RÉPLICA A ALEXANDRE MACHADO (Sképsis, 5 pgs)


BOOK SYMPOSIUM [Bulcão, Marcos (2008) O Realismo Naturalista de Quine, Campinas: CLE].

in: SKÉPSIS, 7 [pp. 187-192]

http://www.revista-skepsis.com/pdf/176_07.pdf

RÉPLICA A ALEXANDRE MACHADO

Marcos Bulcão Nascimento

USP/Fapesp

mbulcao@gmail.com

Alexandre Machado desenvolve uma interessante reflexão sobre o que aconteceria se um lingüista se visse em face de uma comunidade recém-descoberta, cuja linguagem não guardasse realmente nenhuma similaridade significativa com a sua própria. Sua conclusão: a tradução de tal linguagem seria simplesmente impossível ou, antes: não é verdade que possa haver tal linguagem.

“Não é verdade porque não pode ser verdade”. E não pode ser verdade, argumenta ele, porque deve haver um ‘mínimo comum’ entre as duas linguagens, um mínimo comum que se revela, por exemplo, nos padrões comportamentais por trás do uso das funções de assentimento e dissentimento. De fato, a “possibilidade da tradução depende da possibilidade de se identificar ao menos o comportamento que expressa assentimento e dissentimento. Mas a identificação desse comportamento depende de que haja uma semelhança funcional entre o nosso comportamento expressivo e o comportamento expressivo dos falantes da linguagem desconhecida”. Esses padrões comportamentais são mesmo o que há de mais básico no comportamento comum da humanidade, que é, em última instância — como bem observou Wittgenstein —, “o sistema de referência por meio do qual interpretamos uma linguagem desconhecida” (Investigações Filosóficas, §206).

Ora, Machado está absolutamente correto em seu raciocínio, e em nenhum dos pontos acima haveria Quine por que dele discordar.

Mas, pergunta ele:

Se esse modo de ver as coisas está correto, por que Quine e, portanto, Bulcão afirmam que a linguagem desconhecida presente no cenário da tradução radical não tem nenhuma similaridade significativa com a linguagem do tradutor? (nossos itálicos)

(1).

Felizmente, estamos aqui diante de um caso inteiramente benigno de mal-entendido interpretativo e que pode, assim, encontrar pronta (dis)solução.

Sim, porque todo o ponto problemático em questão gira em torno de uma interpretação algo extremada da expressão “nenhuma similaridade significativa”.

Com efeito, se pensássemos numa linguagem que não guardasse nenhuma, absolutamente nenhuma similaridade significativa com a nossa, por definição nenhum trabalho de tradução poderia ter sucesso e teríamos mesmo de nos perguntar em que sentido ela seria uma linguagem.

Mas precisamos — devemos ou mesmo podemos — assim interpretar tal expressão?

Quer parecer-nos que não.

Trata-se antes de um mal-entendido, não querendo esta expressão mais do que chamar a atenção para o fato de nesta hipotética linguagem não podermos reconhecer, por exemplo, estruturas gramaticais ou (raízes de) palavras semelhantes às encontradas em nossa própria linguagem que sejam capazes de alavancar nosso trabalho inicial de tradução (o que aconteceria se tal linguagem recém-descoberta tivesse, digamos, uma origem latina ou indo-européia).

Com essa expressão, com efeito, pretende-se apenas descrever uma situação como a de um lingüista, digamos, europeu que tenta, após primeiros e inesperados encontros, traduzir a língua dos aborígenes da Austrália ou até mesmo dos indígenas americanos. A expressão e seu caráter ‘superlativo’ encontram sentido e justificação, assim, no contraste com o que seria o trabalho desse mesmo lingüista de traduzir uma recém-descoberta linguagem, mas agora de origem latina ou indo-européia. Nesse caso, então, como é comum em filosofia — e, aliás, na vida cotidiana em geral — o contexto desempenha um papel fundamental na interpretação diferencial das expressões que usamos.

À primeira vista, pode parecer surpreendente que Machado tenha optado por interpretação tão extremada quando, justamente na seqüência desta seção sobre tradução radical (bem como no capítulo sobre aprendizado da linguagem na criança), estão elencados exemplos e raciocínios de teor muito semelhante aos que ele traz em seu artigo. A ele, entretanto, o mérito de enfatizar o que poderia passar despercebido e permitir que esse tópico tão importante (embora menos conhecido) ganhe mais atenção e discussão.

Senão vejamos.

(2).

Tomemos as seguintes passagens para ilustração inicial (itálicos acrescidos):

— O lingüista observa o nativo proferir ‘gavagai’ a cada vez que se observa um coelho no campo visual de ambos. O lingüista tenta então uma correlação hipotética entre ‘gavagai’ e ‘coelho’, sujeita a ser testada em casos subseqüentes (BULCÃO, 2008, p. 50).

— A lei geral pela qual ele está reunindo instâncias é aproximadamente a seguinte: “o nativo assentirá a ‘Gavagai?’ sob apenas aquelas estimulações sob as quais nós, se perguntados, assentiríamos a ‘Coelho?’; e correspondentemente para dissentimento” (BULCÃO, 2008, p. 52).

— No caso do lingüista, vimos que ele podia recorrer a uma espécie de critério mais ou menos óbvio: “um falante [qualquer] vai assentir a uma sentença, se perguntada, em circunstâncias suficientemente similares àquelas em que ele profere a sentença” (BULCÃO, 2008, p. 98).

Aqui, como em outros lugares, não podemos senão comprovar que, desde o ponto de partida, a concepção do experimento de pensamento da tradução radical pressupõe a existência de padrões comportamentais comuns ao lingüista e ao nativo. Afinal, de que outro modo o lingüista poderia sequer começar a fazer equivalências entre as proferições dos nativos e as suas próprias?

Na verdade, a empresa de tradução radical pode ser pensada, concebida como realizável precisamente porque nós, humanos, trazemos pressupostos — que Machado percebe a importância de tornar explícitos em seu trabalho — de que somos semelhantes o bastante.

Machado fala assim em um ‘mínimo comum’ relacionado às funções de assentimento e dissentimento, mas, como ele bem observou, esse “mínimo comum” vai muito além e compreende praticamente todos os aspectos daquilo que chamamos ‘humano’.

E, em concordância com isso, Quine fundamenta toda sua argumentação em cima dessa ‘humanidade’ — biológica, perceptiva, psicológica, lingüística e até mesmo lógica — que nos é comum.

Certos de seus conceitos centrais — estimulação não-verbal, significados-de-estímulo e, principalmente, similaridade perceptiva, espécies naturais, reforço seletivo, entre outros — mais do que ilustram o ponto e estendem sua aplicação para além do experimento de tradução radical. Como Machado bem ressalta, trata-se de um ponto que pode ser proveitosamente visto em conexão com a aquisição de uma linguagem.

Ele diz:

A aquisição da linguagem se dá por meio da exposição da criança ao comportamento do adulto que constitui a lição sobre como usar as expressões lingüísticas ensinadas. Parte dessa lição consiste em estimular ou desestimular as reações que a criança tem ao comportamento do adulto. Mas esses estímulos e desestímulos somente serão eficazes se a criança reagir a eles de forma apropriada. A criança deve continuar o padrão estimulado e evitar o padrão desestimulado. Mas essa reação, por sua vez – e esse constitui um ponto muito importante -, não pode ser ensinada. (…) Esses exemplos mostram que somente se houver um comportamento comum e reações comportamentais comuns àquele que ensina e àquele que adquire a linguagem é que pode haver aquisição da linguagem. As ações e reações comuns presentes no nível mais básico da linguagem são desenvolvimentos de comportamentos naturais pré-lingüísticos.

Aqui, mais uma vez, constata-se a proximidade entre os pontos de vista. De fato, conteúdo praticamente idêntico a esse é encontrado no nosso segundo capítulo, na seção — oportunamente intitulada — “As pré-condições do aprendizado”.

Ali, por exemplo, lemos (itálicos acrescidos):

(…) O que foi visto acima é que os seres humanos, de um modo geral, tendem a perceber similarmente uma série de episódios sensoriais e, por causa desse fato (…) o aprendizado da linguagem (bem como outros tipos de aprendizado) tornou-se possível. Com efeito, havendo essa similaridade perceptiva entre os conjuntos de estímulos, podemos realizar as generalizações ou induções necessárias para o processo de comunicação (BULCÃO, 2008, p. 103).

E ainda:

Deste modo, o que é pressuposto para o bom andamento do aprendizado da linguagem são não apenas as capacidades individuais da criança senão também tais capacidades agindo em estreita harmonia com as capacidades dos outros falantes. O que está pressuposto é que haja uma certa uniformidade relativa das capacidades perceptivas ou propensões inatas dos indivíduos em questão (BULCÃO, 2008, p. 102)[1].

Diante de tanta concordância, assim, constatamos que efetivamente se trata de um caso inteiramente benigno de mal-entendido interpretativo, após cuja dissolução quineanos e wittgensteinianos podem — pelo menos acerca dos tópicos em questão — voltar a andar de mãos dadas.

(3).

Uma nota final.

Machado entendeu haver alguma vagueza no tratamento que Quine dá ao processo de reconhecimento, por parte do lingüista, dos sinais se assentimento e dissentimento dos nativos. Ele escreve:

Dizer que a hipótese é “testada no encadeamento sucessivo das conversações” não é dizer muito, se não dissermos o que pode confirmar essa hipótese e o que pode refutá-la. Portanto, não é dizer muito sobre como podemos descobrir quais são as expressões de assentimento e dissentimento dos nativos. Isso poderia ficar mais claro se Bulcão fornecesse exemplos que descrevessem, não apenas a conexão do uso de ‘Evek’ e ‘Yok’ com os usos de outras expressões, mas também o comportamento não-verbal que acompanha o uso dessas expressões.

Bem, em primeiro lugar, é preciso dizer que, para os propósitos quineanos, não é necessário fornecer um guia absolutamente detalhado dos passos que envolvem o processo de uma tradução radical, conforme procuramos deixar claro. No contexto, descrições mais gerais são perfeitamente cabíveis e apropriadas. E é o que Quine faz.

Com efeito, ali ele diz que o que confirmará ou refutará as conjecturas do lingüista (por exemplo, acerca do que conta como sinais de assentimento e dissentimento) será o sucesso da comunicação. “Reações de espanto ou confusão da parte do nativo, ou respostas aparentemente irrelevantes, tendem a sugerir que o manual [de tradução] está errado” (PT, 47).

Para os propósitos de Quine, isso é suficiente. E é suficiente porque em nenhum momento Quine coloca como impossível ou mesmo difícil a tarefa do lingüista de descobrir os sinais de assentimento e dissentimento. Seu tratamento ‘rápido’ pode incidentalmente indicar que Quine considera tal tarefa como trivialmente alcançável, posto que constitui a base para o resto do trabalho.

O que é importante, então, é salientar que essa descoberta — trivial ou não — é parte integrante do processo conjectural do lingüista e que não há um procedimento algorítmico para chegar a eles. Os exemplos de Machado são excelentes e constituem bom método científico e poderiam mesmo ser saudados como um modo exemplar de atingir o fim em questão, mas isso excede o que Quine pretende mostrar.

Talvez Machado tenha sentido algum desconforto com o uso das expressões ‘adivinhação’, ‘conjectura’, ‘hipótese’ ou ‘reconhecimento tentativo’ num ponto onde, para ele, não deveria haver lugar para dúvidas[2].

Mas observemos que usar tais expressões não exclui que cheguemos a excelentes hipóteses ou conjecturas, hipóteses tão boas que não vejamos como pensá-las equivocadas. Realmente, mesmo no mais bem sucedido manual de tradução, ainda assim poderíamos usar a expressão ‘conjecturas’ para descrever o trabalho do lingüista. Conjecturas bem testadas e à exaustão corroboradas, mas conjecturas. Mesmo se, no uso cotidiano, passamos a tratar tais conjecturas extremamente bem sucedidas como ‘fatos’, ainda assim elas são, não menos, conjecturas.

E se eventualmente paramos de testar algumas de nossas conjecturas é porque escolhemos assim proceder, porque decidimos tratá-las como menos vulneráveis do que outras. Trata-se, com efeito, de um aspecto perfeitamente geral do método científico[3]. O ponto, vemos, é filosófico. E em filosofia, o uso de “hipótese” ou “conjectura” tem uma aplicação mais ampla, que freqüentemente excede o uso comum da linguagem.

Referências bibliográficas

BULCÃO NASCIMENTO, M. (2008). O Realismo Naturalista de Quine: Crença e Conhecimento sem Dogmas, Campinas: CLE-Unicamp.

QUINE, W, v. (1969). Ontological Relativity and Other Essays, Columbia U. P., New York.

____. (1974). The Roots of Reference, La Salle: Open Court.

____. (1976). The Ways of Paradox and Other Essays, Revised and Enlarged Edition, Cambridge, Massachusetts and London: Harvard University Press.

____. (1990). Pursuit of Truth, Cambridge: Harvard.

____. (1994). Theories and Things, Harvard University Press.

____. (1995). “Naturalism, or Living within One’s Means”, in: Dialectica, vol. 49, n. 2-4; pp. 251-261.


[1]Cf. RR, pp. 23, 43; NLWM, pp. 253-4.

Para as citações da obra de Quine, as seguintes abreviações serão utilizadas: Roots of Reference (RR); “Naturalism, or Living within One’s Means” (NLWM); Pursuit of Truth (PT); Theories and Things (TT). Para dados completos das obras em questão, cf. “Referências Bibliográficas”.

[2] Com efeito, ele escreve: “o teste de qualquer conjectura sobre a tradução de uma linguagem desconhecida deverá ser feito, em última análise, com base no reconhecimento de padrões de comportamento de assentimento e dissentimento que reconhecemos como tais sem testar conjecturas, mas porque são funcionalmente semelhantes aos nossos padrões” (nossos itálicos).

[3] Cf. nosso terceiro capítulo, particularmente as seções sobre “holismo”, onde por exemplo se lê (BULCÃO, 2008, pp. 126; 128):

Assim é que, quando enfrentamos uma experiência adversa, nós temos que tomar decisões em relação a qual(is) dentre as sentenças ou hipóteses em questão considerar como vulnerável(is), qual(is) dentre elas considerar como firme(s)

(…) Entretanto, numa concepção holista da ciência, esse reconhecimento vem acompanhado de uma espécie de “lembrete”: o teste de uma sentença singular é possível porque ou na medida em que o cientista já escolheu “tratar aquela sentença como vulnerável e o resto, no tempo presente, como firme” (TT, 71).

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