O QUE SE DIZ E O QUE SE ENTENDE (Parte 2/2)


O QUE SE DIZ E O QUE SE ENTENDE

O QUE SE ENTENDE E O QUE SE ACREDITA

Se vimos que a interpretação de um discurso, alheio e próprio, é tributária de nossas crenças sobre o mundo, não nos resta senão examinar como formamos nossas crenças sobre o mundo, que mecanismos estão por trás desse processo de formação.

De fato, sabendo como cada indivíduo forja sua versão particular da realidade, aumentamos nossa possibilidade de uma escuta mais atenta e, por conseguinte, nossa possibilidade de reduzir os hiatos entre o que se diz e o que se entende.

* * *

Acontece que falar numa versão particular da realidade nos obriga a tratar de um outro tópico, inescapável a meu ver.

O que se quer dizer precisamente com versão ou versões da realidade?

Que existe uma realidade única e absoluta, subjacente a tudo, e cada um de nós tira dela sua versão? Algo no estilo de Protágoras, que dizia que o homem é a medida de todas as coisas e que portanto a verdade (ou realidade) é relativa e sujeita às idiossincrasias de cada um?

Ou deveríamos pensar antes numa realidade humana, comum a todos, em oposição, por exemplo, à realidade tal como sentida pelos animais? Ou, ainda, deveríamos pensar numa versão quântica da realidade, em oposição a uma versão newtoniana ou einsteiniana da realidade? Ou uma versão científica versus uma versão religiosa da realidade?

Esse debate está longe de ser irrelevante, e as respostas oferecidas a ele fatalmente norteiam todas as demais.

Trata-se, com efeito, de um importante debate epistemológico, um debate que pretende resolver as questões concernentes às possibilidades de conhecimento do mundo. Existe um mundo, uma realidade. Podemos conhecê-la, como, em que grau?

Filósofos se debruçaram sobre isso durante séculos, e a polêmica está longe do fim. Progressos conceituais foram, contudo, a meu ver, feitos.

Tentemos seguir um pouco esse debate, focando primeiramente na abordagem científica do problema e tentando, se houver tempo, fazer um contraponto com a psicanálise.

* * *

Comecemos com a clássica oposição epistemológica:

Assim, de um lado:

A realidade “dada”, esperando para ser desvendada

X

A realidade construída, com intervenção do fator humano.

OU

Uma verdade objetiva, única, valida universalmente

X

Versões concorrentes, com um inevitável elemento de subjetividade.

A ciência assume, em linhas gerais, que o mundo existe independentemente de nós, e que isso traz, inevitavelmente, um certo elemento de objetividade. Isto é, podemos facilmente admitir que os homens podem sumir da terra, mas que nem por isso a terra deixará de existir.

Ou seja, as características deste planeta, do universo como um todo, são (ou seriam) independentes de nós as conhecermos ou não.

De outro lado, entretanto, tudo o que podemos dizer do mundo, todas as características que podemos perceber e descrever do mundo, essas sim dependem de nós em múltiplos aspectos.

O que podemos dizer do mundo depende, por exemplo, do nosso próprio aparato biológico, perceptivo. Depende ainda do que nosso discurso, nossa linguagem, consegue expressar.

Pois justamente esse discurso organizado, sistemático sobre nossa experiência sensorial do mundo é o que se chamará de conhecimento.

Mundo –> estímulos sensoriais –> sentidos + processamento cerebral (complexa interpretação de dados + linguagem)

A ciência usualmente define conhecimento como

Crença racionalmente justificada.

Essa definição é interessante porque ela introduz, pela questão da crença, um inexorável toque de subjetividade. Que ela tenta em seguida neutralizar com a palavra “racionalmente”.

A racionalidade em questão vai dizer respeito ao uso de um método que possa superar as diferenças individuais e, ao fazê-lo, angariar para si os requisitos de objetividade.

Ou seja, o pressuposto subjacente aqui é que objetividade equivale a intersubjetividade. Ou seja, aquilo que vale para todos deve ser objetivamente verdadeiro (ou pelo menos próximo a isso).

Claro que aqui a intrusão de elementos subjetivos é clara e notória, já que aquilo que vale para todos pode ser pensado como aquilo que persuade a todos. E a noção de racionalidade não esconde isso. Quando somos racionais, nos pomos naturalmente de acordo. Essa é, pelo menos, a pretensão (um tanto quanto idealizada, temos de admitir).

Que aspectos são chaves na dita racionalidade (no dito método científico)?

— o uso de uma lógica dedutiva, mediante o qual os múltiplos aspectos de uma teoria ou sistema de crenças devem ser consistentes entre si;

— teste rigoroso para corroboração (ou refutação) das hipóteses;

— (o que implica) crítica permanente e revisabilidade.

A idealização geral do procedimento científico seria então coletar as observações empíricas e organizá-las num sistema lógico dedutivo. Extrair desse sistema conseqüências — as chamadas predições — e testá-las.

As teorias com melhores predições, mais exatas, que mais tenham resistido aos testes, seriam as melhores candidatas para se dizerem verdadeiras descrições da realidade.

Acontece que essa idealização do método científico está longe de corresponder ao que acontece na prática científica.

Em primeiro lugar, porque não há um modo unívoco de organizar a experiência sensível, de organizar todas as observações coletadas.

Em segundo lugar, porque quando há uma observação contrária à predição (uma refutação, portanto, da teoria), ela nos diz que devemos modificar a teoria, mas não nos diz onde.

Ora, tanto pelo primeiro quanto pelo segundo ponto, percebemos que os cientistas se vêem freqüentemente obrigados a tomar decisões que extrapolam o campo da lógica.

Em outras palavras, como em qualquer atividade humana, valores intervêm a todo instante, e os cientistas são obrigados a escolher diferentes teorias, diferentes campos de pesquisa de acordo com os propósitos que lhes parecem, no momento, melhores.

Assim, o que tem ficado cada vez mais claro é que as teorias científicas, antes de serem verdades absolutamente objetivas e acima de qualquer suspeita, são teorias humanas que são aceitas na medida em que satisfazem certos propósitos, certos critérios, critérios humanos.

Em outras palavras, não podemos senão constatar que, num sentido muito claro, o estabelecimento dos propósitos, objetivos, valores, antecede qualquer possibilidade de acordo entre os indivíduos sobre o que quer que seja.

Deste modo, na base mesma de toda discussão epistemológica, deve estar a pergunta:

— por que construímos hipóteses,

— por que construímos teorias sobre o mundo,

— por que sustentamos tal ou qual crença?

— por que, afinal, acreditamos no que acreditamos?

Somente definidos esses propósitos, esses objetivos, é que podemos saber se tal ou qual hipótese, tal ou qual teoria, tal ou qual crença é bem sucedida.

Mas quais são os meus propósitos?

— conhecer, controlar o meio-ambiente, produzir tecnologia?

— conseguir prazer, fama, dinheiro

— conseguir salvação?

Ora, o que a ciência argumenta é que, de um modo geral, seus propósitos serão atingidos mais facilmente se você conseguir um bom guia para antecipar a experiência futura. Isto é, se você conseguir realizar predições bem sucedidas.

O que a ciência argumenta é que seu método para conseguir organizar a experiência sensível e conseguir usar essa experiência passada para antecipar a experiência futura é o melhor método de que dispomos.

Mas observe que concordar com isso é já concordar com uma série de pressupostos tácitos.

De fato, pensemos numa pessoa cujo objetivo maior seja obter a salvação. Suponha ainda que essa pessoa creia que toda a verdade esteja na bíblia e que a bíblia apenas contém o caminho para a salvação.

Esse indivíduo estará disposto a abdicar de todos os benefícios da ciência, renunciará a todas as crenças científicas tanto quanto elas entrem em conflito com a bíblia.

Acaso poderemos chamar esse indivíduo pronta e diretamente de irracional?

Isso é um pouco perigoso, no mínimo porque um aspecto da racionalidade é justamente saber adequar meios para obter determinados fins. Ora, no momento em que este indivíduo definiu como seu objetivo a salvação e a bíblia como meio privilegiado para obtê-la, não parece haver nada mais racional do que renunciar a tudo que a ciência diz que conflite com a bíblia.

Deste modo, para chamar esse indivíduo de irracional teríamos de ir mais longe e questionar outros aspectos de suas crenças.

* * *

Mas voltemos um pouco e tentemos generalizar um ponto importante.

Se pensarmos as teorias científicas, ou quaisquer teorias, como um sistema de crenças, podemos pensar que todos nós mantemos as crenças que consideramos úteis (para nossos propósitos) e revisamos, descartamos, abandonamos as crenças que consideramos nocivas.

Em outras palavras, nossas teorias, nossas crenças — científicas ou não — funcionam como espécies de GUIAS para o futuro, todas elas tendo como pressuposto a idéia de que o futuro será em grande medida semelhante ao passado.

E isso valeria tanto para o cientista, para o fanático religioso, ou o mais comum dos neuróticos.

Isto é, cada um de nós mantém, sustenta, defende seu conjunto de crenças segundo tais crenças se mostrem capazes de satisfazer seus objetivos mais primordiais.

O que vai diferenciar cada caso torna-se agora justamente a definição do que conta como objetivo primordial.

Acreditamos no que é melhor acreditar: mas o que é esse “melhor”?

Percebamos um modelo comum.

Temos um conjunto de experiências que tentamos organizar, experiências a partir das quais geramos nossas crenças, expectativas, generalizações que nos dizem que assim agindo, obtemos o que desejamos.

Se essas crenças, essas regras para ação falham, nós revisamos ou abandonamos tais crenças. Se são bem sucedidas, as mantemos.

ESQUEMA GERAL

Experiência passada ==> organização, generalização (teorias, conjunto de crenças) = guia para antecipar experiência futura ==> predição ==> (a) ou (b)

(a). em caso de sucesso da predição: manutenção da estratégia

(b). em caso de fracasso: revisão ou abandono

Note que esse esquema geral vale tanto para as teorias científicas quanto para nossas crenças ordinárias. Com duas importantes diferenças, porém:

(1). Na ciência, já há uma espécie de acordo prévio sobre os propósitos ou valores (por exemplo, controle do meio ambiente, produção de tecnologia, etc).

(2). Na ciência, esse processo de construção de teorias ou leis é explícito e regido por leis lógicas claramente definidas. De fato, estando as premissas e leis lógicas explicitadas, sabe-se desde logo o que está em jogo quando a teoria dá certo, assim como é mais fácil localizar seus erros quando ela falha.

* * *

Já no nosso caso, agora pensando em nós como indivíduos, pensando no nosso conjunto individual de crenças, a coisa é bem diferente. Em que sentido?

(1). Em primeiro lugar, porque o que conta como sucesso ou fracasso de uma crença freqüentemente não está claro para nós.

(2). Porque o que conta como sucesso ou fracasso de uma crença varia enormemente de indivíduo para indivíduo.

(3). E, finalmente, porque o conjunto global de nossas crenças, teorias ou hipóteses, está longe de ser consistente e, mais, é em grande parte inconsciente. Ou seja, num eventual efeito indesejável de uma determinada crença ou comportamento, não fica bem claro que aspecto de nossas crenças ou comportamentos devemos revisar ou abandonar. Ou como.

E é por isso que a teoria psicanalítica acaba por se tornar um instrumento tão valioso. Porque justamente ela está atenta ao fato de que as nossas estratégias de satisfação dependem de intricados fatores, de intricadas relações de desejo que remontam muitas vezes a experiências remotas e esquecidas.

A psicanálise está justamente atenta à singularidade do conjunto de experiências de cada indivíduo e mais ainda ao fato de que desejos conflitantes estão presentes no corpo de nossa experiência global e de que, por isso mesmo, as nossas estratégias de satisfação não podem seguir uma linha direta, única, “racional”.

E é precisamente por estar atenta a isso, que ela pode melhor preencher os hiatos tão freqüentes entre o que se diz e o que se entende, que ela pode partir do que não se diz e chegar ao que se pretende.

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