O QUE É A REALIDADE? COMO CONSEGUIMOS O QUE QUEREMOS? [5 pgs]


O que é a realidade? Como é o mundo que nos cerca?

Podemos conhecer esse mundo, essa realidade? Interior e exterior?

— Se podemos, como chegamos a uma boa descrição, precisa, da realidade?

— Como formamos e defendemos nossas crenças[1] a respeito do mundo?

Que critérios utilizamos, que fatores nos influenciam para criarmos, mantermos ou mudarmos nossas crenças, teorias, opiniões?

* * *

O que a CIÊNCIA diz a respeito?

A ciência assume, em linhas gerais, que o mundo existe independentemente de nós, e que isso traz  um importante elemento de objetividade. Isto é, podemos admitir que os homens podem desaparecer da terra, mas  nem por isso a terra deixará de existir.

Ou seja, as características deste planeta, do universo como um todo, são independentes de nós as conhecermos ou não.

De outro lado, entretanto, tudo o que podemos dizer do mundo, todas as características que podemos perceber e descrever do mundo, essas sim dependem de nós em múltiplos aspectos. Sim, porque o que podemos dizer do mundo depende, por exemplo, do nosso próprio aparato biológico e perceptivo. Depende ainda do que nossa linguagem e cultura permitem expressar.

A ciência usualmente define conhecimento como

  • CRENÇA RACIONALMENTE JUSTIFICADA.

Que aspectos são chaves na “racionalidade” (no dito método científico)?

— o uso da lógica dedutiva, mediante o qual os múltiplos aspectos de uma teoria ou sistema de crenças devem ser consistentes entre si;

teste rigoroso para confirmação (ou refutação) das hipóteses;

— (o que implica) crítica permanente e revisabilidade.

A idéia geral seria então coletar as observações empíricas e organizá-las num sistema lógico dedutivo. Depois, tentar extrair desse sistema conseqüências — as chamadas predições — e testá-las.

As teorias com melhores predições, mais exatas, que mais tenham resistido aos testes, seriam as melhores candidatas para se dizerem verdadeiras descrições da realidade.

* * *

Isto, claro, é uma idealização do método científico. Claro porque, como em qualquer atividade humana, valores intervêm a todo instante, e os cientistas são muitas vezes obrigados a escolher diferentes teorias, diferentes campos de pesquisa de acordo com os propósitos que lhes parecem, no momento, melhores.

* * *

Na verdade, o que tem ficado cada vez mais claro é que as teorias científicas, antes de nos oferecerem verdades absolutamente objetivas, são teorias humanas que são aceitas na medida em que satisfazem, no momento devido, certos propósitos, certos critérios.

Em outras palavras, devemos perceber que o estabelecimento dos propósitos, dos objetivos (dos valores, portanto) antecedem qualquer possibilidade de acordo entre os indivíduos sobre o que quer que seja.

Assim, na base de toda discussão epistemológica[2], devem estar as perguntas:

  • Por que construímos hipóteses, por que construímos teorias sobre o mundo?
  • Por que temos e defendemos esta ou aquela crença (ou teoria)?
  • Por que, afinal, acreditamos no que acreditamos?

Somente definidos esses propósitos, esses objetivos, é que podemos saber se tal ou qual hipótese, tal ou qual teoria, tal ou qual crença é bem sucedida.

Quais são afinal os meus PROPÓSITOS?

— é conseguir salvação?

— é conseguir prazer?

— é controlar o meio ambiente?

Ora, o que a ciência argumenta é que, de um modo geral, seus propósitos serão atingidos mais facilmente se você conseguir um bom GUIA PARA ANTECIPAR A EXPERIÊNCIA FUTURA. Isto é, se você conseguir realizar predições bem sucedidas.

O que a ciência argumenta é que o melhor método para conseguir organizar a experiência sensível e conseguir usar essa experiência passada para antecipar a experiência futura é o método científico.

Mas observe que concordar com isso é já concordar com uma série de pressupostos tácitos.

De fato, pensemos numa pessoa cujo objetivo maior seja obter a salvação. Suponha ainda que essa pessoa creia que toda a verdade esteja na bíblia e que a bíblia apenas contém o caminho para a salvação.

Esse indivíduo estará disposto a abdicar de todos os benefícios da ciência, renunciará a todas as crenças científicas tanto quanto elas entrem em conflito com a bíblia.

Acaso poderemos chamar esse indivíduo pronta e diretamente de irracional?

Isso é um pouco perigoso, no mínimo porque um aspecto da racionalidade é justamente saber adequar meios para obter determinados fins. No momento em que este indivíduo definiu como seu objetivo a salvação e a bíblia como meio privilegiado para obtê-la, não parece haver nada mais racional do que renunciar a tudo que a ciência diz que conflite com a bíblia.

Numa linha um pouco diferente, podemos pensar nas complexas relações psicológicas onde as ações de um indivíduo não parecem trazer senão infelicidade para ele, mas que se pode enxergar que ali reside uma grande satisfação pulsional inconsciente (os casos de pessoas que continuam a fumar e comer compulsivamente apesar dos problemas de saúde que enfrentam podem ser bons exemplos disso).

* * *

Mas tentemos GENERALIZAR um ponto importante.

Se pensarmos nossas teorias, nossas opiniões como um sistema/conjunto de crenças[3], podemos pensar que todos nós mantemos as crenças (teorias, opiniões) que consideramos úteis (para nossos propósitos) e revisamos, descartamos, abandonamos as crenças que consideramos nocivas.

Nossas teorias, nossas crenças são, assim, espécies de guias para o futuro (o que inclui a crença de que o futuro será em grande medida como o passado).

Isso vale tanto para o cientista, quanto para o fanático religioso, quanto para o homem comum.

Cada um mantém, sustenta, defende suas crenças segundo elas se mostrem capazes de (servir de guia para) satisfazer seus objetivos mais primordiais.

O que diferencia cada caso é justamente a definição do que conta como objetivo primordial.

ACREDITAMOS NO QUE É MELHOR ACREDITAR: MAS O QUE É ESSE “MELHOR”?

Percebamos um modelo comum.

Todos temos um patrimônio de crenças; isto é, um conjunto de generalizações (conscientes e inconscientes) que nos diz que, se agirmos de determinado modo, obteremos o que desejamos.

Se, na média, conseguimos obter o que desejamos, mantemos nossas generalizações, nosso conjunto de crenças.

Se falhamos em conseguir, cedo ou tarde nos vemos obrigados a revisar nossa estratégia, modificar ou mesmo abandonar nossas crenças.

Vejamos o modelo da ciência:

Leis científicas —> Predições –> Testes: corroboração (confirmação) ou refutação.

Se as predições são confirmadas –> mantemos a teoria e suas leis.

Se as predições falham (são refutadas) –> ou fazemos ajustes na teoria ou — se houver uma teoria alternativa melhor — abandonamos a teoria antiga e a trocamos pela nova.

* * *

Aqui devemos fazer uma observação importante.

Nós temos uma enorme tendência a PROTEGER nossas crenças, teorias, opiniões, tanto quanto possível. Isto é, quando confiamos profundamente numa teoria, numa crença ou estratégia de ação, tendemos a ignorar qualquer fato contrário a ela.

Em outras palavras, temos enorme dificuldade a mudar de opinião, a admitir que estamos errados. E quanto mais importante para nós for aquela crença ou opinião, mais resistentes somos a mudar de posição.

Realmente, só pensamos em mudar de opinião, em reorganizar nossas crenças sobre algo se enxergarmos claramente que tal mudança nos trará mais benefícios do que prejuízos.

E isso, insistimos, vale tanto para o cientista quanto para o sujeito comum.

Toda teoria, toda crença, toda opinião é um instrumento de interação com o mundo, com a realidade. São nossos instrumentos mediante os quais tentamos realizar nossos “propósitos”, nossos objetivos, sejam eles a sobrevivência, o controle tecnológico da natureza, a satisfação pessoal.

A ciência se pretende mais “racional” (coloquemos “racional” entre aspas) nisso que ela tenta sempre tratar de modo explicito os ganhos e prejuízos de tal ou qual postura, de manter esta ou aquela formulação da teoria. A ciência tem méritos nisso, é inegável.

Mas, em qualquer caso, cientista ou homem comum; aceitamos uma crença, uma teoria porque ou quando ela funciona, isto é, porque ou quando ela nos satisfaz — nos ajuda a conseguir o que (achamos que) queremos.

O modo como um indivíduo “constrói sua realidade” dependerá, portanto, dos modos como ele interage com o mundo, dos modos como ele — nesse mundo que lhe é estranho, exterior, muitas vezes hostil —  consegue satisfazer seus propósitos, satisfazer seus objetivos.

* * *

Para concluir, explicitemos uma vez mais o que está em jogo, desta vez focando mais especificamente no que vou chamar de “estratégias de satisfação”.

Experiência passada —> Teorias

Crenças

Estratégias de satisfação

—> antecipação de experiência futura

(predições)

[para obter o que queremos]

Em caso de sucesso, manutenção das teorias, das crenças, das estratégias.

Em caso de fracasso, revisão/mudança (ou abandono).

* * *

Diante disso, como então o sujeito humano constrói suas ditas “estratégias de satisfação”?

Sem entrar em detalhes, podemos dizer o seguinte.

Em todas as fases de vida, o sujeito tem experiências bem sucedidas de satisfação.

Ele registra esses momentos e tenta generalizar, isto é, tenta extrair dessas experiências uma regra de conduta, uma espécie de estratégia. Em outras palavras, ele tenta, nas experiências seguintes, repetir essa experiência bem sucedida.

Pensemos no esquema acima.

A partir da experiência passada, construímos uma teoria ou uma estratégia de ação, esperando com isso poder antecipar a experiência futura para obter o que queremos.

O que temos de ver, no caso do homem que vive em sociedade, é que a satisfação de nossos desejos não pode acontecer sem respeitar certas restrições, regras, costumes, valores sociais.

Isto é, temos de encontrar uma espécie de “solução de compromisso”, uma espécie de meio-termo, entre o que desejamos e o que nos permite a sociedade.

Ou ainda melhor: temos de considerar uma complexa relação de custo e beneficio de realizar esta ou aquela ação, de satisfazer este ou aquele desejo.

Se fazemos algo impulsivamente, contra certos ditames sociais, pagamos o preço desse “desrespeito”: somos mal-vistos, colocados “à margem” da sociedade.

Se respeitamos demais tais ditames, podemos ficar frustrados e também fatalmente pagaremos o preço, desta vez o preço de não satisfazer nossos desejos.

Encontrar o balanço “perfeito” entre o que intimamente desejamos e o que a sociedade (pais, família, amigos, etc) “espera” de nós é, assim, o grande desafio que todos nós temos de enfrentar.

———————————————————————————————————————————————

[1] IMPORTANTE: “crença” aqui será tomado no sentido de qualquer coisa em que acreditamos, desde as coisas mais básicas, o que chamamos de “fatos” (creio que estou vivo, sou brasileiro) até as mais abstratas (creio que existe vida em outros planetas) ou imaginárias (creio que existem duendes ou um ser supremo).

Nossas crenças comportam, assim, graus de confiabilidade. Isto é, podemos classificar algumas de nossas crenças como mais prováveis (ou até mesmo certas) ou menos prováveis.

A crença de que estou vivo tem um grau de confiabilidade máximo (isto é, não consigo pensar que possa ser falsa). Já a crença na existência de vida em outros planetas tem um grau bem menor de confiabilidade, já que, até hoje, não temos nenhum indício concreto para afirmar isso.

[2] Epistemológica = relativa ao conhecimento (mais precisamente, relativa às bases ou fundamentos do conhecimento).

[3] Ver nota 1.

3 responses to “O QUE É A REALIDADE? COMO CONSEGUIMOS O QUE QUEREMOS? [5 pgs]

  1. Pingback: Nelson Costa Jr» Blog Archive » O que é a realidade – Versão Reduzida.·

  2. Talvez vc devesse fazer uma distinção, que me parece fundamental, que é entre uma teoria ser explicativa e uma teoria ser preditiva. Quando uma teoria faz previsões, podemos dizer que ela é útil para certo objetivo. Mas e quando, a partir de uma teoria explicativa, não podemos fazer previsões? Por exemplo, uma teoria filosófica que fala sobre o poder explicativo maior das leis da natureza quando pensadas como independentes em vez de quando pensadas como advindas das disposições dos objetos não permite previsões para o futuro; enquanto, novamente por exemplo, uma que dê uma abordagem probabilística da existência de partículas (ou outros) subatômicas pode ser bastante preditiva, embora pouco explicativa. Teria uma teoria meramente explicativa alguma relação com propósitos que venhamos a ter?

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