COMO FORMAMOS NOSSOS VALORES?


COMO FORMAMOS NOSSOS VALORES?

Desde que nascemos, travamos um incessante combate entre o que desejamos e o que efetivamente podemos conseguir.

De fato, desde pequenos choramos (gritamos, esperneamos…) para conseguir o que queremos e requer algum tempo até aprendermos que não podemos ter tudo o que queremos imediatamente.

Crianças mimadas demoram mais para aprender isso, e eventualmente se tornam adultos frustrados ao perceber que o mundo não é tão obediente a seus caprichos quanto eram seus pais.

De fato, com o tempo, nossos pais (ou educadores) nos ensinam não apenas que é importante saber esperar (isto é, adiar a satisfação de nossos desejos), mas também que algo é esperado de nós (isto é, precisamos dar alguma coisa em troca para de conseguir o que queremos). E com isso, aprendemos talvez as duas lições mais importantes de nossas vidas[1].

Superlativos à parte, podemos mesmo dizer que aqui está, em miniatura, a base da formação de nossos valores, a base de formação de nossas personalidades.

Com efeito — e desconsideradas aqui as diferenças genéticas —, o adulto que somos hoje depende intimamente do modo como aprendemos a conciliar nossos impulsos instintivos mais primários com as exigências, as limitações que o mundo (pais, sociedade) nos impõe.

Como resultado desse (perpétuo) combate, temos a formação de nossas estratégias de ação — gosto também de chamar “estratégias de satisfação” — isto é, nossos modos privilegiados de realizar nossos desejos e objetivos.

Nossas estratégias, assim, vão desde cedo tentar dar conta desse sutil balanço entre a satisfação mais imediata de nossos desejos e a ‘satisfação’ das expectativas sociais.

O raciocínio psicológico por trás disso seria algo como:

Quero isso agora (mamar, carinho, fraldas limpas…). Mas não tenho poder de, sozinho, conseguir isso. Dependo do outro.

E nisto podemos encontrar a raiz de todo valor moral: entre meu desejo e minha satisfação está o (desejo do) outro.

A conclusão tácita introjetada pela criança é algo como: se não fizer antes o que o outro exige/deseja, posso não conseguir o que quero nem agora nem depois. Ou seja, aceitamos renunciar ao prazer imediato (ir direto ao objeto desejado, sem concessões ou ponderações) em troca da segurança do prazer futuro (mediado pela aprovação do outro/sociedade).

O raciocínio acima parece simplista, mas toca em pontos centrais do processo educacional e, conseqüentemente, da formação de nossos valores.

* * *

Com efeito, se os pais satisfazem incondicionalmente a criança, a criança fatalmente perderá (parte d)a capacidade de fazer concessões e terá, quando adulta, grandes dificuldades de entender (e aceitar) que o mundo não é (exatamente) como ela quer. Essa criança correrá enormes riscos de ser uma pessoa frustrada, e isso mesmo se ela alcançar um lugar de destaque na sociedade. Sem limites impostos quando jovem, ela não saberá comemorar suas conquistas parciais. Porque, na verdade, de seu ponto de vista, ela não deveria ter de conquistar, lutar, trabalhar para obter aquilo que ela pensa ser seu de direito.

O exagero inverso pode causar problemas igualmente graves. Uma criança que não encontra suas necessidades satisfeitas (por exemplo, carinho, afeto, reconhecimento) apesar de todo esforço em agradar, fatalmente crescerá insegura. Sem nunca ter sido bem sucedida nessas trocas primordiais, será provavelmente incapaz de avaliar, ponderar o que realmente é necessário para equilibrar a balança das exigências sociais em relação a seus próprios desejos. Em casos limites como esse, pode inclusive sentir-se indigna de sequer ter desejos (não merecedora de quaisquer recompensas), coibindo-os tão logo eles surjam.

* * *

Felizmente, esses são casos extremos, mas ainda assim importantes para chamar a atenção para o óbvio: tanto o excesso de “amor” quanto sua falta são nocivos à formação dos valores de uma criança (e futuro adulto).

O modelo geral, de qualquer modo, vale para todos.

À medida que vamos crescendo, vamos aprendendo a encontrar um equilíbrio entre a vontade de satisfação imediata e as exigências do mundo real.

Em termos psicanalíticos, poderíamos dizer: o princípio do prazer (imediato) dá lugar ao princípio de realidade.

E os nossos valores nisso tudo?

O que chamamos de valores, ou princípios morais, são resultado direto desse processo de contenção (ou retardamento) do prazer imediato.

Retornando à lição primordial: vamos aprender desde cedo, via pais ou educadores, que nem tudo é permitido, que nem tudo acontece diretamente e de acordo com nossa vontade.

O princípio de realidade vai delimitar então, num balanço sutil, tanto o território do que é permitido (aceitável) desejar quanto o território dos meios legítimos para se obter o que se deseja.

Em outras palavras, o princípio de realidade vai criar uma espécie de moldura para nossos desejos e (estratégias de) ação, área fora da qual não ousaremos transitar.

Fora dessa “moldura”, portanto, está o território do proibido ou indesejável. O que está fora da moldura, ou não nos permitimos querer, ou não nos permitimos usar como meio para conseguir o que queremos.

Para dar um exemplo concreto. Está um dia quente, você está louco pra tomar um sorvete, mas não tem dinheiro. À sua frente, está uma criança pequena, sem nenhum adulto por perto. Você facilmente poderia tomar o sorvete da criança e satisfazer seu desejo imediato. Mas não faz isso. E mais: isso nem sequer passa pela sua cabeça.

Usando a metáfora da “moldura”: recorrer à violência, ainda mais contra uma criança, para satisfazer um desejo tão banal certamente não faz parte de seus valores, não está dentro do ‘quadro’ das ações que você concebe ou mesmo deseja.

Daí a importância da educação da criança. Porque será principalmente nesses primeiros e cruciais anos de vida que essa moldura se formará.

Óbvio e trivial quanto seja essa informação, nunca é demais repeti-la.

Note-se que não estou sendo aqui determinista, no sentido de dizer que uma criança que teve pouco limite na infância se tornará um bandido ou mau-caráter na vida adulta.

Mas arrisco-me a dizer que uma criança para quem as noções de certo e errado não foram claramente estabelecidas (isto é, com punições adequadas e proporcionais à ação/erro) na infância, fatalmente será um adulto cujo universo moral será mais “frouxo”, isto é, será um adulto que talvez não veja qualquer problema em cometer atos (mais ou menos) imorais na medida de sua conveniência.

Um outro exemplo pode nos ajudar.

Você encontra seu filho brincando com um carrinho que você não conhecia. Você pergunta de quem é esse carrinho e ela lhe responde: ah, achei na escola.

Ao ouvir isso, você pode simplesmente dizer — “Ah, tá” —, caso em que o provérbio “achado não é roubado” fará parte da “moldura” de seu filho.

Diferente seria a resposta —“Meu filho, esse carrinho não é seu, e quem perdeu pode estar muito triste. Já pensou se fosse seu, você não gostaria que alguém o devolvesse?” —, completada com a instrução de devolvê-lo no dia seguinte (que deve ser levada a cabo mesmo sob eventuais protestos da criança, insatisfeita em ‘perder’ o carrinho que acabara de ‘ganhar’).

Na primeira resposta, há claramente a omissão, por parte do pai, em relação ao estatuto do achado, dando brechas ao seguinte pensamento/valor, por exemplo: “se não fui o responsável pela ação (perda do carrinho), não preciso tomar parte na sua reparação (ausência de engajamento/solidariedade)”.

Sem querer dar peso demais ao exemplo, há aí um valor individualista claramente veiculado na situação, ainda que tacitamente: a perda do outro não me diz respeito. Incidentalmente, ainda pode abrir brecha para um outro pensamento/valor, talvez ainda menos louvável: “é legítimo beneficiar-se da perda do outro, ao menos quando não fui eu o gerador da mesma”.

A segunda resposta, ao contrário, engaja o filho na situação como um todo, ao trazer a pessoa que perdeu o objeto para dentro de suas ponderações. Estimula, portanto, a identificação com a perda alheia e, conseqüentemente, a solidariedade no gesto (simbólico) de devolução.

* * *

Obviamente esse exemplo é meramente ilustrativo, e não tenho a pretensão de dizer que é fácil dar uma sólida educação moral a nossos filhos.

No entanto, dar o exemplo (incluindo repreender no momento adequado) de modo ativo e consistente ainda me parece o melhor método.

A SER CONTINUADO…


[1] Os economistas poderiam aqui brincar e dizer que aprendemos desde cedo um dos principais ‘axiomas’ da economia: “Não existe almoço grátis”.

3 responses to “COMO FORMAMOS NOSSOS VALORES?

  1. 1. Diria que a responsabilidade dos pais é absoluta: quando estão com os filhos é porque estão com os filhos, quando não estão com os filhos é porque não estão com os filhos (kkkk). Os pais definem a extensão temporal e a qualidade moral da sociedade à qual seu(s) filho(s) tem (têm) acesso. As crianças têm acesso apenas à medida permitida pelos pais. Acho que tanto o comentário de Bado quanto sua resposta terminam atenuando as afirmações anteriores de que a sociedade apita alguma coisa com independência da intervenção dos pais.

    2. Em algumas – talvez muitas – ocasiões, deveríamos torcer fervorosamente para que os pais sejam omissos e atrapalhem menos a educação dos filhos, que, deixados à própria sorte, podem enfim ser adultos melhores do que são seus pais, criados por mães donas-de-casa, com 100% do tempo dedicado «à educação dos filhos».

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  2. Como Pai de uma criança de 3 anos, asseguro que a questão é muito complexa. Ouso chutar que a sociedade influi bem mais do que os Pais na formação dos filhos, talvez numa relacao de 1/4 entre Pais/Sociedade. A conta é simples. Pais que trabalham, dificilmente conseguem passar mais do que 3 horas diarias dando atenção aos filhos. Se a criança dorme aproximadamente 9 horas por dia, as demais 12 horas são da sociedade. Neste caso, acredito que mais do que a educação presencial do Pais, cabe aos mesmos estarem atentos e assegurarem que nos momentos em que não estiverem presentes, seus filhos estejam em ambientes sociais saudaveis – Conceito de Educação Indireta. Neste caso, ambientes acadêmicos decentes, práticas de esportes, atividades extra escola, em que eles possam estar adquirindo valores e vendo exemplos saudaveis podem ser a chave de uma boa educação.
    Falou um Pai de primeira viagem!

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    • Sem dúvida, Bado, concordo inteiramente com o que você argumentou. Mas gostaria de acrescentar algo que pode fazer você aumentar a proporção de ¼ entre pais/sociedade: o exemplo dado, a própria história de vida dos pais, que será “bebida” incessantemente pela criança.
      O que quero dizer é que praticamente tudo o que os pais fazem — bem como outras pessoas que adquirem seu amor e confiança — é absorvido pela criança e lhe ensina “modos de vida” aceitáveis ou desejáveis.
      Quando digo “tudo”, isso inclui a profissão escolhida, a carga horária de trabalho (quanto tempo passa dentro ou fora de casa, e com que disposição), o fato de a mãe trabalhar também ou não, o fato de o pai ajudar nas tarefas domésticas ou não, o modo como eles tratam os empregados ou subalternos, amigos ou desconhecidos, etc, etc. Isso inclui inclusive o juízo de valor emitido em relação a outras pessoas e seus respectivos comportamentos, profissões, etc, etc.
      Em outras palavras, cada comportamento, modo de agir, cada escolha dos pais funcionará como uma forte (ainda que tácita) mensagem para a criança: “se eu faço (recomendo, elogio) isso, é legítimo (aceitável ou desejável) que você faça também”.
      “Se eu trato mal meus subalternos, é aceitável que você faça o mesmo”, abrindo espaço a que ela desenvolva sentimentos de superioridade em relação às classes mais desfavorecidas.
      “Se eu sou racista e preconceituoso, se digo que lugar de mulher é na cozinha, se desconto nos outros meu mau-humor”, isso abre espaço a que a criança trate como normais, aceitáveis todo esse rol de valores ou comportamentos.
      “Se torço pro Vitória e gosto de ser um eterno vice”, isso abre espaço a que a criança nunca seja um bom apreciador de futebol.
      Não precisamos ser, naturalmente, deterministas e assumir que a criança — depois adolescente e adulto —, não terá poder de escolher caminhos e valores diferentes daqueles assumidos pelos pais.
      Mas é certo que os valores — explícitos e implícitos — dos pais (e educadores) criam uma primeira “moldura”, a partir da qual a criança vai se orientar no futuro.
      Em todo caso, acho que todos podemos concordar com o seguinte: seja de 1/4 ou 1/10 nossa parcela de responsabilidade, não podemos senão tentar maximizar nossos esforços na educação e formação de nossos filhos (e também pessoas próximas a nós).
      E, estou convencido, o melhor modo de fazer isso ainda é por meio de seu próprio exemplo de vida. Desde, claro, que você não seja um grande filho da p… Mas, nesse caso, você não estaria preocupado em ler esse texto, muito menos comentá-lo…

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