RAFAEL NADAL: À FRENTE DE BORG, ATRÁS DE FEDERER


PARTE I

RAFAEL NADAL: (JÁ) À FRENTE DE BORG, (AINDA) ATRÁS DE FEDERER

[Atualizado após Wimbledon 2011]

Com a vitória no US Open 2010, Nadal escreveu de vez seu nome na história e, para muitos, já antecipa uma discussão que — a meu ver — só pode ser levada mais a sério nos próximos anos & caso ele mantenha seu nível de conquistas, a saber, a discussão sobre quem é o melhor de todos os tempos.

Digo isso pelo seguinte.

Dizer que Nadal já pode ser considerado o melhor de todos os tempos significa dizer — de cara — que seus 10 títulos de Grand Slam (GS) e 19 de Master 1000 (antigo Master Séries: AMS) valem mais do que os 16 e 17 de Federer, respectivamente, o que obviamente não é o caso.

Os defensores dessa (algo precoce) idéia poderiam então dizer que Nadal tem apenas 25 anos e leva (muito) a melhor no confronto direto.

Mas, no quesito “idade/precocidade”, tenho uma importante restrição a fazer. A idade precoce de Nadal é algo que engrandece seus feitos, disso não há a menor dúvida. Mas, no cômputo geral — i.e. da carreira como um todo —, ela aponta apenas para uma potencialidade para futuros feitos.

Em outras palavras, para considerar Nadal hoje o melhor de todos os tempos, só podemos considerar o que ele fez até hoje, e não considerar seus potenciais triunfos futuros.

Suponhamos, por exemplo, que as contusões de Nadal se acentuem e ele não mais consiga competir no seu nível de excelência e não ganhe mais nenhum GS até o final de sua carreira.

Deveria ele ser considerado, a partir do que ele fez até hoje, o melhor de todos os tempos? Não creio.

Os fãs mais devotos certamente poderiam dizer que “sim”, que se ele tivesse continuado, ele certamente teria ganho mais títulos; que a contusão foi uma triste fatalidade e que, portanto, ele não pode perder o título de melhor de todos os tempos apenas por causa de um acaso infeliz.

Mas aqui eu discordo. E muito. E com base em pelo menos dois tipos de consideração.

(1). A história é feita de fatos, e não de “ses” ou de “quases”.

Borg tinha 11 títulos de GS aos 25 anos e tinha certamente potencial para muitos outros. Mas surpreendeu o mundo e se aposentou e, assim, ficou com os mesmos 11. Seu “potencial” não se tornou “atual”, por qualquer que seja a razão.

Acaso deveríamos fazer uma espécie de projeção e colocar na “conta” de Borg os muitos títulos que ele deveria ter ganho?

Várias razões para dizer que não.

John McEnroe teve, em 1984, uma das melhores temporadas para um tenista de que se teve testemunha. Ganhou 82 de 85 partidas, com dois títulos de Grand Slam (Wimbledon e US Open), uma final (Roland Garros), sem mencionar ter levado pra casa o Masters Cup[1] e terminar, com folga, na liderança do ranking. Se tivesse encerrado precocemente, como Borg, sua carreira naquele momento, os fãs certamente teriam “predito” vários Slams a mais em sua carreira, que ele certamente teria ganho se não tivesse parado… Tão interessante quanto surpreendente para todos foi realizar que aquele US Open seria o último! McEnroe jogou por mais oito anos e o máximo que conseguiu foi ir a mais uma final do US Open!

Esse é um dos mais contundentes exemplos — particularmente porque McEnroe era um contemporâneo de Borg — e serve para ilustrar que não é tão óbvio prever o que vai acontecer com um jogador. Mas outros exemplos poderiam servir.

Guga, em 2001, tinha uma considerável frente em relação a Hewitt, quando sua contusão nos quadris o impediu de competir no seu nível normal e o fez perder inéditas 9 ou 10 partidas seguidas em primeira rodada. A frente em relação a Hewitt era tão confortável que Hewitt, mesmo tendo ganho o US Open, só foi ultrapassá-lo no último torneio do ano, tornando-se em seguida o mais jovem da história a terminar como número 1.

Se Guga não tivesse se contundido, poderíamos facilmente assumir que ele teria terminado como número 1 naquele ano, adiando em pelo menos um ano a glória de Hewitt. Poderíamos supor, além disso, que outros títulos de Roland Garros teriam sido obtidos. Mas o fato é que Guga se contundiu, e o ‘vácuo’ de sua contusão foi preenchido pela glória de outros. E é Hewitt, e não Guga, que tem em seu currículo dois anos de término como número 1.

Se Monica Seles não tivesse sido esfaqueada, ela certamente teria mais títulos e glórias no tênis. Nesse caso, foi Steffi Graf que aproveitou o ‘vácuo’ e consolidou, ainda mais, seu nome na história. Os exemplos abundam.

Todas essas fatalidades são tristes e nós espontaneamente pensamos no que teria sido a história caso as coisas se tivessem passado diferentemente. Essa especulação é mais do que natural, mas — infelizmente — não muda os fatos.

Por isso não temo ser repetitivo nesse ponto-chave: por mais cruel ou injusto que seja, a história não é feita de “ses” ou de “quases”.

* * *

(2). Além disso, e pelo menos no que concerne às contusões — que vitimam tantos atletas e transtornam tantas carreiras — há uma consideração ulterior.

Normalmente, quando falamos de um atleta, diferenciamos suas qualidades técnicas das qualidades físicas, e estas das suas qualidades, digamos, “mentais”. Isso, claro, é uma útil abstração que nos ajuda a pensar nos méritos relativos dos atletas, avaliar seus pontos fracos e fortes. Mas, ao mesmo tempo, isso pode nos conduzir a cometer um erro de análise.

Sim, porque todo atleta “fora de série” é esse conjunto indissociável de qualidades — técnicas, físicas e mentais —, e são elas, em conjunto, que o tornam “fora de série”. Mas podem ser também elas, em conjunto ou em parte, que lhe podem tirar de cena.

Ou seja, o mesmo corpo (penso em Nadal) que lhe permite proezas dentro de quadra é o corpo que eventualmente se contunde. A mesma cabeça que lhe permite frieza e concentração nos jogos é a mesma que eventualmente pode lhe fazer abandonar a carreira (penso em Borg).

É inadequado então, me parece, separar os prós dos contras no que diz respeito aos dotes de um atleta.

Em outras palavras, podemos com inteira justiça e reverência louvar a incrível capacidade mental de Borg, que lhe fez ganhar tantos jogos e títulos, mas não devemos esquecer que foi essa mesma mente que lhe fez abandonar a carreira precocemente. Não vale louvar a incrível capacidade física de Nadal e fingir que as eventuais contusões que ele sofre não são parte do mesmo corpo.

Em ainda outras palavras: É um pacote completo. Especular o que teria acontecido “se Borg não tivesse abandonado precocemente a carreira” é análogo (ou mesmo equivalente) a especular o que teria acontecido “se Federer fosse mais forte mentalmente” ou “se Marcelo Rios fosse mais disciplinado”. Em qualquer dos casos estamos introduzindo elementos que, embora plausíveis, não são factuais.

A história, lembremos, não é o terreno do possível, plausível, nem mesmo provável. É, pura e simplesmente, o território do que aconteceu. E, nessa história, até o dia de hoje, Borg ganhou “apenas” 11 GS, Nadal 10, McEnroe 7, enquanto Federer ganhou incríveis 16.

* * *

Me estendi demais na digressão, particularmente nesse último tópico, mas acho que vale a conclusão, em uma frase:

A história não é feita de “ses” ou de “quases”, e os méritos de um atleta são medidos pelos resultados que eles, de fato, obtiveram ao longo de suas carreiras.

 

 

VER PARTES 2 E 3


[1] Prestigiado torneio de final de ano, que reúne os oito melhores jogadores da temporada.

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