NADAL À FRENTE DE FEDERER?


PARTE III

NADAL À FRENTE DE FEDERER?

[atualizado após Indian Wells 2012]

Federer ou Nadal? Um pássaro na mao ou dois voando?

… O caso é diferente se compararmos os feitos de Nadal contra os de Federer. Se compararmos apenas os feitos de cada um até hoje — história é feita de fatos — temos um quadro que, me parece, favorece Federer amplamente.

  • Grand Slams: Federer lidera por longínquos 16 a 10.

Mas a distância não se resume apenas aos títulos. Outras marcas são igualmente cruciais para avaliação.

Com efeito, Federer possui o recorde de finais (23), de finais consecutivas (10), de semi-finais consecutivas (23). Nadal, por sua vez, tem pouco mais do que a metade das finais (14, das quais 4 consecutivas); e mais tímida ainda é sua melhor seqüência de semis: cinco.

Para dar uma melhor dimensão ao que significa esse recorde de Federer, nas palavras do próprio Nadal:

Pergunta: Qual é o feito de Roger Federer que você mais admira?

Resposta de Nadal: “A série de 23 semifinais consecutivas de Grand Slam. São quase seis anos jogando todos os quatro Slam, sem uma única contusão, sem um dia ruim. Acho que ninguém conseguirá repetir isso”.

Federer fez, além disso, a final de cada um dos Slams pelo menos cinco vezes, e a proeza que Nadal acaba de fazer em 2010 — ganhar três Slams no mesmo ano — Federer já a repetiu por três vezes.

Federer é tetra em 3 Slams diferentes, penta em 2 deles… a lista poderia seguir. E tão grande quanto possa ser a lista de Nadal, ela ainda engatinha diante da de Federer.

  • Masters 1000 (AMS): Empate entre Nadal e Federer: 19 (pelo menos ate’ a temporada de saibro…)

O mérito de Nadal aqui é a rapidez com que chegou ao número — e, portanto, seu potencial de ir muito mais além — e não propriamente o número atingido. Mas como aqui não estamos lidando com “potenciais”, mas com “atuais”, vemos que esse não é um quesito onde Nadal possa (ainda) descontar muitos pontos em relação a Federer.

  • Year End Championship: Federer lidera por 6X0.

Nadal ainda mantém sua virgindade no prestigiado torneio de fim de ano, tendo atingido apenas uma final, enquanto Federer acaba de superar o recorde anterior, deixando Lendl e Sampras para trás.

  • Número 1 ao final do ano: Federer lidera 5X2;
  • Semanas na liderança do ranking: Federer lidera 285 X 102

Federer está, além disso, a apenas uma semana do recorde de Sampras (286) e detém o recorde absoluto de semanas consecutivas (237).

* * *

Por tudo isso, se pararmos para pensar com cuidado — especialmente se lembrarmos que o maior trunfo de Nadal é seu potencial de novas conquistas — veremos que o único critério em que realmente Nadal se sobressai em relação a Federer é o CONFRONTO DIRETO, em que ele lidera e com folga (18X10).

Mas quanto peso devemos dar realmente a esse critério?

Valeria tal superioridade ½ Slam, 1 Masters Cup, ou mesmo 1 AMS? Aposto que Nadal trocaria esse histórico favorável contra Federer por qualquer um desses títulos, sem pestanejar. E por bons motivos.

Discorramos sobre alguns deles.

(a). Hoje Nadal é jogador completo, está no seu auge e não teme ninguém em nenhuma superfície.

Mas no auge de Federer, Nadal ainda obtinha a maioria de seus resultados significativos no saibro e, conseqüentemente, a maioria de seus confrontos era nessa superfície que tão bem se ajusta a seu jogo.

Ora, o que acontecia então era o seguinte.

Federer ia para praticamente todas as finais em todas as superfícies, mas só encontrava Nadal — majoritariamente em todo caso — nas finais de saibro, porque freqüentemente Nadal falhava em chegar às finais em outras superfícies (lembremos que Federer foi penta-campeão no US Open e apenas recentemente Nadal atingiu a final desse torneio).

Ora, Nadal é, de fato, um melhor jogador no saibro do que Federer e, correspondentemente, construiu a grande maioria de suas vitórias nessa superfície (são 12 das suas 18 vitórias obtidas nesse piso). Mas podemos ‘culpar’ Federer se Nadal — especialmente nos anos de maior dominância de Federer — não conseguia chegar com tanta freqüência à final em outras superfícies?

Em uma palavra e citando Jon Wertheim:

“Nadal tem um confronto favorável — significativamente favorável — contra Federer. Ainda assim, a maioria dessas partidas [14] foram jogadas na superfície preferida de Nadal, e menos preferida de Federer. Considere: eles nunca jogaram no US Open, uma vez que Nadal nunca atingiu [até então] a final”.

Assim,freqüentemente Federer “cumpria sua parte do contrato” e chegava à final na quadra dura, mas ainda mais freqüentemente Nadal falhava em cumprir sua parte e negava, assim, a Federer uma oportunidade de jogar na sua superfície favorita e equilibrar seu confronto direto.

Conclui Wertheim: “Isso não significa que esse ‘recorde’ favorável é inválido. Mas é um ponto a considerar quando avaliar os dados” [1].

Eu também não estou aqui a desmerecer essa superioridade no confronto direto contra Federer, acho mesmo (mais) uma prova do incrível talento de Nadal. Mas acredito que o “confronto direto” deva, como no futebol, ser considerado mais um “critério de desempate” do que algo cujo mérito possa ser avaliado por si só.

Incidentalmente, a analogia com o futebol pode trazer uma imagem ilustrativa.

Suponhamos o seguinte.

O São Paulo faz mais pontos ao longo do campeonato (e por uma boa margem) e, correspondentemente, sagra-se campeão brasileiro. Perde, entretanto, as duas partidas que joga contra o Flamengo. Deveria o Flamengo sentir-se melhor do que o campeão?

* * *

Aproveitando o gancho, acho mesmo que o modo mais proveitoso e claro de ver o ponto é o seguinte.

(b). O que parece fazer mais sentido para medir a qualidade relativa de dois jogadores: no confronto direto ou nos resultados obtidos em cada superfície?

Que Nadal é melhor jogador no saibro do que Federer, isso ninguém questiona. Mas, note-se: não é exatamente o maior número de vitórias no confronto direto que prova o ponto. Muito mais significativo é o número total de vitórias, de títulos em determinado período. Nadal tem, hoje, 6 Slams (32 títulos) no saibro; Federer tem um Slam, 9 títulos. Nadal é melhor, bem melhor, no saibro: caso encerrado.

Mas o caso é inteiramente diferente nos outros pisos.

No piso duro, Federer tem 9 Slams, 51 títulos (recorde), Nadal tem 2 Slams, 11 títulos.

Na grama, Federer tem 6 Wimbledon, 11 títulos (recorde), Nadal tem 2 e 3, respectivamente.

Assim, mesmo se Nadal tivesse um saldo positivo no confronto direto também nesses pisos — não é o caso — alguém realmente se atreveria a dizer que Nadal foi melhor que Federer nos últimos anos?

* * *

Acho que, pra encerrar — não a discussão, mas — a argumentação, deixo o leitor com as palavras do próprio Nadal:

“Isso não existe, falar que sou melhor do que o Roger é no mínimo estúpido. Ninguém tem dúvida quanto a isso, não é um momento adequado para considerar algo deste tipo. Somente o número de títulos que ele possui já diz a diferença entre nós. Ele sempre será um exemplo para mim e tento acompanhar a forma como ele progrediu na carreira ao longo do tempo, progredindo e fazendo a diferença no circuito”.

* * *

Sem querer ser dogmático a respeito, acho  que essa é a única posição, no momento, ‘sensata’. Digo e enfatizo “no momento” porque, quando o que está em jogo é a discussão sobre quem é o melhor de todos os tempos, é o todo da carreira que conta, todos seus títulos, marcas e recordes. E, no momento presente, Nadal está muito, muito, longe de Federer. No momento presente, o único jogador que tem currículo bastante para gerar uma disputa “acirrada” com Federer é Sampras, com seus 14 Slams e, sobretudo, seus seis anos consecutivos na liderança do ranking. A briga é, sem dúvida, dura. Entretanto, mesmo Sampras — pelo menos desde a conquista de Roland Garros —, creio que perde.

* * *

Tentando sumarizar toda a discussão em três ou quatro curtos parágrafos.

Nadal perde em títulos para Borg, mas, no meu entender, vence pelo “conjunto da obra”, pela simbologia de seus títulos. Afinal, conquistou  o título que mais eludiu Borg (US Open) e que, possivelmente, precipitou o fim de sua carreira. Assim, legado por legado, acredito que possuir o Career Grand Slam compensa os títulos a menos que possui Nadal em relação ao grande Borg.

Quanto à comparação com Federer, acredito que as palavras do próprio Nadal devam ser levadas a sério, e não apenas servir como um belo exemplo de humildade. Suas façanhas, as de Nadal, estão ainda muito aquém daquelas de Federer.

A meu ver, o que Nadal tem de real vantagem em relação a Federer é — não uma simbólica vantagem no confronto direto, maior parte da qual construída sobre o saibro, mas sim — a idade, o potencial, seu elevadíssimo potencial para novas conquistas.

Realmente, com apenas 25 anos, já completou o Career Grand Slam (com dez deles no total), detém o recorde de 19 AMS (agora compartilhado com o próprio Federer), e um jogo que parece melhorar a cada dia.

Realmente, se olhamos para Rafa hoje, para seu jogo, sua determinação, seus adversários, realmente é difícil não imaginarmos mais e mais recordes no seu já vasto currículo. É difícil, por exemplo, não imaginar Rafa ganhando mais 3 ou 4 Roland Garros, 2 ou 3 AMS por ano nos próximos três ou quatro anos, terminando as próximas duas ou três temporadas como número 1.

Realmente, olhando para Rafa Nadal hoje, é difícil não imaginá-lo quebrando no futuro os próprios recordes de Federer e reescrevendo a história.

[Embora a recente e extraordinária ascensão de Djokovic nos permita imaginar que isso não será tão “fácil” assim…]

Mas hoje, no momento presente, isso ainda é um exercício de imaginação, isso é apenas potencialidade, possibilidade.

Porque em termos de história, escrita e concreta, com seus muitos, muitos inalcançados recordes, Federer ainda reina sozinho.


[1] http://sportsillustrated.cnn.com/2010/writers/jon_wertheim/08/11/mailbag/index.html#ixzz0wLLiEngo

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