RÉPLICA A ROGÉRIO SEVERO e seu “Realismo, Sububdeterminação e Indeterminação em Quine” (Sképsis, 10 pgs)


*OBS: Este artigo sofreu breves correções em 27/dez/2010.

_______________________________________________

BOOK SYMPOSIUM[Marcos Bulcão Nascimento: O Realismo Naturalista de Quine: Crença e Conhecimento sem Dogmas — Campinas: CLE-UNICAMP, 2008]

in: SKÉPSIS, n. 7 [pp. 176-186]

http://www.revista-skepsis.com/pdf/176_07.pdf

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Plínio Smith pela organização desse Book Symposium sobre meu livro — O realismo naturalista de Quine: crença e conhecimento sem dogmas —, fruto de minha tese de doutoramento. É ao mesmo tempo um prazer e uma honra. A Porchat, os agradecimentos de sempre pela generosa interlocução durante esse longo trabalho de pesquisa.

Gostaria ainda de agradecer pelos estimulantes artigos de Rogério Severo, Alexandre Machado e André Abath, a partir dos quais terei oportunidade de desenvolver ou enfatizar alguns dos pontos que defendi no meu livro. Espero poder corresponder à altura.

Sobre minhas réplicas, tentarei não sucumbir à (fácil) tentação de alongar-me demais nas mesmas, preferindo, antes, dar indicações em relação aos pontos de concordância ou divergência e como esses últimos poderiam ser dirimidos[1].

RÉPLICA A ROGÉRIO SEVERO E SEU “REALISMO, SUBDETERMINAÇÃO E INDETERMINAÇÃO EM QUINE”

Marcos Bulcão Nascimento // USP-Fapesp

mbulcao@gmail.com

(1).

Nessas minhas réplicas, não posso senão começar com um superlativo elogio ao artigo de Rogério Severo. A clareza de suas linhas e domínio do assunto são impecáveis.

Tenho mesmo de dizer que se a literatura corrente sobre a obra de Quine majoritariamente compartilhasse sua visão sobre o realismo quineano, minha tese não precisaria ter sido escrita. Ou pelo menos não no formato em que se encontra. Explico.

Como menciono no início do meu livro, meu primeiro interesse em Quine deveu-se ao fato de que ele me oferecia uma (dis)solução para o impasse entre realistas e anti-realistas científicos. Mas havia um paradoxo: sua tese da relatividade ontológica parecia colocá-lo entre os anti-realistas.

De fato, de acordo com o argumento quineano, teorias[2] com diferentes ontologias podem existir e ser igualmente bem garantidas pelo mesmo suporte evidencial. A citação é famosa: “não pode haver evidência para uma ontologia em relação a uma outra, pelo menos não enquanto pudermos expressar uma correlação um-a-um entre elas” (SN[3], 8). E nós sempre podemos expressar tal correlação, como Quine o provou através de suas funções de substituição (proxy functions). Seus críticos então vaticinaram: Quine teria de escolher entre relatividade ontológica ou realismo. Dada a “óbvia”incompatibilidade entre as duas teses, ele não poderia ter ambos.

Ora, no meu entender, não havia (não há) qualquer incompatibilidade entre as teses, tal interpretação só podendo sustentar-se em cima de uma equivocada e parcial leitura do sistema filosófico quineano. Deste modo, como Severo corretamente escreveu, “uma das motivações do livro é oferecer uma resposta a autores que julgam que as teses da indeterminação e da subdeterminação acarretam alguma forma de antirrealismo, e portanto uma incoerência interna na filosofia de Quine”.

A outra (e mais importante) motivação a isso subjacente é a defesa aberta desse tipo de realismo — naturalista — que advoga Quine. É o entendimento de que a perpetuação do debate entre realistas e anti-realistas científicos (e as viciadas noções filosóficas que o suportam) é nociva para a filosofia contemporânea, de que, com Quine ou a partir de Quine, podemos e devemos mudar o cenário da discussão epistemológica, deixando para trás

o último ou um dos últimos baluartes da “vontade de absoluto” em matérias epistemológicas. Sim, porque se é verdade que as reflexões epistemológicas contemporâneas nos fizeram aceitar que nossas melhores teorias científicas são falíveis, a doutrina do realismo científico como que reintroduz — pela porta dos fundos — a noção de conhecimento absoluto ao tácita ou explicitamente postular uma teoria ultimamente verdadeira, verdade da qual nos aproximaríamos com nossas teorias científicas atuais, crescentemente poderosas. Ora, é essa reintrodução do absoluto — ilegítima a nosso ver porque apela para uma noção transcendente de verdade — que precisamente norteia o debate entre realismo e anti-realismo científicos (BULCÃO, 2007, p. 153).

O que pretendo no meu livro, portanto, é defender a importância do realismo (do tipo) quineano, a importância de um processo de “ressignificação” das noções filosóficas de realismo, crença e assunção de objetos (entre outras), e com isso mostrar que elas podem, coerente e proveitosamente — assim como ocorreu com a noção de conhecimento — despregar-se de noções transcendentais de justificação. Ao empirismo sem dogmas, deve juntar-se um realismo sem dogmas.

Para meu espanto, porém, ao realismo de Quine nunca foi dado o devido valor, o devido peso. Pior do que isso: com freqüência lhe foi negado até mesmo o estatuto de coerência. De onde amotivação para construir a tese em torno do aparente paradoxo, a saber, da alegada incompatibilidade entre as teses da relatividade ontológica e da subdeterminação, de um lado, e o realismo, de outro.

Ora, tivessem os demais leitores de Quine a mesma compreensão que Severo, a aparente incompatibilidade entre relatividade ontológica e realismo seria rapidamente resolvida e minha defesa do realismo quineano — se ainda necessária — teria certamente seguido outra estratégia.

* * *

Entretanto, não é apenas no campo ‘retórico’ que está a importância das noções de subdeterminação e relatividade ontológica.

Com efeito, elas são fundamentais também conceitualmente no sentido de que sua discussão e entendimento apropriados são cruciais para uma correta compreensão do que está em jogo no realismo quineano e, por extensão, cruciais para a formação de uma visão filosófica de mundo mais abrangente e profícua.

Naturalmente, não estamos tomando aqui a noção de ‘fundamental’ num sentido lógico, axiomático, em que fundamental é aquela tese da qual outras dependem (e que, por sua vez, não depende de nenhuma outra). Realmente, se entendermos a noção de ‘fundamental’ nesse sentido mais estrito, como Severo parece fazê-lo, não há como discordar dele, isto é, que fundamentais mesmo são as teses do holismo e do naturalismo.

Mas, se tomarmos a noção de ‘fundamental’ num sentido filosófico mais amplo, como defendido mais acima, creio inteiramente justificado seu papel de destaque na nossa exposição. De fato — e comprovamo-lo na própria acusação de incoerência que sofre Quine —, da incompreensão ou nebulosidade que cerca essas teses segue-se toda uma sorte de mal-entendidos que impede, ou em todo caso atrapalha, que se possa vislumbrar todo o alcance d(e um)a proposta filosófica (como a) quineana. Desfazer essas ambigüidades ou mal-entendidos, portanto, parece fundamental para uma melhor compreensão de sua filosofia.

De outro lado, Severo chama a atenção para o fato de que, embora Quine tenha diversas vezes rejeitado essa acusação de incoerência (em relação à incompatibilidade entre realismo e relatividade ontológica), ele “jamais discutiu extensamente o tema, [não havendo] nenhum livro ou artigo de Quine cujo tema principal seja o realismo”.

Isso, contudo, não deve retirar do realismo a importância que o mesmo tinha aos olhos de Quine. Ao contrário. Na verdade, isso apenas corrobora a suspeita de Severo de que “uma vez aceito [o naturalismo], o realismo segue-se quase imediatamente”, e assim possivelmente não viu Quine necessidade de qualquer defesa especial para ele (seu realismo). Muito coerentemente, portanto, Quine dedica seus maiores esforços à defesa do naturalismo (e do holismo). E eu teria tomado o mesmo partido: definitivamente, não fossem os tantos mal-entendidos que cercam tais noções (e equivocadas conclusões filosóficas que daí se seguiram), meus esforços se teriam certamente concentrado em outros pontos.

Por tudo isso, enfatizo ainda uma vez a satisfação com que li a primeira seção do artigo de Severo, sendo notável, sobretudo aí, sua capacidade de síntese e a clareza de seu pensamento.

Ali, ele declara sua concordância com a “tese central de meu livro” e desmerece a acusação de incoerência interna à filosofia de Quine. Em suas precisas palavras:

A acusação de que haveria uma “tensão” ou mesmo uma incompatibilidade entre as teses da indeterminação e da subdeterminação, de um lado, e o realismo quineano, de outro, é a meu ver fruto de uma leitura parcial e incompleta da obra de Quine. Ela supõe uma noção de realidade que não é a de Quine.

Eu não posso senão assinar embaixo de tais linhas.

* * *

(2).

Discordâncias aparentemente mais profundas parecem advir na segunda seção de seu artigo. Aí, Severo é mais incisivo e, ao retomar o contraste entre (a importância d)as teses do holismo e da subdeterminação, ele diz:

O que importa salientar é que há em Quine uma formulação mais ou menos simples e direta do holismo, e uma justificação que Quine considera trivial e óbvia (1992, p. 16). Com relação à subdeterminação, a situação é bem diferente: não é sequer evidente como formulá-la, e o próprio Quine reformulou-a em ao menos três ocasiões. (…) Em nenhum caso, é óbvio quais são as suas conseqüências filosóficas. O próprio Quine vacilou a respeito de que conseqüências extrair, e sua sugestão final é que isso não tem muita importância (nossos grifos).

Mais à frente ele acrescenta:

O tom dos textos de Quine sobre subdeterminação é sempre exploratório e investigativo, e isso indica que ele estava em busca de uma compreensão adequada da tese.

E então arremata:

Como poderia uma tese com essas características desempenhar um papel importante?

A resposta a essa pergunta tem dois lados bem distintos.

Se nós compreendemos bem Quine, a resposta talvez até fosse muito simplesmente, como sugere Severo: “não poderia”.

Mas, se colocamos as formulações e reformulações de Quine — aí incluído seu tom tentativo — em perspectiva, isto é, alinhadas no contexto histórico da discussão sobre subdeterminação, podemos entrever toda a sua importância filosófica.

Sim, porque a tese da subdeterminação (também conhecida como tese da indistinguibilidade evidencial) foi usada para embasar e tirar todo tipo de conseqüências filosóficas, inclusive a impossibilidade de uma posição realista.

Boyd, por exemplo, assim descreveu esse argumento empirista anti-realista.

“Suponha que T é uma teoria proposta de um fenômeno inobservável que pode ser submetida a teste experimental. Uma teoria é dita empiricamente equivalente a T no caso em que faz as mesmas predições sobre eventos observáveis que T faz. Agora, é possível, dada T, construir arbitrariamente muitas teorias alternativas que são empiricamente equivalentes a T, mas que oferecem explicações (accounts) contraditórias da natureza dos fenômenos inobserváveis. Desde que a evidência científica favorável a ou contra uma teoria consiste na confirmação ou infirmação de uma de suas predições observacionais, T e cada uma das teorias empiricamente equivalentes a ela serão igualmente bem confirmadas ou infirmadas por qualquer evidência observacional possível. Portanto, nenhuma evidência científica pode ter ligação com a questão de qual dessas teorias provê a explicação correta de fenômenos observáveis; no máximo, poderia ser possível confirmar ou não a alegação de que cada uma dessas teorias é um instrumento confiável para a predição de fenômenos observáveis. Sendo essa interpretação possível para qualquer teoria T, segue-se que a evidência científica não pode nunca decidir a questão entre teorias de fenômenos inobserváveis e, por conseguinte, o conhecimento de fenômenos inobserváveis é impossível” (BOYD, 1984, p. 44, nossos grifos).

Se trouxermos agora a tese da relatividade ontológica[4] para o contexto, veremos por que ela ameaça ainda mais — à primeira vista — a posição realista, quineana ou outra.

De fato, Quine mostra que podemos ter duas teorias que, embora possuam (pelo menos nominalmente) ontologias diferentes, contam com o mesmo suporte empírico. Em outras palavras, Quine mostra que a relação entre a teoria e seu suporte empírico depende antes da estrutura lógica da mesma do que de sua ontologia assumida, o ponto tendo sido demonstrado através do que Quine chamou de proxy functions (funções de substituição). Ora, nesse caso, seguir-se-ia mais uma vez que a evidência científica não pode nunca decidir a questão acerca de que objetos assumir.

A conclusão que se parece impor é: Quine não pode ser realista, correto? Não. E é aí que Severo tem mais razão do que nunca. Mas para que Severo possa ter razão — e ele tem —, é preciso compreender bem Quine.

É preciso compreender que as formulações e reformulações de Quine a respeito da subdeterminação vão eliminar ou dissolver a maior parte do que antes se aceitava como (bons) exemplos de subdeterminação. A pergunta que vai nortear essas reflexões é: se duas teorias dão conta da mesma totalidade de observações possíveis, em que sentido elas são duas?

Teorias podem diferir totalmente em seus objetos (…) e ainda assim ser empiricamente equivalentes, como mostram as funções de substituição. Nós dificilmente parecemos garantidos em chamá-las duas teorias; elas são dois modos de expressar uma e a mesma teoria. É interessante, então, que uma teoria pode assim variar sua ontologia (PT, 96; nossos grifos).

Ao tentar dar conta dessa questão, Quine vai terminar por conceber a tese de subdeterminação em termos de traduzibilidade, só aceitando caracterizar como verdadeiros casos de subdeterminação aquelas duas (formulações de) teorias que não apenas são empiricamente equivalentes, mas não são inter-traduzíveis. Teorias inter-traduzíveis são, daí em diante, mais proveitosamente consideradas como diferentes formulações da mesma teoria, seu conflito sendo meramente terminológico e desinteressante[5]. Pelo menos aos olhos de Quine. E meus. E, creio, de Severo.

Ora, Severo tem então absoluta razão ao negar validade à inferência que passa da indeterminação da referência para a subdeterminação. Após tal caracterização [da subdeterminação em termos de traduzibilidade], com efeito, os casos clássicos de indeterminação da referência ou relatividade ontológica, exemplarmente ilustrados pelas funções de substituição, vão qualificar apenas como casos (triviais) de formulações de teoria inter-traduzíveis.

Em outras palavras, se encontramos um modo de reinterpretar os predicados de uma (formulação de) teoria de modo a — após esse processo de tradução — fazer coincidir com a outra formulação (como acontece em todos os casos em que se podem aplicar as funções de substituição), não temos um verdadeiro caso de subdeterminação e, portanto, de verdadeira rivalidade entre diferentes teorias. Ou seja, uma vez que conseguimos fazer as duas formulações coincidirem via reinterpretação de termos, nós desqualificamos tais exemplos como casos genuínos de rivalidade ou diferença entre teorias e os consideramos, antes, como casos de indeterminação da tradução (EESW, 322)[6].

* * *

No meu livro, por conseguinte, a alegada passagem da relatividade ontológica para a subdeterminação pretendia desempenhar apenas uma função retórica.

A estratégia, nesse caso, é a seguinte.

Partindo da concepção então vigente (não-quineana) de subdeterminação — em que diferenças ‘nominais’ de ontologia contam como diferenças reais —, um paradoxo parecia ser gerado, já que a tese da relatividade ontológica/indeterminação da referência parecia implicar casos genuínos de rivalidade de teorias (e de ontologias) e, conseqüentemente, reforçar a tese anti-realista.

Cabia na seqüência, portanto, mostrar como resolver (ou melhor, dissolver) esse paradoxo, mostrar como e por que a posição realista quineana não era de modo algum ameaçada por isso.

Deste modo, ao longo do livro, particularmente no capítulo quarto, pretendi mostrar as elaborações, as mudanças conceituais que a concepção de subdeterminação sofreu. Tentei sobretudo mostrar que, ao caracterizá-la em termos de traduzibilidade, Quine acabou por eliminar qualquer possível impacto que poderia ter a tese da relatividade ontológica no seu realismo.

* * *

Temos, assim, o “outro lado” da questão acima proposta: como uma tese tão ‘precária’ pode desempenhar um papel tão importante?

Ora, as reflexões quineanas sobre subdeterminação provam-se valiosas precisamente na medida em que elas circunstanciam e circunscrevem (e eventualmente minimizam) o seu real alcance. Provam-se valiosas, assim, no contexto e contraste com as concepções então vigentes de subdeterminação.

Caracterizada agora como traduzibilidade, os verdadeiros casos de subdeterminação acabam sendo confinados ao território dos experimentos de pensamento, território “para além [do ponto] onde as práticas lingüísticas foram cristalizadas pelo uso” (PT, 100-1).

Caracterizada agora como traduzibilidade, de outro lado, os antigos casos de (aparente) subdeterminação podem agora ser vistos trivialmente como casos de formulações diferentes de uma mesma teoria, produzindo assim mais um grande desafio às concepções filosóficas proponentes de uma interpretação absolutamente literal dos conceitos utilizados (e objetos assumidos) pelas teorias científicas.

Aqui, como em outros momentos da filosofia quineana, o efeito filosófico importante é um de “desmistificação”. Ao revelar seu caráter precário, Quine impede usos inadequados ou conseqüências indevidas da tão célebre tese da subdeterminação.

Mas aqui, como em outros pontos, o efeito filosófico não é só “negativo”. Ao contrário, o instrumental necessário mobilizado para essa caracterização da subdeterminação como traduzibilidade é filosoficamente riquíssimo, de conseqüências tão simples quanto importantes.

Uma conseqüência imediata é perceber que há várias maneiras, vários discursos igualmente defensáveis capazes de descrever o mundo, o universo. Mas que, apesar disso, precisamos recorrer a um deles, e que é nesse discurso, em suas palavras, que vamos descrever a realidade.

Ora, mas concordar com isso não equivaleria a dizer que, para Quine, o discurso, as palavras e conceitos que utilizamos, teriam um papel meramente instrumental e que, portanto, as acusações de anti-realismo entrariam pela porta do fundo?

Aqui devemos lembrar do debate anterior. Se tomarmos como base o cenário em que se movem realistas e anti-realistas científicos, por exemplo, a resposta seria certamente sim. Entretanto, não podemos esquecer que, para Quine, não há filosofia primeira, não há verdade transcendental, como não há, tampouco, a possibilidade de uma realidade não conceitualizada.

Deste modo, se é verdade que a decisão quanto a que discurso utilizar — entre dois discursos empiricamente equivalentes e intertraduzíveis, naturalmente — traz algo de arbitrário (no sentido de empiricamente indeterminado), ainda assim temos de escolher um discurso e será nos seus termos, nos termos dessa teoria, imanentemente portanto, que a realidade será descrita. Não pode ser diferente e não precisamos pedir melhor.

A conseqüência que talvez tenhamos de tirar é não que Quine não possa ser um realista — ele o é — mas que, para Quine, o discurso, as palavras e conceitos utilizados não têm nenhum vínculo essencial com a natureza descrita. Usamos o discurso para falar da realidade, sim, mas o mesmo não é, em nenhum sentido — para tomar de empréstimo uma expressão de Rorty — um ‘espelho da natureza’ (BULCÃO, 2007, p. 149-150).

* * *

Dito tudo isso, confesso um pesar. Se um leitor como Severo percebeu daquela maneira certos dos pontos discutidos acima, eu falhei antes dele como escritor e por isso peço desculpas. Espero que a discussão acima possa dirimir algumas das dúvidas ou mal-entendidos e que ainda possa gerar mais dividendos tão proveitosos quanto esses o foram.

* * *

(3).

Uma última observação, sobre o estilo do texto.

Surpreendeu-me, confesso, ler de Severo que seria “uma característica muito comum na produção filosófica brasileira” uma apresentação direta dos argumentos do autor estudado, prescindindo, ou quase, do debate e confrontação com os comentadores.

Surpreendeu-me porque, ao menos na USP, a praxe é exatamente a oposta, a saber, apresentar um texto em que a polemização com os comentadores freqüentemente constitui o eixo central do trabalho, amiúde ofuscando os próprios argumentos e reflexões pessoais desenvolvidos.

Digo isso porque a decisão de não polemizar com comentadores foi refletida e deliberada, após longos debates sobre os custos e benefícios de (não) fazê-lo. Entretanto, o que havia pra ser ganho não parece superar, no meu entendimento, os prejuízos. Todo texto precisa de recortes em todo caso, e a meu ver o resultado final de meu trabalho ganhou — ou assim quero crer —enormemente em termos de fluidez e concisão.

Além disso, e não posso deixar de citar isso como uma importante razão, o fato é que encontrei muitos poucos comentadores de Quine merecedores de um debate mais aprofundado.

Como sintetizou Porchat,

(…) Pouco afeitos ao rigor da análise estrutural dos sistemas filosóficos, os filósofos analíticos freqüentemente se permitem criticar pontualmente uma doutrina sistemática, julgando — indevidamente, aos olhos de Bulcão Nascimento e aos meus — cabível a proposição filosófica e polêmica de pontos de vista pontuais sobre este ou aquele tema, separada e independentemente da formulação de uma visão filosófica mais geral que englobe esses posicionamentos parciais e lhes forneça a devida sustentação doutrinária.

Em suas réplicas a alguns deles, o próprio Quine com freqüência manifestou algum mau humor e desembaraçou-se deles e rejeitou-os muito rapidamente. Nosso autor, de algum modo, comungou desse mau humor e se mostrou avesso a essas discussões pontuais, que privilegiam pontos singulares da doutrina e, por vezes, parecem dissimular mal uma certa ignorância da totalidade. Assim fazendo, passou por cima das praxes da Academia. Hoje penso que fez muito bem (PORCHAT, prefácio).

Mas, por trás disso há uma razão mais ampla, e não menos filosófica.

O fato é que meu livro nunca pretendeu ser um trabalho historiográfico sobre a obra de Quine, pelo menos não no ‘sentido clássico’, isto é, de (apenas) reconstruir, ad mentem auctoris, sua obra e pensamentos. Antes, se tomei Quine como o autor escolhido para esse trabalho, é porque constatei uma ‘afinidade profunda’ entre suas idéias filosóficas e as minhas, particularmente sua visão naturalista do conhecimento — e o realismo que daí decorre. Porque defendo a importância de sua contribuição filosófica, acredito que uma compreensão mais profunda de suas idéias se faz necessária.

Note, então, que o propósito de meu livro é menos uma compreensão da obra de Quine enquanto obra de Quine, do que uma compreensão das idéias aí veiculadas e o impacto para nossa visão de mundo que daí pode decorrer. O estudo da obra de Quine é, assim, um pretexto para expor e defender idéias que acredito valiosas.

O ponto em questão é sutil, mas crucial, então correrei o risco de ser redundante.

Meu livro não é um estudo de história, é um estudo de idéias. Como explicitei mais acima, não é o debate sobre Quine que me interessa. De fato, para os meus estritos propósitos filosóficos, todas as referências a Quine poderiam desaparecer, desde que as idéias e suas respectivas conseqüências veiculadas em seu texto pudessem encontrar legitimidade e adequada defesa.

Se, então, procedi como procedi — deixando em segundo plano o debate meramente polêmico com comentadores e suas (freqüentemente equivocadas) interpretações alternativas — foi porque quis que meu texto se constituísse, desde o começo, como um posicionamento filosófico em torno das idéias expostas e defendidas.

No limite, nós poderíamos mesmo dizer que meu livro é apenas aparentemente sobre Quine. De fato, (estudar) Quine não é senão um meio para um fim: um privilegiado meio de mostrar que podemos — coerente e relevantemente — adotar uma postura naturalista, holista, realista em filosofia. E essa é uma herança que nossa geração bem poderia passar às seguintes.

Naturalmente, não precisamos ser quineanos para sermos naturalistas, holistas, realistas. Mas o estudo e a compreensão da obra quineana bem pode ser um bom ponto de partida. E se meu livro conseguiu oferecer alguma contribuição nesse sentido, nada posso pedir de melhor.

_________________________

Referências bibliográficas

BOYD, R, (1984), “The Current Status of Scientific Realism”, In: J. LEPLIN (ed.), Scientific Realism. Berkeley, Los Angeles, London, University of California Press, p. 41-52.

BULCÃO NASCIMENTO, M. (2007). “Relatividade ontológica e Subdeterminação; Naturalismo e Pirronismo”, In: DoisPontos (UFPR), v. 4, p. 133-158.

____. (2008). O Realismo Naturalista de Quine: Crença e Conhecimento sem Dogmas, Campinas: CLE-Unicamp.

____. (2009). “A Filosofia de Quine”. In: Rossano Pecoraro. (Org.). Os Filósofos (Clássicos da Filosofia), VOL. III. De Ortega y Gasset a Vattimo. Rio de Janeiro: PUC-Rio, Vozes.

QUINE, W, v. (1969). Ontological Relativity and Other Essays, Columbia U. P., New York.

____. (1975). “On Empirically Equivalent Systems of the World”, in: Erkenntnis 9, p. 313-328.

____. (1987). The Philosophy of W. V. Quine (replies),(eds.: Schilpp, P.A.; Hahn, L.E), La Salle, Illinois, Open Court.

____. (1990). Pursuit of Truth, Cambridge: Harvard.

____.  (1992). “Structure and Nature”, in: The Journal of Philosophy, vol. 89, n. 1, p. 5-9.

____. (1994). Theories and Things, Harvard University Press.

VAN FRAASSEN, B. The scientific image. Oxford: Clarendon Press, 1980.


[1] Um especial agradecimento a Moysés Floriano Machado-Filho, pela revisão e valiosas sugestões às réplicas que seguem.

[2] Ver adiante, contudo, discussão sobre o que conta como “diferentes teorias”.

[3] Para as citações da obra de Quine, as seguintes abreviações serão utilizadas: Theories and Things (TT); The Philosophy of W. V. Quine (replies) (PQ); Pursuit of Truth (PT); “Structure and Nature” (SN); “On Empirically Equivalent Systems of the World” (EESW). Para dados completos das obras em questão, cf. “Referências Bibliográficas”.

[4] Ou indeterminação da referência. Se, num primeiro momento, Quine parece colocar a doutrina da relatividade ontológica como uma conseqüência direta da indeterminação da referência, ele depois acaba por identificar as duas. Cf. Philosophy of Quine, reply to Roth, pp. 459-460.

[5] “Esforço e papel têm sido desperdiçados, eu entre outros, sobre o que conta como mesmidade de teoria e o que contar como mera equivalência. É uma questão de palavras; podemos parar de falar de teorias e falar apenas de formulações de teorias. Escreverei ainda simplesmente ‘teoria’, mas se entenderá como ‘formulação de teoria’” (PT, 96).

Ou ainda: “Quando querque nós achemos termos, estranhos aos categóricos observacionais, que possam ser assim reinterpretados ao longo de uma das formulações de teoria de modo a reconciliá-la com a outra formulação de teoria, e não perturbar o conteúdo empírico, nós vemos o conflito como sendo superficial e não interessante” (TT, 29).

[6] Um outro modo de generalizar o ponto é “demarcar fato e convenção em termos assim de tradução. Pode-se dizer que dois textos concordam factualmente e diferem apenas convencionalmente se nós podemos ver como pô-los em equivalência lógica ao construir um manual de tradução que toca apenas nas sentenças teóricas e deixa as sentenças de observação imperturbadas” (cf. PQ, 518: Quine, The Philosophy of W. v. Quine, “Reply to J. J. C. Smart’s “Quine on space-time” — “Quine on space-time”, p. 518).

One response to “RÉPLICA A ROGÉRIO SEVERO e seu “Realismo, Sububdeterminação e Indeterminação em Quine” (Sképsis, 10 pgs)

  1. Pingback: Realismo, subdeterminação e indeterminação em Quine (Rogério Severo) « Penso, logo hesito·

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s