O QUE SE DIZ E O QUE SE ENTENDE (Parte 1/2)


O QUE SE DIZ E O QUE SE ENTENDE

O QUE SE ENTENDE E O QUE SE ACREDITA

Comecemos com uma pergunta trivial: o que é preciso para que duas pessoas se entendam?

Uma resposta, não menos trivial, seria: que falem a mesma língua, por exemplo, que ambos falem português.

Entretanto, é fácil imaginar inúmeras situações em que dois falantes da língua portuguesa podem falhar em se entender. Será que um engenheiro e um advogado conseguem se entender bem ao falar de aspectos técnicos de suas respectivas profissões? Um psicanalista e um behaviorista? Dois filósofos?

Para não mencionar diferenças que envolvam grau de instrução ou ainda idade: um professor universitário e um gari certamente terão limitados os assuntos de que podem falar; mas o mesmo pode valer para um sexagenário e um adolescente. Seus respectivos vocabulários serão tributários da educação recebida e da experiência de vida acumulada, e assim grandes diferenças entre os mesmos podem gerar sérios ruídos na comunicação.

* * *

Possuir o mesmo repertório de palavras, porém, não é tudo para uma comunicação bem sucedida. Exemplos de mal-entendidos abundam entre pessoas de mesma classe, cultura, idade ou profissão, o cotidiano está cheio deles.

DOIS exemplos podem nos servir.

(A).

Para quaisquer dois garotos baianos jogando bola, é muito claro que xingar a mãe do outro não é grave ofensa e faz parte da brincadeira. Ambos trocam xingamentos, fazem cara feia, mas rara é a situação em que isso termina em briga. E, se terminar, nunca é apenas pelo xingamento.

Situação diversa acontece com dois garotos sergipanos, em que um só se atreve a xingar a mãe do outro se estiver preparado para tomar um soco.

Em cada caso, porém, as reações são previstas e previsíveis. Houve comunicação.

Mas o que acontece quando um baiano joga bola com um sergipano e xinga sua mãe? Nesse caso, temos uma potencial confusão. O baiano xinga sem intenção de ofender, mas o sergipano ouve aquilo como um sério insulto. A briga só será evitada se, antes do primeiro soco, o mal-entendido for esclarecido, isto é, se o sergipano entender que, do ponto de vista do baiano, aquelas palavras não visam seu significado literal.

De seu lado, o baiano terá aprendido uma valiosa lição, a saber, que do ponto de vista do sergipano, xingamentos são levados a sério e, portanto, devem ser evitados se não se quiser arrumar confusão.

(B).

Um outro exemplo, freqüentemente explorado em filmes e seriados de tevê, é a seguinte situação.

A namorada acaba de experimentar um biquíni e pergunta ao namorado:

— Fulano, olhe bem para mim e diga a verdade: eu estou gorda?

O namorado pára, olha bem, pensa e diz:

— Não, de jeito nenhum.

Dito isso, para total estarrecimento do namorado, ela sai correndo, quase chorando e se tranca no quarto.

Fulano conta o acontecido ao amigo, que lhe diz:

— O que, você olhou para ela? Grande erro! Nessas perguntas, você nunca deve olhar, deve apenas responder, sem pensar duas vezes “claro que não, meu amor, você está linda”.

Brincadeiras à parte, também aqui o mal-entendido se deve a diferenças de perspectivas, a diferenças de pontos de vista quanto ao significado das palavras e das reações que elas devem gerar.

Do ponto de vista do namorado, ele seguiu à letra o que lhe foi pedido e por isso olhou, pensou e respondeu. Isto é, ele agiu como se ele fosse o ouvinte daquelas palavras. O que obviamente conflita com o ponto de vista da namorada, que, insegura de seu corpo, interpreta aquela pausa como hesitação e reforço de suas dúvidas.

* * *

O que vemos, portanto, é que a resposta inicial era por demais vaga. Ambos têm, sim, de falar a mesma língua. Mas que língua? De que grupo, de que tribo? E tão importante quanto: Com que intenção se diz o que se diz? Com quais pressuposições se ouve o que se ouve?

Ainda assim, há algo de valioso naquela resposta inicial. A idéia valiosa e intuitiva por trás dela é de que ambos devem partilhar algo para que possam se entender: partilhar um vocabulário, um conjunto de experiências, partilhar pontos de vista. Partilhar pontos de vista no sentido de que quem fala deve tentar antecipar o modo como suas palavras serão interpretadas pelo ouvinte, e o ouvinte deve tentar detectar a intenção por trás das palavras do falante.

Ou em outras palavras.

Quando falamos qualquer coisa, falamos com uma intenção, com um propósito. De fato, queremos, com nossas palavras, atingir algum objetivo, obter uma determinada reação de nosso ouvinte. Ora, esse objetivo só será atingido se tivermos como, de algum modo, antecipar a reação de nosso ouvinte às nossas palavras. E seremos tão mais capazes de antecipar essa reação quanto mais soubermos de nosso ouvinte, de seus conhecimentos, de suas experiências, de suas crenças. De fato, sabendo de que lugar ele nos escuta, teremos mais chance de nos fazer entender, de conseguir nossos objetivos.

A recíproca é verdadeira, isto é, sabendo de que lugar nos fala nosso interlocutor, mais fácil será interpretar suas palavras, conhecer seus propósitos, antecipar as reações que ele espera, que ele pretende atingir.

* * *

Aplicando isso aos nossos exemplos.

O baiano que soubesse que os sergipanos tendem a interpretar literalmente um xingamento, evitaria o mesmo. Isto é, ele levaria em conta o ponto de vista, o conjunto de crenças dos sergipanos, e, não querendo uma briga, escolheria outro modo de expressar-se.

De outro lado, o sergipano que soubesse que para os baianos certos xingamentos são ditos da boca pra fora, sem qualquer intenção de ofensa maior, poderia facilmente relevar aquelas palavras. Isto é, ele levaria em conta que não havia intenção de dolo e não ficaria ofendido.

Similarmente, o namorado, entendendo que sua namorada não queria mais do que se re-assegurar de seu corpo, responderia prontamente que ela está linda.

Assim como a namorada pode acabar acreditando que está realmente linda se levar em conta que seu namorado talvez não entenda nada de mulheres e por isso parou e pensou antes de responder à sua pergunta.

* * *

Observe que esse tipo de consideração é chave tanto, por exemplo, para a chamada escuta psicanalítica, em que o analista justamente tenta detectar de onde fala o analisando, isto é, que vivências, que experiências, eventos traumáticos ou de satisfação, estão por trás daquele seu discurso; quanto para estudos de retórica ou argumentação, em que se tenta justamente saber com que ouvidos escuta seu interlocutor para tornar seu discurso mais persuasivo.

* * *

Em cada caso examinado, porém, parecemos ter o seguinte esquema.

Estímulos sensoriais –> processamento cerebral –> resposta (verbal, ação)

ou

Sons, palavras –> Interpretação –> Resposta

Ocorre que o processamento cerebral desses estímulos, a interpretação dessas palavras, leva em conta toda a gama de conhecimentos e experiências prévias. Ou seja, o modo como alguém reage a uma palavra, uma frase, um comportamento, um evento qualquer, é tributário do conjunto de suas experiências prévias, do modo como esse indivíduo formou seu conjunto global de crenças, do modo como esse indivíduo forjou sua versão particular da realidade.

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