berço a não questionar os “insondáveis desígnios divinos”, a engrandecer Sua incompreensibilidade e mistério, como querer, depois, que escapemos das armadilhas retóricas de lunáticos, como Hitler, ou tantos outros facínoras?

De outro lado, acredito que uma posição talvez semelhante à sua — me permita arriscar — poderia ser igualmente atingida defendendo apenas um “humanismo estrito”, sem precisarmos de remissões a Deus ou outras “causas superiores”. Sim, pois de que outros argumentos realmente precisamos para defender o amor à humanidade, o amor ao próximo, além de promover o bem-estar das pessoas e comunidades que nos cercam?

E se esses argumentos não forem suficientes, será que o “medo da ira divina” será suficiente? Quer parecer-me que não, e tanto a história quanto o nosso dia-a-dia nos dão constantes demonstrações disso.

A moralidade, é preciso reconhecer, não está vinculada às crenças religiosas de uma pessoa. Ela deriva, antes e mais relevantemente, da educação recebida, do exemplo dado por pais e educadores. Um bom-caráter é um bom caráter, sendo ele religioso ou não. E o mesmo para um mau-caráter. Com a diferença que um mau-caráter religioso pode sempre tentar usar Deus ou a religião para “justificar” suas ações muitas vezes indizivelmente perversas…

Deste modo, por essas e tantas outras razões, e mesmo entendendo que há ou pode haver “bons usos” a se fazer de uma postura ou crença religiosa, não posso senão dizer que, para mim, mesmo relido e reinterpretado, ‘o cristianismo não faz sentido’.

Agradeço-lhe ainda uma vez pelo convite,

Marcos Bulcão

* * *

Caro Marcos,

Que satisfação poder ler sua posição! Você não imagina o quanto me fez bem e o quanto acrescentou em minha educação. Confesso que muita coisa que disse concordo; para falar a verdade não posso discordar de nada de certa forma – premissas e conclusões excelentes!

Agradeço também por ter gasto do seu precioso tempo para me escrever – não precisava de todo esse esforço.

Mas enfim, já que escrevestes tão detalhadamente,  prefiro não aceitar sua decisão de não se envolver (…) e lhe dizer o seguinte:

O planeta está precisando ouvir um discurso como o seu. Sei que possuímos nossas diferenças ideológicas, mas acredito que, se cristãos como eu ouvissem mais sobre as diferentes posições a respeito da existência ou não de Deus, poderíamos aprender muito e pararíamos de falar coisa sem sentido. Ou seja, mesmo você possuindo muitas razões para não se envolver, me esforço aqui para convidá-lo a comunicar o que você pensa. Pois meu material é para mostrar que nós cristãos não somos donos da verdade, que não podemos provar a existência de Deus, e que devemos ouvir mais os outros que pensam de maneira diferente.

É aí que entra o socorro do outro lado da moeda, do dado ou do poliedro.

É aí que me pergunto: com quem aprenderei se não com quem pensa diferente?

Pode parecer utópico e controverso, você pode até achar que seja uma neurose minha, mas acho que um discurso como o seu é valioso e cai perfeitamente para o momento – principalmente para mim, por isso insisto. Acredito que você deveria arriscar a me ajudar – mesmo diante das diferenças. Te convidei desde o início porque acho mais do que importante a manifestação dos ateus nesse momento da história da humanidade. Desejo andar e aprender com todos aqueles que estão longe do teísmo, e que vêem o universo de uma forma que não consigo enxergar a não ser através da religião que me foi ensinada de berço.

Enfim Marcos, se você não quiser mesmo não tem problema, compreendo. Não precisa nem me responder. Mas se por acaso achar digno – que é o que estou querendo  –  me avise, e prepare um texto do jeito, forma e maneira que quiser. Meu livro não terá sentido algum se eu não apresentar o outro lado!

Com grande alegria e expectativa no coração, fico agradecido por sua disposição, tempo e sinceridade!

Nelson Costa

* * *

Caro Nelson,

A satisfação foi minha ao ler sua “tréplica”, quão raro é encontrar pessoas dispostas a dialogar, abertas a investigar os diferentes lados da “moeda, do dado ou do poliedro”!

Na verdade, meu caro amigo, se todos se mostrassem tão abertos e tolerantes com a diferença — de opiniões e crenças — como você se mostra, a história das religiões não teria metade do rastro de sangue que deixou e ainda deixa atrás de si.

No nosso debate, poderíamos deixar de lado essas grandes “máculas” da história e nos perguntaríamos apenas se a crença algo cega numa divindade onipotente traz mais benefícios ou prejuízos à formação intelectual e moral de nossas crianças.

E bem, é minha opinião que o fortalecimento do juízo crítico (alguns dirão “cético”) é mais valioso do que encontrar — na suposta existência de seres sobrenaturais e dotados de superpoderes — conforto para nossos maiores medos, como morte, injustiça, infelicidade.

Ciente, naturalmente, de que nossa pequena correspondência apenas abre o debate, abre o diálogo, reitero minha satisfação em tomar parte nessa sua valiosa iniciativa.

Grande abraço,

Marcos Bulcão

4 responses to “Quando o diálogo faz todo sentido: reflexões sobre religião e ateísmo

  1. Olá Marcos, tenho acompanhado o seu diálogo com o Nelson Costa Jr, e tenho dado a devida atenção a cada uma de vossas palavras, pois assim aprendo ainda mais! Quero saber qual a finalização deste diálogo, você aceitou participar do livro do Nelson?
    Pretendo ler o livro e também acompanhar o seu blog!

    Abraço

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    • Oi Jairo,
      Obrigado por seu comentário.
      Sim, aceitei participar do livro do Nelson, e nossa idéia foi incluir o próprio diálogo no livro, achamos que isso deixaria a discussão mais “viva”.
      Fico contente que você tenha gostado desse post, espero que goste também do resto do blog. Peço que me desculpe pela demora na resposta, mas estava viajando nesses últimos dias.
      Abraços.
      PS. Há um outro post no blog com temática semelhante (“Réplica a Carmem”). Dê uma conferida.

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  2. Caro Marcos,

    Muitíssimo pertinente seu comentário sobre a não existência de vínculo entre religião e moralidade- poucas vezes a clareza alheia me surpreende!

    Confesso, entretanto, que o racional dedutivo sobre o dilema da existência ou não de Deus, bem quanto à determinação da identidade religiosa sobre o comportamento humano, às vezes me soa um pouco cansativo (me lembra as monografias e teses intermináveis de meus ex-alunos).

    A base da discussão sobre a existência de Deus é díspare… no campo real, captado por nossos limitados 5 sentidos, ele não existe.
    No campo mental -imagine a mente como um processador que mistura as informações captadas com suas necessidades instintivas (defesa, sobrevivência, perpetuação,auto-estima), para então determinar a concepção do real.

    Aí passa a existir a concepção do amor, do desejo (poder, por um padrão de beleza já que instintivamente, seria por qualquer fêmea/macho em idade fértil), a crença em Deus/Espíritos/Alá/Saci Pererê… de acordo com a verossimilidade para o nível e necessidade de cada cliente!

    Deus e a Verdade são concepções individuais naquela determinada fração de tempo…assim como, para mim, neste momento a cerveja já está gelada e a praia me espera!

    Bjs! Ana.

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  3. Pingback: Quando o Cristianismo não faz sentido – Antiópio 3. « Nelson Costa Jr.·

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