Da França ao Atlântico — O CAMINHO DE SANTIAGO


Da França ao Atlântico — O CAMINHO DE SANTIAGO

… Depois de meu mestrado, decidi experimentar a aventura de atravessar um país a pé e andar da fronteira da França até Santiago, e de lá até o Oceano Atlântico, numa aventura que me consumiu 36 dias e um par de botas.

Essa experiência foi, em muitos sentidos, única e altamente recompensadora. Não encontrei, é verdade, “meu demônio pessoal”, nem tampouco fui “iluminado” com revelações definitivas para as minhas muitas questões. Mas achei, sim, muita beleza na grande diversidade das paisagens do norte da Espanha. E uma beleza essencialmente diferente de tudo a que estava acostumado porque uma beleza “conquistada”. Era essa, de fato, a sensação que se me acometia ao chegar aos lugares: a de que aquilo tudo, aquela paisagem, aquele solo, me pertencia pelo mero fato de que havia pisado em cada metro dele para chegar até ali. Essa, sim, era uma sensação “mágica”.

E tive o prazer, além disso, de conhecer pessoas e tipos extraordinários. Como o belga, ex-padeiro, que resolveu vender tudo o que tinha, colocou a mochila nas costas e saiu de Paris para ir até Santiago, para ver se descobria o que fazer da vida. Como o suíço-italiano, que partiu de onde morava, na base dos Alpes suíços, achando que não tinha nada a perder quando foi expulso do mosteiro por falta de vocação, mas acabou perdendo muitos quilos durante o caminho. Como o padre e o fotógrafo, ateu, que caminhavam juntos e travavam entre si os mais fantásticos debates.

Por tudo isso, foi com satisfação que cheguei à belíssima Catedral de Santiago para receber minha “Compostela” (espécie de certificado dado aos viajantes que percorreram, a pé, a cavalo ou de bicicleta, pelo menos 150 km do trajeto), no já distante 20 de novembro de 1998.

Por tudo isso, ao ser perguntado pela minha motivação para essa viagem, respondi ao padre: “físico-cultural”.  E assim

A bela St Jean Pied-de-Port

respondi não apenas pelo gosto do contraste com as usuais respostas do tipo “religioso-cultural”. Antes, achei que nenhuma resposta seria mais adequada, porque, de fato, aquela viagem satisfazia, ao mesmo tempo, minha curiosidade física e minha curiosidade cultural. Curiosidade física no sentido de saber do que meu corpo é capaz, conhecer eventualmente os seus limites e encontrar os pontos de superação. Curiosidade satisfeita ao completar os 850 km que separam Saint Jean-Pied-de-Port, na França, e a pequena cidade de Villa Garcia, banhada pelo Oceano Atlântico.

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