A CONSTRUÇÃO DA REALIDADE NO SUJEITO (9 pgs)


A CONSTRUÇÃO DA REALIDADE NO SUJEITO*

*Palestra proferida na UFRN, nov/2008

Marcos Bulcão

mbulcao@gmail.com

Falaremos hoje sobre a construção da realidade no sujeito, tentando focar especialmente a abordagem que dela faz a teoria psicanalítica, mas aproveitando também para fazer um contraponto com o ponto de vista da ciência.

Em primeiro lugar, devemos levar a sério a indicação dada pelo título da conferência, isto é, levar a sério a idéia de que a realidade não se oferece clara e diretamente ao ser humano, senão que ela é construída por nós.

Em outras palavras, é dizer que as propriedades inerentes ao ser humano interferem no modo como o mundo, como a realidade é apreendida. É dizer ainda que a psicanálise tem algo de peculiar a esse respeito.

* * *

Pensemos, para nos ajudar, no seguinte quadro de oposições.

Realidade “dada”

“esperando” para ser “desvendada”

Realidade construída

(com intervenção do “fator humano”)

Conhecimento absolutamente objetivo,

Olhar do “ponto de vista de deus”

Conhecimento intersubjetivamente objetivo; valores; falibilismo

E talvez pudéssemos acrescentar a clássica dicotomia psicanalítica

Realidade material Realidade psíquica

Devemos lembrar que essas distinções são interessantes e didáticas desde que saibamos, no momento devido, borrar, aqui e ali, suas fronteiras.

Ou seja, é preciso lembrar que ainda mais freqüentemente essas fronteiras traçadas não são tão nítidas assim.

De todo modo, a idéia aqui é focar no lado direito da tabela, isto é, defender a idéia de que, num importante sentido, é mais interessante falar numa realidade construída do que numa realidade “dada” de uma vez por todas.

Minha idéia para isso é fazer uma espécie de contraponto entre a ciência e a psicanálise para ver se ganhamos alguma clareza extra com esse contraste.

* * *

Mas, como se diz, comecemos do começo, não corramos risco de fazer assunções não explícitas. Para isso, devemos começar com as perguntas mais gerais que podemos fazer sobre o tema.

Essas perguntas são:

— O que é a realidade? Como é o mundo que nos cerca?

Podemos conhecer esse mundo, essa realidade? Interior e exterior?

— Se podemos, como chegamos a uma descrição acurada, apropriada da realidade?

— Como formamos e defendemos nossas crenças a respeito do mundo?

Que critérios utilizamos, que fatores nos influenciam, que fatores são decisivos para criarmos, mantermos ou mudarmos nossas crenças, teorias, opiniões?

* * *

O que a CIÊNCIA diz a respeito?

A ciência assume, em linhas gerais, que o mundo existe independentemente de nós, e que isso traz, inevitavelmente, um certo elemento de objetividade. Isto é, podemos facilmente admitir que os homens podem sumir da terra, mas que nem por isso a terra deixará de existir.

Ou seja, as características deste planeta, do universo como um todo, são independentes de nós as conhecermos ou não.

De outro lado, entretanto, tudo o que podemos dizer do mundo, todas as características que podemos perceber e descrever do mundo, essas sim dependem de nós em múltiplos aspectos.

O que podemos dizer do mundo depende, por exemplo, do nosso próprio aparato biológico, perceptivo. Depende ainda do que nosso discurso consegue expressar.

A ciência usualmente define conhecimento como

  • CRENÇA RACIONALMENTE JUSTIFICADA.

Essa definição é interessante porque ela introduz, pela questão da crença, um inexorável toque de subjetividade. Que ela tenta em seguida neutralizar com a palavra “racionalmente”.

A racionalidade em questão vai dizer respeito ao uso de um método que possa superar as diferenças individuais e, ao fazê-lo, angariar para si os requisitos de objetividade.

Ou seja, o pressuposto subjacente aqui é que objetividade equivale a intersubjetividade. Ou seja, aquilo que vale para todos deve ser objetivamente verdadeiro (ou pelo menos próximo a isso).

Claro que aqui a intrusão de elementos subjetivos é clara e notória, já que aquilo que vale para todos pode ser pensado como aquilo que persuade a todos. E a noção de racionalidade não esconde isso. Quando somos racionais, nos pomos naturalmente de acordo. Essa é, pelo menos, a pretensão idealizada.

Que aspectos são chaves na dita racionalidade (no dito método científico)?

— o uso da lógica dedutiva, mediante o qual os múltiplos aspectos de uma teoria ou sistema de crenças devem ser consistentes entre si;

teste rigoroso para corroboração (ou refutação) das hipóteses;

— (o que implica) crítica permanente e revisabilidade.

A idealização geral do procedimento científico seria então coletar as observações empíricas e organizá-las num sistema lógico dedutivo. Extrair desse sistema conseqüências — as chamadas predições — e testá-las.

As teorias com melhores predições, mais exatas, que mais tenham resistido aos testes, seriam as melhores candidatas para se dizerem verdadeiras descrições da realidade.

Acontece que essa idealização do método científico está longe de corresponder ao que acontece na prática científica.

Em primeiro lugar, porque não há um modo unívoco de organizar a experiência sensível, de organizar todas as observações coletadas.

E quando esses modos conflitam, os cientistas se vêm obrigados a tomar decisões que extrapolam o campo da lógica.

Isto é, como em qualquer atividade humana, valores intervêm a todo instante, e os cientistas são obrigados a escolher diferentes teorias, diferentes campos de pesquisa de acordo com os propósitos que lhes parecem, no momento, melhores.

* * *

NA VERDADE, o que tem ficado cada vez mais claro é que as teorias científicas, antes de serem verdades absolutamente objetivas e acima de qualquer suspeita, são teorias humanas que são aceitas na medida em que satisfazem, no momento devido, certos propósitos, certos critérios.

Em outras palavras, não podemos senão perceber que o estabelecimento dos propósitos, dos objetivos, valores portanto, antecedem qualquer possibilidade de acordo entre os indivíduos sobre o que quer que seja.

Assim, na base de toda discussão epistemológica, devem estar as perguntas:

  • Por que construímos hipóteses, por que construímos teorias sobre o mundo?
  • Por que sustentamos tal ou qual crença?
  • Por que, afinal, acreditamos no que acreditamos?

Somente definidos esses propósitos, esses objetivos, é que podemos saber se tal ou qual hipótese, tal ou qual teoria, tal ou qual crença é bem sucedida.

Quais são afinal os meus propósitos?

— é conseguir salvação?

— é conseguir prazer?

— é controlar o meio ambiente?

Ora, o que a ciência argumenta é que, de um modo geral, seus propósitos serão atingidos mais facilmente se você conseguir um bom guia para antecipar a experiência futura. Isto é, se você conseguir realizar predições bem sucedidas.

O que a ciência argumenta é que seu método para conseguir organizar a experiência sensível e conseguir usar essa experiência passada para antecipar a experiência futura é o melhor método de que dispomos.

Mas observe que concordar com isso é já concordar com uma série de pressupostos tácitos.

De fato, pensemos numa pessoa cujo objetivo maior seja obter a salvação. Suponha ainda que essa pessoa creia que toda a verdade esteja na bíblia e que a bíblia apenas contém o caminho para a salvação.

Esse indivíduo estará disposto a abdicar de todos os benefícios da ciência, renunciará a todas as crenças científicas tanto quanto elas entrem em conflito com a bíblia.

Acaso poderemos chamar esse indivíduo pronta e diretamente de irracional?

Isso é um pouco perigoso, no mínimo porque um aspecto da racionalidade é justamente saber adequar meios para obter determinados fins. No momento em que este indivíduo definiu como seu objetivo a salvação e a bíblia como meio privilegiado para obtê-la, não parece haver nada mais racional do que renunciar a tudo que a ciência diz que conflite com a bíblia.

Numa linha um pouco diferente, podemos pensar nas complexas relações psíquicas onde as ações de um indivíduo não parecem trazer senão infelicidade para ele, mas que se pode entrever que ali reside uma grande e inequívoca satisfação pulsional.

* * *

Mas tentemos GENERALIZAR um ponto importante.

Se pensarmos as teorias como um sistema de crenças, podemos pensar que todos nós mantemos as crenças que consideramos úteis (para nossos propósitos) e revisamos, descartamos, abandonamos as crenças que consideramos nocivas.

Nossas teorias, nossas crenças são, assim, espécies de guias para o futuro — crença subjacente de que o futuro será em grande medida como o passado

Isso valeria tanto para o cientista, quanto para o fanático religioso, quanto ainda para o, digamos, masoquista ou simplesmente neurótico.

Cada um manteria, sustentaria, defenderia seu sistema de crenças segundo essas crenças se mostrem capazes de satisfazer seus objetivos mais primordiais.

O que diferencia cada caso é justamente a definição do que conta como objetivo primordial.

ACREDITAMOS NO QUE É MELHOR ACREDITAR: MAS O QUE É ESSE “MELHOR”?

Percebamos um modelo comum.

Temos um patrimônio de crenças; isto é, um conjunto de generalizações que nos diz que, assim agindo, obteremos o que desejamos.

Se esse conjunto obtém, consistentemente, o que desejamos, mantemos.

Se ele falha, revisamos, modificamos, abandonamos.

Vejamos a ciência: leis —> predições. Corroboração ou refutação.

Se refutação e temos uma teoria alternativa melhor, abandono da teoria anterior. Caso contrário, tentamos fazer ajustes na teoria.

* * *

Claro que aqui, já podemos entrever, as especificidades da psicanálise já aparecem.

No caso da psicanálise, por exemplo, nós veremos que o “objetivo primordial” é sempre a satisfação pulsional.

Nós veremos que, desde a primeira experiência de satisfação originária, nós vamos criar uma espécie de modelo privilegiado de satisfação, uma espécie de estratégia de satisfação, se se quiser, que tenderemos a seguir no decorrer de nossas vidas.

Nós veremos, ainda, de outro lado, que ao contrário da ciência, esse conjunto de crenças que possuímos freqüentemente não é consistente entre si. Que vários “circuitos de satisfação” podem eventualmente conflitar entre si, mas que nem sempre disso tomamos consciência.

* * *

Entretanto, é interessante notar que tanto num caso como no outro,  a tendência é sempre inercial, isto é, a tendência é sempre proteger o sistema, manter o conjunto de crenças tão inalterado quanto possível.

Mas a proteção indefinida tem, claro, um preço a pagar.

Ou em outras palavras,

Quando confiamos profundamente numa teoria, numa crença ou conjunto de crenças, estratégia ou modelo de satisfação, tendemos a ignorar qualquer fato adverso a ela.

Realmente, só levamos em conta tal fato adverso, só somos tentados a modificar, REORGANIZAR o conjunto presente de crenças se enxergarmos que tal mudança nos trará mais benefícios do que prejuízos.

E isso, reiteramos, vale tanto para o cientista quanto para o sujeito, em análise ou não.

Toda teoria, toda crença é um instrumento de interação com o mundo, com a realidade, instrumento mediante o qual tentamos realizar nossos “propósitos”, “objetivos”, sejam eles a sobrevivência, o controle tecnológico da natureza, a satisfação pulsional.

A ciência se pretende mais “racional” (coloquemos “racional” entre aspas) nisso que ela tenta sempre tratar de modo explicito os ganhos e prejuízos de tal ou qual postura, de manter esta ou aquela formulação da teoria. A ciência tem méritos nisso, é inegável.

Mas, não é menos verdade que freqüentemente ela tenta mascarar a precariedade inexorável que cerca qualquer acordo, a inexorável contaminação de valores dos indivíduos que participam da comunidade.

E a psicanálise tem nisso um mérito não menos inegável, ao tentar justamente apontar para esse sujeito do inconsciente e acrescentar uma perspectiva enriquecida de como cada indivíduo consegue interagir com o mundo, construir sua própria realidade.

Porém, em cada caso, cada caso do seu modo; aceitamos uma crença, uma teoria porque ou quando ela funciona, isto é, porque ou quando ela nos satisfaz.

A construção da realidade num indivíduo dependerá, portanto, dos modos sutis como ele interage com esse mundo que lhe é estranho, exterior, do modo como ele, nesse mundo que lhe é estranho, exterior, ele consegue satisfazer seus propósitos, satisfazer seus objetivos.

No caso específico da psicanálise, repito, o propósito central será sempre vinculado à questão da satisfação pulsional e, assim, o modo como cada sujeito vai construir sua realidade, como cada sujeito vai formar seu conjunto específico de crenças, vai depender de como ele consegue satisfazer suas pulsões dentro de um mundo que não foi criado por ele.

Em outras palavras, a realidade de cada sujeito vai depender de como esse sujeito equilibra as exigências pulsionais, de um lado, e as exigências do mundo exterior, do outro.

* * *

É O QUE VAMOS TENTAR EXPLORAR UM POUCO AGORA.

A CONSTITUIÇÃO DA REALIDADE NO SUJEITO, SEGUNDO A PSICANÁLISE

Por uma questão didática, vamos tentar montar um quadro indicando, genericamente, alguns aspectos importantes da tese de uma “realidade constituída”.

Nós poderíamos aqui fazer a clássica oposição kantiana.

Coisa-em-si (inapreensível) –> formas da sensibilidade & categ. do entendimento –> coisa-para-nós (fenômeno)

Peguemos desse modelo a idéia, genérica, de uma “fonte de dados”, “modos particulares de apreensão, apropriação ou recorte desses dados” e o “resultado dessa apreensão”.

“Mundo exterior” (dados “brutos”) –> Modos (humanos) de apreensão –> Realidade construída

Sem nos perdermos com filigranas, pensemos no “mundo exterior” apenas como esse X desconhecido, essa fonte de dados sensíveis, esse algo que subsiste independentemente de nós mas sobre o qual nós queremos tanto falar.

“Modos de apreensão” diz respeito ao fato de esses chamados “dados brutos” precisam ser, de algum modo, apropriados, apreendidos por “categorias” humanas e que, portanto, qualquer discurso sobre a realidade tem de levar em conta esse fato.

Finalmente, falamos em uma “realidade construída” para salientar o fato de que isso que chamamos de realidade será inevitavelmente “contaminado” por essas categorias humanas.

Que categorias são essas?

A contaminação é, de fato, necessária.

De fato, qualquer teoria sobre a realidade depende de certas características específicas do ser humano.

Como dissemos, essas teorias dependem do nosso aparato biológico, perceptivo. Dependem de nossa capacidade lingüística, de exprimir esses fatos via linguagem. E dependem ainda, para já puxar o gancho para a psicanálise, de nosso aparelho psíquico.

“Mundo exterior” (dados “brutos”) –> Aparato perceptivo

Aparato lingüístico

Aparato Psíquico

–> Realidade construída

Já operando na dicotomia psicanalítica:

Realidade material –> Aparelho psíquico –> Realidade psíquica

O que temos de ver agora é como o aparelho psíquico humano recorta os dados brutos da dita “realidade material” para gerar o que chamamos a “realidade psíquica do sujeito”.

* * *

Mas voltemos ao modelo genérico. Explicitemos o que está em jogo.

Experiência passada –> teorias

Crenças

Estratégias de satisfação

–> antecipação de experiência futura

(predições)

[para obter o que queremos]

Em caso de sucesso, manutenção das teorias, crenças, estratégias.

Em caso de fracasso, revisão.

Primeira diferença entre ciência e psicanálise.

Na teoria científica, as premissas estão explícitas, o que torna o papel de revisão mais fácil.

Quando pensamos em nossas estratégias de satisfação, ao contrário, raramente temos noção de tudo que está em jogo. Os aspectos inconscientes de nossas crenças predominam, partes importantes de nossas estratégias tendo sido definidas em tenra idade. Isto é, nossas crenças que geram nossas ações não são explícitas e, pior, freqüentemente não são nem mesmo consistentes entre si.

Por que isso acontece?

Em outras palavras, como o sujeito humano constrói suas ditas “estratégias de satisfação”?

Não podemos, aqui, entrar em muitos detalhes, mas tomemos algumas premissas principais.

Em todas as fases de vida, o sujeito tem experiências bem sucedidas de satisfação. Ele registra esses modelos e tenta generalizar, isto é, extrair dessas experiências uma regra de conduta, uma espécie de estratégia. Em outras palavras, ele tenta, nas experiências seguintes, repetir essa experiência bem sucedida.

Pensemos no modelo acima. A partir da experiência passada, construímos uma teoria ou um modelo de conduta, esperando com isso poder antecipar a experiência futura para obter o que queremos.

O que temos de ver, no caso humano, é que a satisfação de nossas pulsões não pode acontecer sem respeitar certas restrições sociais, digamos assim.

Isto é, temos de encontrar uma espécie de “solução de compromisso” entre o que desejamos e o que nos permite a sociedade.

Ou ainda melhor: temos de considerar uma complexa relação de custo e beneficio de realizar esta ou aquela ação, de satisfazer este ou aquele desejo.

Se fazemos algo impulsivamente, contra certos ditames sociais, pagamos o preço desse “desrespeito”. Se respeitamos demais tais ditames, ficamos frustrados e também pagamos o preço, desta vez o preço de não satisfazer nossos desejos, de não satisfazer nossas pulsões.

O que a psicanálise revela é que essa avaliação, tão complexa quanto pode ser, é fundamentalmente inconsciente, daí a dificuldade de sermos “coerentes”, “racionais” em todos os nossos passos, atos, gestos.

O que a psicanálise revela é que a tentativa de construção objetiva da realidade por parte da ciência não pode perder de vista essa complexidade da construção subjetiva da realidade por parte do sujeito pulsional.

Chamando a atenção para o elemento irredutivelmente individual de cada sujeito, a psicanálise nos chama também a atenção para o risco e, mesmo ingenuidade, de tentar atingir uma teoria completa e totalmente objetiva da realidade.

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