A FILOSOFIA DE QUINE (PUC-Vozes, 2009)(20 pgs)


A FILOSOFIA DE QUINE

Marcos BULCÃO NASCIMENTO [USP/Fapesp]

mbulcao@gmail.com

In: OS FILÓSOFOS: CLASSICOS DA FILOSOFIA VOL. III

DE ORTEGA Y GASSET A VATTIMO

Rio de Janeiro: PUC-Vozes, 2009

Rossano Pecoraro (Org.)

1 – O FILÓSOFO E SEU TEMPO

2 – A FILOSOFIA DE QUINE

3 – CONCEITOS-CHAVE

4 – PERCURSOS E INFLUÊNCIAS

5 – BIBLIOGRAFIA PRIMÁRIA

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1 – O FILÓSOFO E SEU TEMPO

Willard Van Orman Quine — Van para seus amigos — nasceu em 25 de junho de 1908 em Akron, Ohio, Estados Unidos. Foi o segundo filho de Cloyd Robert Quine e Harriet (Van Orman) Quine.

Tendo-se interessado por matemática desde o segundo grau, Quine fez seu major em matemática e filosofia, no Oberlin College (1930), e apenas dois anos mais tarde defendeu sua tese de doutoramento (sobre os fundamentos da lógica e matemática), desta vez em Harvard, sob a orientação de Alfred Whitehead.

Em Harvard, entrou para nunca mais sair. Aí ele ensinou quase ininterruptamente de 1936 até sua aposentadoria em 1978, à exceção dos períodos compreendidos pela Segunda Guerra Mundial (quando serviu como um oficial da marinha, ajudando a decifrar os códigos utilizados pelos submarinos alemães) e por suas extensivas viagens. Mas permaneceu ativo até o final de sua vida, sempre prolífico em publicações (tão tardias quanto em 1998, contando já com 90 anos) e conferências em todo o mundo.

Logo após o término do doutoramento, Quine conseguiu uma bolsa de estudos que lhe permitiu passar uma temporada na Europa (1932-33) afortunadamente quando, no decorrer da década de 1930, ela vivia um de seus momentos mais efervescentes em termos intelectuais. O jovem Quine freqüentou em Viena os círculos do positivismo lógico e encontrou-se com lógicos da escola de Varsóvia e Praga, o que fez com que tivesse a rara oportunidade de, desde cedo, cercar-se de pensadores de grande calibre. Desta maneira, além dos americanos C. I. Lewis, A. Whitehead e B. F. Skinner, ele encontrou-se com nomes como Bertrand Russell, Alfred Tarski, Kurt Gödel, Alfred Ayer, Moritz Schlick e, the last but not the least, Rudolf Carnap, de quem se considerava discípulo direto e que foi provavelmente a maior influência filosófica de sua vida.

A qualidade de seus trabalhos fez com que a comunidade científica o reconhecesse rapidamente como um lógico de primeira magnitude. Entretanto, embora Quine nunca tenha abandonado a lógica matemática, de 1951 em diante, especialmente depois da publicação de “Two Dogmas of Empiricism” (mais tarde republicado em seu livro de ensaios From a Logical Point of View, 1953), ele adquiriu uma ampla reputação também como um importante filósofo da linguagem na tradição analítica.

De fato, seu “Two Dogmas” tornou-se um dos artigos mais influentes e discutidos da história da filosofia anglo-fônica, poucos trabalhos tendo causado um impacto tão forte na comunidade filosófica. E não poderia ser diferente, uma vez que, nele, Quine consegue minar as próprias bases onde o empirismo tradicional se fundava e, com isso, abrir espaço para um novo modo de pensar as relações entre filosofia, ciência e empirismo, as relações entre a linguagem e o mundo.

Neste trabalho, Quine questiona a clássica distinção entre dois tipos de verdades, uma analítica e meramente baseada na linguagem, e a outra sintética e redutível a observações individuais. Com efeito, ele sustentou que, embora seja óbvio que a verdade dos enunciados depende tanto da linguagem quanto de fatos extralingüísticos, isso não significa que a verdade de cada enunciado em particular seja analisável em um componente lingüístico e um componente factual, tomados isoladamente. Na verdade, ciência e mundo defrontam-se como blocos indivisíveis, e assim Quine propõe, contra a distinção analítico-sintético do empirismo tradicional, uma visão holista para as relações entre linguagem e mundo.

O status de Quine como o filósofo mais respeitado nos Estados Unidos foi confirmado com a publicação de sua obra maior, Word and Object (1960). A tese mais celebrada nesse livro é a da indeterminação da tradução. A partir de um experimento de pensamento, em que concebe um lingüista diante de uma linguagem inteiramente desconhecida, Quine mostra que se podem produzir diferentes manuais de tradução, compatíveis com todos os comportamentos verbais dos falantes, manuais que são, não obstante, incompatíveis entre si. Ora, se Quine tem razão, isso significa que não se pode dizer que a tradução, por exemplo, de ‘gavagai’ por ‘coelho’ é a tradução correta — em detrimento, por exemplo, de ‘partes indestacáveis de coelho’ —, pois ambas as possibilidades (com alguns ajustes nas demais sentenças) estariam respaldadas pelas observações empíricas.

Essa tese desemboca ainda numa outra, a saber, a da indeterminação da referência: saber a que objetos se referem os nativos de uma língua desconhecida depende de como propomos traduzir seus termos nos nossos. Ocorre que a indeterminação da referência não é senão outro nome para a relatividade ontológica, outra tese central na filosofia quineana. De fato, uma vez que não há nenhum significado neutro ou absoluto, independente de uma linguagem, para ‘gavagai’ ou qualquer outra expressão, não há uma classificação previamente determinada para o que se diz existir; há de fato relatividade ontológica (cf. Ontological Relativity and other Essays, 1969): que objetos uma pessoa (ou uma teoria) assume como existentes é relativo ao manual de tradução que ela utiliza (e à linguagem ou teoria de fundo).

Com especulações desse tipo, Quine cruzou a fronteira da filosofia da linguagem com o território da epistemologia. Essa, defendeu ele ao longo de suas obras, deveria ser naturalizada, isto é, ela não deveria ter mais um status privilegiado, à parte, em relação às disciplinas científicas, mas, ao contrário, deveria, ela também, valer-se dos mesmos métodos empíricos de investigação. Em outras palavras, a epistemologia não deveria mais ter o papel de fundamentar, de fora e a priori, a ciência, mas deveria ser, ela também, um capítulo da ciência, nomeadamente da psicologia empírica.

Claro que, assim procedendo, Quine renuncia, desde logo, à pretensão de qualquer justificação absoluta do conhecimento. Sua metáfora favorita para descrever nossa atividade de conhecer é a de marinheiros num barco[1], forçados a repará-lo em pleno mar, sem nenhum porto seguro e independente onde aportar para, então, efetuar os reparos necessários. Deste modo, a conclusão a que Quine chega é que o único papel legítimo da epistemologia é aquele de descrever como o conhecimento é obtido, como a ciência atual atinge as crenças aceitas pela comunidade científica.

Quine é dono de uma extensa obra — mais de 20 livros e 150 artigos — abrangendo áreas tão diferentes como lógica matemática (Mathematical Logic, 1940), teoria dos conjuntos (Set Theory and its Logic, 1963), filosofia da lógica (Philosophy of Logic, 1970), filosofia da linguagem (The Roots of Reference, 1974), ontologia (Theories and Things, 1981) e epistemologia (Pursuit of Truth, 1990). Entretanto, quem conhece bem sua obra e as implicações da mesma logo percebe a articulação e interconexão de seus principais temas e teses, o que lhe vale o justo direito de ser considerado um filósofo “à maneira clássica”, isto é, um filósofo que nos legou, antes de tudo, um sistema de pensamento que aborda as principais questões filosóficas, particularmente aquelas concernentes à teoria do conhecimento e ontologia.

Por sua enorme contribuição e influência no meio filosófico, Quine recebeu muitas distinções e prêmios, merecendo especial menção o Rolf Schock Prize (Estocolmo, 1993) e o Kyoto Prize (Tokyo, 1996).

Quine vem a falecer no Natal de 2000, aos 92 anos, deixando quatro filhos de seus dois casamentos, além de seis netos e um bisneto.

2 – A FILOSOFIA DE QUINE

Do Empirismo sem Dogmas ao Realismo sem Dogmas

Para muitos, Quine é o crítico do empirismo clássico, o filósofo da doutrina da tradução radical, do holismo em ciência, da relatividade ontológica, da subdeterminação das teorias científicas pela experiência. E é verdade. De fato, no projeto quineano, seus interlocutores privilegiados foram aqueles que podem ser ditos defensores do chamado empirismo tradicional, cujos “dois dogmas” Quine denunciou em seu famoso artigo. Podemos mesmo dizer que o projeto quineano como um todo teve em mente uma espécie de “reorientação” desse empirismo, uma reorientação que implicava precisamente livrá-lo de seus dogmas e que pôde ser levada a cabo mediante seu aclamado naturalismo.

O que foi pouco explorado, porém, é o fato de que o naturalismo quineano, mesmo se originalmente concebido como resposta ao empirismo tradicional, acaba por nos fornecer também os instrumentos conceituais necessários para reorientar o realismo em ciência. O que foi pouco explorado, sobretudo, é o fato de que toda a obra de Quine pode ser pensada como a construção laboriosa, rica e quase paradoxal de um novo realismo, um realismo que dá, em última instância, todo o sentido e originalidade a seu naturalismo[2].

Nesse sentido, explorar o debate sobre o realismo, particularmente o científico, afigura-se desde já como um fio condutor privilegiado para apresentar o sistema filosófico quineano, para mostrar como Quine, a partir de um empirismo sem dogmas, erige um realismo sem dogmas, o seu realismo naturalista.

O realismo científico, nós podemos definir brevemente como uma tese filosófica que argumenta a favor da idéia de que as teorias científicas descrevem o mundo apropriadamente. Admite que a ciência ambiciona a verdade e que tem tido sucesso em sua busca. Seu argumento principal, bastante plausível à primeira vista, é que ou as teorias científicas da ciência moderna realmente descrevem apropriadamente o mundo (ainda que apenas aproximadamente), ou o seu incrível sucesso preditivo só poderia ser obra de um milagre[3].

O realismo científico entende, então, que as teorias científicas oferecem sentenças (aproximadamente) verdadeiras, cujos termos centrais típica e relevantemente se referem a objetos no mundo. Isto significa dizer que a ciência nos propicia adquirir não apenas conhecimento empírico, tecnológico (conhecimento dos observáveis, manifesto no acerto das predições científicas, seu sucesso instrumental), como também conhecimento teórico (afirmação da existência das entidades pressupostas por suas leis, mesmo daquelas que são inobserváveis).

De fato, é uma característica marcante das teorias científicas atuais a postulação ou assunção de existência de determinadas entidades ou estruturas inobserváveis subjacentes aos fenômenos macroscópicos que observamos. Assim, por exemplo, teorias físicas dizem que as mesas que observamos são na verdade compostas de moléculas, as quais são compostas de átomos, os quais são compostos de outras partículas ainda menores, como elétrons e quarks.

A partir desse procedimento padrão no modo de fazer ciência hoje, o argumento central do realismo científico diz então que devemos, dado o fantástico sucesso preditivo, crer que essas entidades inobserváveis supostas ou postuladas (a) realmente existem e (b) são aproximadamente tais como as descrevem as teorias científicas maduras. A essas duas, acrescenta-se ainda uma terceira tese, a saber, que (c) a substituição eventual de uma teoria madura por outra implica uma preservação relevante da estrutura explicativa da teoria anterior (isto é, há uma depuração, não propriamente uma substituição, no quadro conceitual em questão)[4].

Contudo, a tese realista científica enfrenta algumas dificuldades. Argumentos contra as noções de verdade aproximada, de progresso e preservação relevante (dos elementos de uma teoria na outra), além da tese da indistinguibilidade evidencial e dos importantes casos advindos da história da ciência (em que entidades postuladas por teorias muito bem sucedidas foram mais tarde descartadas — o caso do éter sendo o mais famoso deles) podem ser aqui mencionados. Um dentre esses argumentos nos interessa particularmente, a saber, a tese da indistinguibilidade evidencial, mais conhecida como problema da subdeterminação da teoria pelos dados. Realmente, se diferentes teorias podem ser suportadas pelo mesmo conjunto de dados, como assumir uma como sendo a verdadeira, em detrimento da outra?

Ora, nesse contexto, a tese quineana da relatividade ontológica parece desferir à tese realista científica golpe ainda mais duro. De fato, Quine mostra que a relação entre a teoria e seu suporte empírico depende antes da estrutura lógica da teoria do que de sua ontologia assumida. Com efeito, ele mostrou que se pode alterar a ontologia de uma teoria qualquer sem comprometer seu sucesso preditivo, isto é, sem alterar sua relação de suporte evidencial.

Mas se isso é correto, então não se veria como deduzir — do fato de uma teoria científica ser extremamente bem sucedida — que sua ontologia é a verdadeira ontologia do mundo, no sentido de a única e correta ontologia capaz de dar conta dos fenômenos observados e observáveis. O que Quine claramente mostra é que “é indiferente para o sucesso da teoria em suas predições” possuir esta ou aquela ontologia: para propósitos estritos de predição e suporte evidencial, o que importa é a estrutura lógica da teoria, as conexões lógicas entre suas sentenças (PT[5], 31). Ora, neste caso, o argumento central do realismo científico — a respeito da passagem do sucesso preditivo para a existência dos objetos postulados — parece estar severa ou mesmo irremediavelmente comprometido.

Entretanto, tudo isso posto, e mesmo depois de avançar um argumento que acaba por fazer “referência e ontologia retrocederem assim ao status de meros auxiliares” (PT, 31), Quine não assume uma posição anti-realista. Ao contrário, Quine diz de si mesmo que ele é antes um “realista robusto e irregenerado”. O que é ainda mais interessante é que Quine declara — aparentemente bem ao gosto da tese realista científica — que “o mundo é como a ciência natural diz que ele é, na medida em que a ciência está certa; e nosso julgamento quanto a se ela está certa, sempre tentativo, responde perante o teste experimental das predições” (SN, 9: nossos grifos). Pareceria, então, que Quine estaria, de algum modo, como que reeditando o argumento realista científico da passagem do sucesso preditivo à assunção ontológica. Ora, certamente não é esse o caso. Mas, não o sendo, onde, então, situar a diferença entre essa afirmação quineana e aquela do realismo científico? Em uma palavra, no naturalismo.

Cabe investigar, portanto, que arcabouço conceitual o naturalismo disponibiliza que permite neutralizar os impactos aparentemente negativos — tanto da falibilidade alegada da ciência, quanto da tese da relatividade ontológica — no realismo quineano, embora não no realismo científico.

Podemos desde logo perceber que, embora o problema central do realismo científico diga respeito, naturalmente, à assunção de objetos em geral, há claramente um enfoque especial concernindo à assunção de objetos inobserváveis.

Com efeito, é em relação a estes que as principais argumentações — e objeções — têm lugar. Devemos ou não crer em objetos inobserváveis? — eis a pergunta que guia todo o debate. Com efeito, os argumentos dados — pró ou contra — dizem respeito, em sua maioria, a por que devemos estar confiantes em crer na existência de tais objetos postulados pelas nossas melhores teorias científicas ou a por que não devemos crer ou, pelo menos, por que devemos permanecer agnósticos a respeito de tal existência. A confiança na crença de tais objetos, vimos brevemente, está atrelada à confiança no sucesso das respectivas teorias científicas que os postulam. A desconfiança ou prudência, se se quiser, diz respeito à constatada falibilidade das teorias científicas, à alteração freqüente em sua ontologia (muitas vezes radical) e, conseqüentemente, à falta de uma garantia contumaz, definitiva, absoluta quanto a tal existência. Não havendo tal garantia, por que deveríamos dar nosso assentimento a tais objetos? Van Fraassen pode ser aqui invocado para sumariar o ponto: deveríamos crer no que as teorias científicas nos dizem a respeito dos observáveis; quanto aos inobserváveis, continuemos agnósticos[6].

Nos objetos observáveis, portanto, pareceríamos ter amplas razões para crer, teríamos razões para estarmos confiantes em sua existência. Nós poderíamos até melhorar nossas concepções quanto às suas características ou propriedades, mas não pareceríamos poder estar errados quanto à sua existência. A observação dos mesmos pareceria fornecer toda a garantia necessária para nossa assunção deles e nossa crença neles.

Os objetos inobserváveis, ao contrário, escapariam, por definição, à possibilidade mesma de nos fornecer tal garantia. Não podendo ser observados, só podem ser assumidos a partir de uma cadeia inferencial.

O problema aqui é que, dado o desenvolvimento constante da ciência, tal cadeia inferencial pode acabar sendo posta de lado, seja porque ela se revelou equivocada, incompleta ou desnecessária, seja porque uma outra teoria, melhor, veio a oferecer um outro complexo de cadeias inferenciais que nos conduzem a uma outra ontologia inteiramente diferente.

Podemos lembrar o caso do éter, que deixou, após Einstein, de ser uma entidade do mundo descrito pela ciência. Para não mencionar o clássico argumento da subdeterminação ou da própria relatividade ontológica, que nos mostram a possibilidade de diferentes ontologias com o mesmo suporte empírico e, portanto, indicam uma certa “arbitrariedade” quanto a que ontologia assumir.

Em outras palavras, seja pela falibilidade, seja pela suposta arbitrariedade envolvida nos casos de subdeterminação, não pareceríamos ter razões, garantias suficientes para crer em tais entidades. Naturalmente, dada sua utilidade no processo científico, teríamos de aceitá-las, em alguma medida, como parte da teoria; mas nossa crença, pareceria mais prudente recusá-la.

Ora, acontece que o naturalismo nos oferece um novo modo de pensar as relações entre conhecimento e crença, particularmente no que diz respeito à questão da assunção ontológica. O que Quine nos faz perceber é que nossa aceitação de uma ontologia se torna “similar em princípio à nossa aceitação de uma teoria científica, por exemplo, um sistema de física: nós adotamos, pelo menos na medida em que somos razoáveis, o esquema conceitual mais simples nos quais os fragmentos desordenados da experiência bruta podem ser agrupados e arranjados” (LP, 6).

Ora, acontece ainda que, dada a concepção holista de ciência, a evidência que suporta a nossa melhor teoria disponível a suporta como um todo e, nesse caso, não pareceríamos mais bem garantidos em crer numa parte da teoria (por exemplo, aquela concernente aos objetos observáveis) do que na outra. Além disso, todos os objetos são, na visão quineana, teóricos, de modo que a diferença entre os objetos observáveis e inobserváveis, se há alguma importante, é de grau.

Bem, de grau ou não, é certo que a diferença existe, e o próprio Quine concede certo “privilégio” aos objetos observáveis, lhes concede, em algum sentido, uma “maior confiabilidade”. Com efeito, Quine diz acreditar inabalavelmente em coisas externas — pessoas, paus, pedras. E diz acreditar também, “se menos firmemente, em átomos e elétrons e classes” (TT, 21).

Como interpretar agora esse “grau diferenciado de crença”, em relação aos objetos observáveis versus objetos inobserváveis e/ou abstratos? Se as considerações que fazemos a respeito da ciência são holísticas e se, ao afirmarmos (a verdade de) uma teoria, afirmamo-la como um todo, como agora declarar maior ou menor confiança em relação às suas partes?

A verdade é que, sob uma reflexão cuidadosa, não há grandes mistérios aqui. Com efeito, nas próprias considerações sobre o holismo podemos perceber que, quando realizamos o teste de uma teoria, o cientista em geral já tomou sua decisão quanto a que enunciados considerar como sendo mais “vulneráveis”.

Vemos, deste modo, que não é estranha ao cientista a idéia de que, embora ele possa adotar uma teoria como um todo (enquanto, por exemplo, ela se mantiver consistente com os fenômenos observados), partes de seu sistema sejam vistas como mais vulneráveis. Vulneráveis, isto é, a elas ele renunciaria mais facilmente. Tomemos as verdades matemáticas, por exemplo. Numa concepção holista, elas obteriam seu estatuto de “verdades necessárias” não porque são “analíticas” ou verdadeiras necessariamente por convenção lingüística, mas antes porque, ou no momento em que, o cientista entende que sua rejeição reverberaria intoleravelmente ao longo de seu sistema e, por isso, prefere renunciar a outros grupos de enunciados a sacrificá-las.

Nesse raciocínio, o grau “superior” de confiabilidade de que os objetos observáveis parecem desfrutar poderá ser explicado pelo fato de que os enunciados que afirmam sua existência são enunciados aos quais nós também não veríamos como renunciar. Afinal, são presumivelmente os nossos conceitos mais antigos, as categorias mais enraizadas em nosso processo de conceitualização, são os conceitos sem os quais o próprio processo de sistematizar a experiência parece perder o sentido. Nesse caso, tal superioridade, a alta confiabilidade em relação aos objetos observáveis, se deveria ao fato de que não saberíamos (ou não imaginaríamos como seria) viver, sistematizar a nossa experiência, cotidiana e outra, sem fazer a eles referência (além disso, poderíamos lembrar ainda que é a tais conceitos que voltamos quando a comunicação enfrenta problemas; é sobre eles que temos menos mal-entendidos na comunicação).

De outro lado, a “inferioridade” — e portanto desconfiança — em relação aos objetos inobserváveis, conversamente, estaria calcada em que, num certo sentido, podemos conceber como seria a vida, a sistematização da experiência, cotidiana e outra, sem a eles fazer referência. Concebemos isso pelo fato de que vemos a história da ciência presentear-nos com exemplos de entidades descartadas, vemos a história da ciência acenar-nos com modos revolucionários de pensar as partículas elementares, porque vemos até mesmo a ciência acenar-nos com a possibilidade de sequer pensarmos em termos de partículas elementares.

Entretanto, se é verdade que podemos conceder algum tipo de privilégio epistemológico aos objetos observáveis, isso não deve servir de argumento, por sua vez, para a retirada da crença nos objetos inobserváveis. Isso porque, se compreendermos que tipo de evidência temos para a assunção de objetos, observáveis e inobserváveis, poderemos compreender que essa “prudência agnóstica” deve dar lugar a uma crença, a uma crença matizada, por certo, mas a uma crença.

Realmente, o que devemos perceber é que a evidência que dizemos ter para a existência dos corpos de senso comum é, num certo sentido, do mesmo tipo que aquela que se pode dizer que temos para a existência de moléculas. “A postulação dos dois tipos de corpos é boa ciência na medida em que nos ajuda a formular nossas leis — leis cuja última evidência reside nos dados dos sentidos do passado, e cuja última vindicação reside na antecipação dos dados dos sentidos do futuro” (WP, 237). O ponto-chave aqui é que,

“tendo notado, deste modo, que o homem não tem evidência para a existência de corpos além do fato de que sua assunção o ajuda a organizar a experiência, nós deveríamos, em vez de desacreditar a evidência para a existência de corpos, concluir: tal, então, no fundo, é o que evidência é, tanto para corpos ordinários como para moléculas” (WP, 238)(nossos grifos).

O que o naturalismo faz, assim, é compreender a ciência como um empreendimento humano, falível por certo, mas que, por não haver uma filosofia primeira ou tribunal superior, deve ela resolver seus próprios problemas, suas próprias questões, com os recursos que lhe são disponíveis. Faltando um árbitro superior, a ciência decide sobre seus problemas e respostas, sobre seus métodos para resolvê-los bem como sobre a confiabilidade relativa deles. Concebendo-se, desde o ponto de partida, como falível, a ciência nessa visão naturalista não pretende obter justificações e garantias absolutas. As justificações e garantias, ela as obtém a partir do respeito ao seu método hipotético-dedutivo, método de hipótese e teste de suas predições. Método este que está, ele também, sujeito a alterações, melhorias, correções: ou seja, um método que se revelou, até aqui, o melhor método de que dispomos, mas que não oferece nenhum tipo de garantia absoluta.

Ora, acontece que uma parte importante da investigação científica diz respeito ao que existe, ao que é real. A ciência oferece uma resposta a tais questões, sempre via conceitos feitos pelo homem, e não pode oferecer melhor (nem precisamos pedir mais). Não podendo escapar para um esquema conceitual exterior, privilegiado, infalível, a ciência pensa a questão da verdade imanentemente. Desde então, perde sentido ou legitimidade toda busca que persiste em tentar definir como é ou seria a realidade em termos absolutos, uma realidade que seria concebida transcendentalmente ao pensar em modos de existência fora dos parâmetros ditados pela própria ciência.

O ponto é, então, que, não reconhecendo o naturalismo nenhuma verdade mais elevada do que aquela que a ciência oferece ou procura, nós não podemos senão falar sempre de dentro de nosso sistema de mundo corrente quando estamos atribuindo verdade, não há outro modo de falar[7]. É certo que “nosso sistema muda, sim. Quando ele o faz, nós não dizemos que a verdade mudou com ele; nós dizemos que nós havíamos erroneamente suposto que algo era verdadeiro e aprendemos depois que não. Falibilismo é a palavra-chave, não relativismo. Falibilismo e naturalismo” (PPE, 33-4) (nossos grifos).

Ocorre que, pelas mesmas razões por que o naturalismo recusa uma filosofia primeira, o naturalismo deve também recusar a idéia de um parâmetro último para além da teoria que ora entretemos. Mas, sendo esse o caso, vemos que assumir uma postura naturalista implica recusar parte crucial do próprio cenário em que a argumentação realista científica tem lugar. O cenário em questão é o apelo para uma noção transcendente de verdade (e realidade) com que se compromete o realismo científico. Quine e o naturalismo, ao contrário, entendem que “verdade é imanente, e não há mais elevada”. E o mesmo vale para toda atribuição de realidade, que deve ser feita de dentro de uma teoria do mundo: “é incoerente de outro modo”.

Estabelecer essa distinção é crucial. De fato, essa distinção mostra imediatamente por que a “conciliação” propiciada pelo naturalismo (entre relatividade ontológica e realismo) não está disponível para o realismo científico. Isso significa, em primeiro lugar, que aquilo que conta como condição necessária e suficiente para um realista se dizer “científico” não é o que conta como condição necessária e suficiente para um realista se dizer “naturalista”. De outro lado, isso significa que aquilo que conta como crítica e ameaça à postura realista científica não necessariamente se constitui como crítica ou ameaça à postura realista naturalista.

Que Quine não pode ser um realista científico, esse é um ponto praticamente incontroverso. Que Quine não possa abraçar nenhuma concepção de realismo, isso é que tentamos mostrar não ser o caso. A possibilidade de reconciliação entre realismo e relatividade ontológica é o naturalismo, com sua concepção imanentista de verdade e realidade. O que vemos é que essa “redefinição do cenário” não apenas permite a Quine ser realista, mas mesmo o obriga, num certo sentido, a sê-lo.

O ponto importante a ressaltar aqui é que, apesar de criticar severamente a posição realista científica, as doutrinas anti-realistas parecem aceitar, ainda que tacitamente, as “regras do jogo”, elas parecem desenvolver todo seu enredo no interior desse “cenário”. Realmente, o que parece ser tacitamente assumido também pelo anti-realismo é a existência possível de uma teoria verdadeira que pode servir de parâmetro último, capaz de fornecer as respostas cabais para todas as nossas possíveis questões. Vamos explorar um pouco essa idéia.

O realista científico diz que as teorias científicas atuais, dado seu sucesso preditivo, devem ser consideradas boas aproximações em relação a essa teoria verdadeira última. Nesse caso, as entidades postuladas por tais teorias são assumidas como existentes e aproximadamente tais como as descrevem as teorias científicas atuais. A posse efetiva de tal teoria final decidiria a questão, isto é, diria se realmente as nossas seqüências de teorias constituíram aproximações sucessivas a essa descrição verdadeira última. Definiria, por exemplo, se elétrons existem e quão próxima da verdade a descrição do elétron fornecida pela teoria T chegou. A aceitabilidade da proposta do realismo científico depende portanto, em primeiro lugar, da noção de uma teoria verdadeira última e, em segundo lugar, do fato de as teorias científicas atuais se aproximarem dessa verdade. A existência de tal teoria ultimamente verdadeira, por sua vez, implica a aceitação de uma noção transcendente de verdade.

O anti-realista, por outro lado, diz não saber se tais entidades existem realmente ou não. Quarks podem existir realmente ou não, mas dadas as nossas condições presentes de conhecimento (que incluem considerações sobre subdeterminação, por exemplo), não temos como decidir a respeito. Acreditamos que a teoria dá conta dos fenômenos, mas o máximo que podemos fazer é crer em sua verdade quanto aos observáveis (lembremos de Van Fraassen: o cientista só deve crer na adequação empírica da teoria, isto é, que ela é verdadeira quanto aos observáveis). Quanto aos inobserváveis, devemos ser agnósticos.

Acontece que, recusada a noção de uma verdade transcendente, não fica bem claro o que significa ser, em princípio, agnóstico sobre a existência dos objetos inobserváveis.

É claro que uma posição naturalista não impede o cientista de declarar-se agnóstico sobre a existência de determinadas entidades. Entretanto, não se trata de um agnosticismo “em princípio”. Antes, quando um cientista declara ser agnóstico ou ter dúvidas sobre um determinado aspecto da teoria científica — digamos, a postulação de certa entidade —, suas dúvidas devem ser entendidas como tensões internas à própria teoria científica, como uma espécie de “falha”, se se quiser, por parte desse aspecto da teoria ou dessa entidade, em satisfazer os próprios critérios do método científico.

A ciência presente pode, assim, ter dúvidas, questões não muito bem definidas e algumas respostas em aberto; entretanto, se somos naturalistas, nenhuma dessas dúvidas tem suas possíveis respostas fora de uma ciência humana, atual. Na verdade, o ponto é estabelecido por Quine de modo ainda mais impactante: se não há verdade a ser encontrada fora da ciência, se a ciência presente é o árbitro mais elevado para decidir questões de verdade e realidade, então a conclusão que se impõe é que, dentro do naturalismo, não há questões que sejam ao mesmo tempo significativas e em princípio irrespondíveis[8].

Realmente, tratando verdade e realidade imanentemente, recusando pontos de vista privilegiados exteriores ou futuros, é a ciência atual que tem a palavra final sobre o que considerar como existente ou não. Ora, se a ciência atual tem a palavra final, não há como sustentar que incertezas sobre matéria de existência sejam em princípio insolúveis dentro da própria ciência. Deste modo, um agnosticismo tout court sobre inobserváveis, não importa quão amplas e boas sejam as evidências que venham a estar disponíveis para o cientista, não parece aqui ter lugar. Se a ciência for tida como o árbitro final e mais elevado, uma atitude realista quanto às entidades requeridas para a teoria ser verdadeira — no caso de satisfeitos os critérios metodológicos do método científico em questão — parece decorrer naturalmente.

Essa algo longa digressão sobre agnosticismo e anti-realismo tem o intuito de realizar um trabalho de descolagem. Com efeito, trata-se de descolar a proposta quineana não apenas do realismo científico, mas das tradicionais propostas anti-realistas. A descolagem mais importante, então, é a descolagem desse “óbvio anti-realismo científico quineano” das tradicionais propostas anti-realistas em filosofia da ciência. Tal descolagem é crucial para perceber, desde já, que esse anti-realismo científico quineano não se alinha junto às demais propostas anti-realistas científicas, para perceber que Quine é não apenas um anti-realista científico, mas também — se nos for permitida a expressão — um anti-anti-realista científico. Recusado o cenário anterior, isto é, recusados ambos os lados da contenda, resta a Quine assumir a posição que lhe cabe, a de realista, sim, mas um realista naturalista.

Acreditamos que os argumentos ora aventados são inteiramente suficientes para defender uma coerente postura realista para Quine. Gostaríamos aqui, entretanto, de explorar adicionalmente um aspecto da teoria quineana que talvez venha sendo negligenciado. O que gostaríamos de explorar aqui é o fato de que a visão de Quine a respeito de subdeterminação mudou ao longo de sua obra e que isso pode ter conseqüências importantes para o modo como enxergamos tanto a tese da relatividade ontológica quanto o realismo quineano.

Com efeito, pela tese da relatividade ontológica, enuncia-se que, do ponto de vista estrito da evidência, “é indiferente para o sucesso da teoria em suas predições possuir esta ou aquela ontologia” (PT, 31). A relatividade ontológica vai, deste modo, apontar para o fato de que a relação da teoria com a evidência depende fundamentalmente da estrutura lógica da mesma e que, portanto, se pode mudar a ontologia da teoria sem dano para seu suporte evidencial. Que duas teorias podem, portanto, ser empiricamente equivalentes e, ainda assim, ter ontologias distintas. Empiricamente equivalentes, isto é, elas têm as mesmas conseqüências empíricas, contam com o mesmo suporte empírico.

Essa tese pode ser demonstrada, por exemplo, através do que Quine chamou de proxy functions. Proxy function é uma espécie de mapeamento de um universo dentro do outro, mapeamento que nos mostra como um domínio de objetos pode ser eliminado — por meio de uma reinterpretação — em favor de algum outro universo (ou domínio de objetos) , talvez uma parte própria do primeiro (OR, 55; TT, 17-9).

Um exemplo que pode ser dado é o seguinte. Suponhamos uma proxy que reinterprete cada objeto de uma formulação de modo a designar, em seu lugar, seu complemento cósmico. Deste modo, “Zeca” não mais designaria o cachorro, mas o cosmos inteiro menos o cachorro; o mesmo valendo para os demais objetos. “Reinterpretando o resto de nossos termos para corpos de modo correspondente, nós terminamos com uma ontologia intercambiável com a nossa familiar”. Naturalmente, “como [ocorre com] todas [as demais], elas são empiricamente indistinguíveis. Corpos continuam, sob cada reinterpretação, a ser distintos de seus complementos cósmicos (…); eles são distinguidos num modo relativístico, por seus papéis relativos um ao outro e ao resto da ontologia” (PT, 33-4).

Tratar-se-ia, portanto, pareceria, de um caso clássico de subdeterminação, em que as respectivas ontologias seriam subdeterminadas pela evidência empírica disponível. Sendo empiricamente equivalentes, ambas as teorias, embora com ontologias diferentes, teriam o mesmo suporte evidencial.

Exemplo similar de subdeterminação pode ser obtido através do famoso experimento quineano da tradução radical. O exemplo de ‘gavagai’ vem, naturalmente, aqui à mente. Tendo observado os nativos dizerem ‘gavagai’ sempre que na presença de um coelho, o lingüista propõe “coelho” como sua tradução privilegiada. Mas o que impediria o lingüista de escolher “coelhidade” ou “‘partes indestacáveis de coelho’”? — pergunta Quine. Sim, porque sempre que se aponta para um coelho aponta-se inevitavelmente também para ‘partes indestacáveis de coelho’ ou para uma manifestação de ‘coelhidade’. Deste modo, e sem entrar aqui em maiores detalhes, cabe perceber que tais traduções, embora incompatíveis entre si, são compatíveis com todos os comportamentos verbais dos falantes, e, portanto, não haveria como justificar, de um modo puramente empírico, a preferência de uma tradução em relação à outra. A tradução revela-se, assim, indeterminada (OR, 31-5).

Mas queremos chamar a atenção aqui, sobretudo, para as alterações que a doutrina da subdeterminação sofreu e que podem dar novas cores à problemática da relatividade ontológica e suas implicações para a discussão sobre realismo ou anti-realismo. De fato, essa é uma questão que parece crucial. Assim, ao examinar a questão concernente a duas teorias empiricamente equivalentes, Quine se pergunta: se elas são empiricamente equivalentes, em que sentido são duas teorias (em oposição, por exemplo, a duas formulações da mesma teoria)?

Em busca dessa resposta, ele define: duas formulações expressam a mesma teoria se elas são empiricamente equivalentes e há uma reconstrução de predicados[9], reinterpretação de termos ou intertradução que transforma uma teoria num equivalente[10] lógico da outra (EESW, 320; TT, 29).

Entendamos o que está em jogo através de alguns casos.

(A). Suponhamos duas formulações de teoria, idênticas uma à outra, exceto pelo fato de que alteramos dois de seus termos que são puramente teóricos, isto é, que não aparecem em nenhuma sentença de observação, por exemplo, molécula e elétron. Assim, o que uma formulação chama de molécula, a outra chama de elétron, e vice-versa (EESW, 319; NNK, 80; PQ, 517; TT, 28).

Claramente as duas formulações são empiricamente equivalentes, pois implicam os mesmos categóricos observacionais[11]. De fato, os categóricos observacionais permanecem idênticos, já que eles não contêm aqueles termos. Entretanto, as duas formulações da teoria estão em contradição, são logicamente incompatíveis, pois o que uma diz sobre moléculas, a outra nega e atribui aquelas propriedades a elétrons (EESW, 319; NNK, 80; TT, 28-9).

Temos, desde então, duas opções.

Ou entendemos tratar-se de duas teorias alternativas ou rivais explicando as observações, as quais discordam a respeito das propriedades de elétrons e moléculas, ou temos uma teoria e uma diferença terminológica (PQ, 517).

Quine entende que optar pela primeira alternativa seria como que trivializar a diferença entre teorias, pois mesmo o “homem da rua” protestaria dizendo que se trata da mesma teoria, já que bastaria trocar de volta os dois termos para o conflito ser resolvido. Em termos mais técnicos, o conflito poderia ser trivialmente “resolvido tratando uma formulação como não inteiramente portuguesa, e traduzir suas respectivas palavras ‘molécula’ e ‘elétron’ nas portuguesas ‘elétron’ e ‘molécula’” (EESW, 319-320; PQ, 517).

Em outras palavras,

“relativamente ao manual de tradução homofônico — a transformação de identidade —, os dois textos de física estão em contradição lógica. Relativamente a outro e melhor manual de tradução, o qual é homofônico exceto para traduzir molécula por elétron e vice-versa, os dois textos concordam inteiramente. O segundo manual de tradução é melhor no fato de que ele maximiza a concordância” (PQ, 517)(nossos grifos).

Deste modo, com a reinterpretação dos termos em uma formulação, as duas formulações são tornadas idênticas e, portanto, esse exemplo não vale como um bom caso de rivalidade entre teorias. Quine, por isso, nega que haja qualquer diferença real: as duas formulações devem ser consideradas, antes, como formulações da mesma teoria (EESW, 319; PQ, 517).

(B). Um outro “exemplo familiar é a geometria riemanniana e euclidiana enquanto aplicada à superfície de uma esfera. A geometria riemanniana diz que linhas retas sempre se encontram. A geometria euclidiana diz que algumas se encontram, e outras não, e em particular que não há nenhuma numa esfera”. Aqui também, o conflito pode ser resolvido por meio de uma reinterpretação, nesse caso “reinterpretando ‘linha reta’ no glossário riemanniano como ‘círculo máximo’” (PT, 96).

(C). Ora, o que devemos observar nesse momento é que também a permutação dos objetos realizada pelas proxy functions gera, similarmente, um conflito que pode ser facilmente resolvido. De fato, o que faz uma proxy function senão realizar uma reinterpretação dos predicados (da formulação) da teoria, fazendo correlações um-a-um entre os antigos e os novos objetos e preservando, deste modo, todas as conexões lógicas?

Mas, se assim é, no caso de duas formulações de teoria, uma qualquer e sua proxy, elas tampouco valerão como um bom caso de rivalidade no momento em que tal conflito pode ser resolvido também por meio de reinterpretação de termos ou predicados, nesse caso fazendo o mapeamento contrário. Desta forma, também aqui, as duas formulações são tornadas idênticas [reconciliadas] via reinterpretação dos termos em uma das duas formulações. Mas, nesse caso (como no caso visto de Zeca e seu complemento cósmico), diante de tais formulações conflitantes, nós também poderíamos declarar tal conflito como meramente terminológico.

De fato, as duas formulações estão em conflito relativamente a um manual de tradução homofônico. Entretanto, nós poderíamos tratar a segunda formulação como não sendo (inteiramente) portuguesa e traduzir “complemento cósmico de Zeca” por “Zeca” e vice-versa, o mesmo procedimento sendo aplicado aos demais objetos. Com isso, relativamente agora a esse outro e melhor manual de tradução, os dois textos passam a concordar inteiramente. Novamente, esse manual de tradução é melhor pelo fato de que ele maximiza a concordância, isto é, ele reconcilia uma formulação com a outra sem perturbar, naturalmente, os seus respectivos conteúdos empíricos.

Ou seja, o que Quine está dizendo é que formulações de teoria empiricamente equivalentes para as quais encontramos um modo de intertradução não contam como exemplos válidos de rivalidade ou de subdeterminação. Os únicos casos agora que contam como exemplos legítimos de subdeterminação, o conflito verdadeiramente significativo será, então, aquele entre “formulações de teoria que se mostrem empiricamente equivalentes, logicamente incompatíveis e, ponto-chave, que não possam ser reconciliadas via qualquer tipo de reconstrução de predicados ou tradução. É esse o conflito que requer reconhecimento, é esse conflito que explicita o que está realmente em jogo na doutrina da subdeterminação” (EESW, 322)[12].

Ora, ocorre que o conflito posto pela relatividade ontológica não entra nesse caso específico. Sim, pois vimos que, se de um lado, as proxy functions nos ensinam a gerar teorias com ontologias distintas preservando sua estrutura lógica e, portanto, seu conteúdo empírico; vimos, de outro lado, que o caso das proxy functions podem ser relidos como casos de indeterminação da tradução.

Dito isto em outras palavras, temos que essas duas teorias contavam aparentemente como duas teorias, mas, a partir de um manual de tradução adequado, podem agora ser pensadas como duas formulações da mesma teoria e, portanto, como um conflito não significativo ou desinteressante.

Ora, quer parecer que aqui se podem tirar pelo menos duas conseqüências a nosso ver importantíssimas.

  • A primeira é que a tese da relatividade ontológica talvez não possa ou não deva mais ser utilizada como argumento para dizer de Quine que é anti-realista. Pelo menos não quando vemos como enunciar regras de tradução que reconciliariam as duas teorias empiricamente equivalentes. E isso simplesmente porque não se pode mais dizer que se tratava de duas teorias.
  • A outra conseqüência é perceber que há várias maneiras, vários discursos igualmente defensáveis capazes de descrever o mundo, o universo. Mas que, apesar disso, precisamos recorrer a um deles, e que é nesse discurso, em suas palavras, que vamos descrever a realidade.

Ora, mas concordar com isso não equivaleria a dizer que, para Quine, o discurso, as palavras e conceitos que utilizamos, teriam um papel meramente instrumental e que, portanto, as acusações de anti-realismo entrariam pela porta do fundo?

Aqui devemos lembrar do debate anterior. Se tomarmos como base o cenário em que se movem realistas e anti-realistas científicos, por exemplo, a resposta seria certamente sim. Entretanto, não podemos esquecer que, para Quine, não há filosofia primeira, não há verdade transcendental, como não há, tampouco, a possibilidade de uma realidade não conceitualizada.

Deste modo, se é verdade que a decisão quanto a que discurso utilizar — entre dois discursos empiricamente equivalentes e intertraduzíveis, naturalmente — traz algo de arbitrário (no sentido de empiricamente indeterminado), ainda assim temos de escolher um discurso e será nos seus termos, nos termos dessa teoria, imanentemente portanto, que a realidade será descrita. Não pode ser diferente e não precisamos pedir melhor.

A conseqüência que talvez tenhamos de tirar é não que Quine não possa ser um realista — ele o é — mas que, para Quine, o discurso, as palavras e conceitos utilizados não têm nenhum vínculo essencial com a natureza descrita. Usamos o discurso para falar da realidade, sim, mas o mesmo não é, em nenhum sentido — para tomar de empréstimo uma expressão de Rorty — um “espelho da natureza”.

O que tivemos oportunidade de ver, assim, é que, com o naturalismo quineano, nós podemos, sim, falar de conhecimento e de crença. Conhecimento do mundo, crença na realidade de seus objetos. A diferença é que, para Quine, isso não implica nenhuma garantia absoluta. As garantias são internas ao método científico, falível por certo, virtualmente em perpétuo desenvolvimento. A diferença é que Quine renuncia — e o faz desde o ponto de partida — àquele conhecimento absoluto, final. Recusa mesmo a idéia daquele conhecimento que, embora falível, pretende estar indo na direção do conhecimento absoluto, final, definitivo. A ele assim renunciando, bem como a qualquer projeto fundacionista, Quine fica com as verdades internas às melhores teorias de que o homem dispõe em sua renovada tentativa de dar conta do mundo, de sua experiência. Com o naturalismo, Quine consegue reorientar o empirismo tradicional e escapar de seus dogmas. Incidentalmente, ou melhor, necessariamente, nessa reorientação do empirismo, ele também reorienta o realismo em ciência e nos permite adotar uma posição realista em ciência que é não-dogmática. Em Quine, crença e conhecimento são possíveis, mas nem por isso são definitivos, absolutos; eles são sem dogmas.

3 – CONCEITOS-CHAVE

Quando o nome “Quine” é mencionado, alguns conceitos ou teses filosóficas vêm imediatamente à lembrança. Pensamos nos “dois dogmas do empirismo” e a sua contraproposta, o holismo; na indeterminação da tradução e da referência; na relatividade ontológica e na histórica máxima “ser é ser o valor de uma variável”; e, finalmente, nos lembramos da epistemologia naturalizada. De fato, são noções que, pela originalidade e/ou impacto que causaram na comunidade filosófica, merecem a honra de serem tão amplamente conhecidas e discutidas. Deste modo, um passeio, ainda que breve, contemplando esses principais conceitos encontra-se plenamente justificado.

NATURALISMO

Quine parte de uma valorização positiva de nossa ciência[13]. Ele entende que a ciência é o esquema conceitual mais poderoso de que dispomos para compreender e lidar com a natureza. Realmente, as teorias científicas conseguem organizar a experiência humana de um modo sistemático e sem precedentes, sendo capazes não apenas de unificar ordens antes esparsas de conhecimento, como também de realizar predições extremamente bem sucedidas e produzir tecnologia. Entendimento global, controle e modificação do ambiente, ampla capacidade preditiva. Eis objetivos precípuos, fundamentais da ciência (PT, 2).

Dentre esses, a capacidade preditiva merece destaque, já que é a partir dela que uma teoria pode ser testada e, conseqüentemente, angariar para si a confiança da comunidade pertinente. Com efeito, predições reiteradamente bem sucedidas constituem fortes argumentos para manter uma teoria; fracassos constituem importante razão para recusá-la. Deste modo, se a predição não precisa ser definida como o principal objetivo da ciência, ainda assim ela é “o que decide o jogo” (PT, 20). Ora, temos que predição é, sobretudo, predição de estimulação, de modo que evidência é, para Quine, evidência sensorial (RR, 2; OR, 75). Assim, a epistemologia é, para Quine, empirismo.

Mas qual é a fonte, poder-se-ia perguntar, desse princípio empirista, de que toda evidência para a ciência é evidência sensorial? Trata-se da própria ciência.

É “a ciência mesma [que] nos ensina que não há clarividência; que a única informação que pode atingir nossas superfícies sensoriais a partir de objetos externos deve ser limitada a projeções óticas bidimensionais e a vários impactos de ondas de ar nos tímpanos e algumas reações gasosas nas passagens nasais (…)” (RR, 2).

Essa doutrina de Quine, que prescreve o uso da ciência natural para estudar a ciência natural, a “naturalização” portanto da epistemologia, é conhecida como naturalismo. Desta maneira, Quine toma a própria epistemologia não como um ramo preliminar e fundamental, no sentido de ramo a legitimar o saber científico, mas a toma como parte integrante da própria ciência. Temos, assim, uma enriquecida via de mão dupla: a epistemologia pode ajudar a compreender e sistematizar as diferentes partes da ciência; as ciências particulares podem, por sua vez, oferecer subsídios para as investigações epistemológicas[14].

HOLISMO

Mencionamos que Quine mina as bases do empirismo tradicional ao denunciar seus dois dogmas: o dogma da distinção analítico-sintético e aquele do reducionismo.

Tradicionalmente, a distinção analítico-sintético como que recobre a distinção entre duas classes de enunciados: uma cujo valor de verdade depende da ocorrência (ou não) de fatos no mundo, outra cujo valor independe do confronto com a experiência, sendo, antes, estabelecido de acordo com critérios internos ao próprio processo de expressão lingüística. Os primeiros enunciados são ditos sintéticos, os segundos, analíticos.

O reducionismo, por sua vez, diz respeito à crença de que cada enunciado significativo é equivalente (redutível) a algum construto lógico sobre termos que se referem à experiência imediata (LP, 20). Ambos os dogmas estão indissociavelmente vinculados à teoria verificacionista do significado, segundo a qual o significado de um enunciado ou sentença é o método de, empiricamente, confirmá-lo ou infirmá-lo.

É interessante aqui perguntar que funções essas duas teses desempenham para o empirismo tradicional, que importância elas têm para seu projeto epistemológico.

“O projeto epistemológico empirista aparece (…) como um projeto de fundamentação das ciências. Ele bifurca-se em duas direções: uma conceitual, preocupada com a análise dos significados dos enunciados científicos, outra doutrinal, preocupada com o assentamento da verdade desses enunciados”[15].

Tal projeto possuía como motivação a tentativa de explicitar e clarificar o que se constitui como evidência sensorial para a ciência, de tentar, sobretudo, discernir o que conta como evidência para cada enunciado científico. O projeto, contudo, fracassa.

O fracasso acontece porque não é o caso que cada enunciado científico sobre o mundo tem seu próprio fundo de implicações empíricas (LP, 40-1). Esse equívoco decorre, segundo Quine, de uma concepção particular, e falsa, das relações vigentes entre linguagem e mundo. A relação entre um enunciado e a experiência não é direta e independente, mas é sempre mediada por uma teoria. Um enunciado individual por si só não possui conteúdo empírico. Na verdade, “ciência e mundo defrontam-se como blocos indivisíveis, e a idéia de que ao recorte de uma teoria em enunciados corresponde um recorte análogo do mundo em fatos não pode pretender senão o estatuto de dogma”[16]. Deste modo, contra a distinção analítico-sintético, Quine propõe a tese da indivisibilidade do significado empírico da ciência, o reconhecimento de que a unidade de significância empírica concentra-se não na sentença, tomada individualmente, mas no corpo ou sistema de sentenças, numa palavra, na teoria. Como antídoto para os dogmas do empirismo tradicional, uma visão holista da ciência[17].

INDETERMINAÇÃO DA TRADUÇÃO E DA REFERÊNCIA

Essa impossibilidade de separar, absolutamente, o que é da ordem da linguagem (significado) e o que é da ordem da experiência pode ser exemplarmente constatada no famoso experimento de pensamento quineano, o da tradução radical.

Pensemos num lingüista tentando traduzir uma língua totalmente desconhecida. Ao examinar essa situação, Quine mostra que traduções diferentes e incompatíveis entre si podem ser propostas e, ainda assim, ser inteiramente compatíveis com o comportamento verbal dos falantes em questão. Ele mostra, além disso, que tais traduções podem recortar o mundo bem diferentemente, isto é, que elas podem postular objetos diferentes como sendo os referentes das expressões nativas. De fato, conforme se proponha traduzir ‘gavagai’ por ‘coelho’ ou ‘coelhidade’ ou ainda ‘partes indestacáveis de coelho’, ontologias inteiramente distintas serão atribuídas aos nativos.

Ora, mas se tais traduções, embora incompatíveis entre si, são compatíveis com todos os comportamentos verbais dos falantes, então não há como justificar, empiricamente, a preferência de uma tradução em relação à outra. Tendo como base estritamente a evidência empírica, ele não tem como decidir que ontologia atribuir a esses falantes nativos. Com isso, constatamos não apenas a indeterminação da tradução, mas também a indeterminação da referência ou relatividade ontológica.

CIÊNCIA E ONTOLOGIA

A indeterminação da referência ou relatividade ontológica atravessa tanto a linguagem ordinária quanto a científica. Realmente, assim como falar em determinação da referência (de um termo ou expressão) só faz sentido em relação a uma linguagem constituída, parece não menos certo que, mutatis mutandis, não podemos falar significantemente sobre a ontologia de uma teoria senão “relativamente a uma teoria de fundo com sua própria ontologia primitivamente adotada e, no final das contas, inescrutável”[18] (OR, 51). O que vai mudar é que, no discurso científico, a ambigüidade e vagueza que caracterizam o uso da linguagem ordinária são eliminadas através de critérios precisos de assunção ontológica. De fato, se, na linguagem ordinária, detectamos tacitamente nossas assunções ontológicas através, por exemplo, do uso de pronomes e termos singulares, em ciência dispomos de um critério explícito de assunção ontológica: a teoria assume como objeto tudo que cai sob o escopo de uma variável ligada[19] ou, seguindo a famosa máxima quineana, “ser é ser o valor de uma variável”.

Com tal critério (e todo o aparato lógico da quantificação), a ciência consegue eliminar o que é vago ou impreciso no uso referencial da linguagem ordinária e delimitar com rigor os comprometimentos ontológicos de uma teoria.

4 – PERCURSOS E INFLUÊNCIAS

Com sua vasta e, podemos mesmo dizer, revolucionária obra, Quine é certamente um dos grandes nomes da filosofia do século XX, tendo sua força intelectual moldado a filosofia anglo-americana nos últimos 50 anos e constituído ponto de referência obrigatório para a discussão dos principais temas relativos à filosofia da lógica, da linguagem e da ciência. Se a filosofia empírica tinha sido dominada pelo positivismo lógico nos anos 30 e 40, a partir dos anos 50 e 60, ela passa a ser crescentemente dominada pela versão quineana do empirismo, notadamente do que pode tornar-se o empirismo tradicional uma vez expurgado de seus “dois dogmas”.

Esse prestígio é facilmente constatado tanto pelo número impressionante de livros e artigos sobre sua obra, quanto pela notoriedade de muitos de seus estudantes e discípulos, que são explícitos sobre a importância de seu pensamento para as respectivas formações e carreiras.

Como significativo exemplo, no ano seguinte à sua morte, foi publicada uma coleção de cinco volumes sobre sua obra, contendo 140 artigos selecionados entre mais de 2000 que haviam sido escritos, o que o colocava no topo dos filósofos mais discutidos por outros filósofos. Um testemunho dado por Ernie Lepore, no Harvard University Memorial sintetiza o fato:

“Em agosto de 1999, no congresso mundial de filosofia em Boston, as referências à filosofia de Van eram lugar comum. Participantes de lugares tão distantes quanto Novasibirsk, Beijing and Bombay, de toda a Europa, oriental e ocidental, Oriente Médio, América do Sul e Central, sentiam-se completamente em casa discutindo, por exemplo, a indeterminação da tradução, a inescrutabilidade da referência, a subdeterminação da teoria, relatividade ontológica, tradução radical e epistemologia naturalizada. (…) O que era mais impressionante era que, a cada vez que uma tese era mencionada, o falante apenas assumia que todos os presentes iriam entender o que estava sendo discutido. É difícil imaginar um testemunho maior para a substância e durabilidade das realizações de um filósofo”.

Já do lado de sua experiência docente direta, Quine tem em sua lista de estudantes em Harvard nomes importantes como os de Donald Davidson, Hillary Putnam e Daniel Dennett; Burton Dreben, David Lewis e Charles Parsons; Gilbert Harman, William Craig, Dagfinn Follesdal, Michael Devitt e Hao Wang, todos eles desfrutando hoje de grande prestígio na comunidade filosófica.

Dentre esses, especial destaque deve ser dado a Donald Davidson, que é, sem dúvida, um de seus mais influentes discípulos, especialmente se nos restringimos ao âmbito da filosofia analítica e da linguagem. Entretanto, o interesse e importância dos trabalhos de Davidson hoje extrapolam tais limites. De fato, desde alguns anos, seus textos vêm sendo amplamente traduzidos, e assim Davidson tem alcançado uma audiência que se estende para além dos países de língua inglesa e tradição em filosofia analítica, conseguindo, com isso, influenciar pensadores de um grande leque de áreas. Dos filósofos contemporâneos, talvez apenas Quine tenha tido uma influência e recepção similares.

O valor que Davidson confere à contribuição do pensamento de Quine ao seu próprio pode ser sentido tanto na dedicatória de seu famoso livro Inquiries into Truth and Interpretation (“to W. V. Quine, without whom, not”), quanto em conceitos centrais de sua filosofia, como, por exemplo, sua teoria da interpretação radical, numa clara referência a Quine e sua teoria da tradução radical.

Com efeito, analogamente ao que Quine tentou fazer em seu experimento da tradução radical, Davidson analisa o que é necessário para a compreensão, para a interpretação do comportamento lingüístico de um falante sem pressupor nenhuma espécie de conhecimento anterior. O primeiro e mais básico problema a ser enfrentado, ele diz, é que, de um lado, não há como atribuir significado às proposições do falante sem conhecer algo sobre suas crenças e, de outro, não há como conhecer qualquer coisa sobre suas crenças sem saber o significado do que ele diz. Essa interdependência inescapável entre crença e significado é o ponto essencial do problema a ser enfrentado e exige, deste modo, que a teoria da interpretação radical seja, ao mesmo tempo, uma teoria da crença e uma teoria do significado.

Assim formulado, o problema parece insuperável. No entanto, Davidson nos chama a atenção para uma saída, e esta é encontrada através da aplicação do chamado princípio de caridade, o qual equivale à tentativa de otimizar, maximizar a concordância entre nós mesmos e aqueles que interpretamos. Sua instrução básica consiste em que se tente interpretar os falantes como sustentando crenças verdadeiras (ainda que por nossas luzes) onde quer que isto seja possível.

Qual é a idéia de Davidson? Davidson raciocina que, se assumimos que as crenças do falante estão em amplo acordo com as nossas próprias, e assim são amplamente verdadeiras (na nossa opinião), então podemos usar nossas próprias crenças sobre o mundo como um guia para as crenças do falante. Mas, nesse caso, dada a interconexão entre crença e significado, podemos então usar nossas crenças como um guia para os significados das proferições do falante. E, com isso, temos deste modo uma base para ambas, uma teoria rudimentar da crença e uma explicação preliminar do significado.

Ou seja, o que a teoria da interpretação radical nos mostra é que o próprio entendimento da linguagem não se completa sem o entendimento das condições de verdade das sentenças proferidas, e isto alça a verdade à condição de conceito preliminar, primordial, sem o qual, sem cuja apreensão prévia e primeira, não só a linguagem, como o próprio pensamento é impossível. A verdade é o conceito mais básico e claro que nós temos e é assim “tolice querer definir a verdade” em termos de conceitos supostamente ainda mais claros e primitivos. O que nós podemos – e devemos – fazer, diz Davidson, é iluminar as conexões desse conceito central com outros conceitos não menos importantes, como linguagem, crença, pensamento, uma vez que são essas conexões que tornam a verdade a chave de como a mente apreende o mundo. E é precisamente a essa tarefa – o de iluminar e elucidar tais conexões – que Davidson vem consagrando seus principais escritos filosóficos.

Ora, se é certo que Davidson escreve em reação a Quine, nós podemos dizer que Richard Rorty — um outro grande e influente nome da filosofia contemporânea — escreve em reação a Quine e Davidson, dando nova mostra da ramificação da influência de Quine na comunidade filosófica, para não mencionar também filósofos como Peter Strawson e Wilfried Sellars, cujas posições, mais ou menos críticas em relação ao pensamento quineano, não deixam de cotejar suas teses mais importantes. Realmente, o que se pode constatar é que, seja-se quineano ou anti-quineano, dificilmente hoje, em matérias relacionadas à lógica, filosofia da linguagem e da ciência, se pode prescindir de ter o trabalho de Quine no horizonte das discussões filosóficas.

Por toda sua força e originalidade, assim, Quine é sem dúvida um autor que merece ser lido, um autor que se alinha na tradição intelectual que inclui nomes como Gottlob Frege, Bertrand Russell, Rudolf Carnap, Kurt Gödel e Alfred Tarski e que traz contribuições das mais importantes para a filosofia contemporânea. O que Quine e esses notáveis pensadores têm em comum é sua capacidade de vislumbrar alternativas que ninguém antes havia pensado, e essa pode ser dita a marca distintiva de um grande filósofo, o que faz com que a força e influência de suas obras transcendam o momento histórico particular em que viveram.

5 – BIBLIOGRAFIA PRIMÁRIA

PRINCIPAIS LIVROS

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1993. “In Praise of Observation Sentences”, in: The Journal of Philosophy, vol. 90, n. 3, 1993, pp. 107-116.

1993. “Three Indeterminacies”, in: Barrett, R. & Gibson, R (eds.) Perspectives on Quine, Oxford UK, Cambridge USA: Blackwell, 1993.

1995. “Naturalism, or Living within One’s Means”, in: Dialectica, vol. 49, n. 2-4 (1995); pp. 251-261.

1996. “Progress on Two Fronts”, in: The Journal of Philosophy (April 1996), 93(4): 159-163.

1998. “Replies”, in: The Philosophy of W. V. Quine: expanded edition, eds.: Schilpp, P.A.; Hahn, L.E, La Salle, Illinois, Open Court.

TRADUÇÕES

Além de O Sentido da Nova Lógica, escrita originalmente em português, as seguintes obras de Quine estão disponíveis para os leitores de língua portuguesa.

1972. Filosofia da Lógica. Rio de Janeiro: Zahar Editores (tradução de Therezinha Alvim Cannabrava).

1975. Relatividade Ontológica e Outros Ensaios, in: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural.

“Falando de objetos” (tradução de Oswaldo Porchat Pereira)

“A Relatividade Ontológica” (tradução de Oswaldo Porchat Pereira)

“Epistemologia Naturalizada” (tradução de Andréa Loparic)

“Existência e Quantificação” (tradução de Andréa Loparic)

“Espécies Naturais” (tradução de Andréa Loparic)

“Objetos Proposicionais” (tradução de Andréa Loparic)

1975. De um Ponto de Vista Lógico, in: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural.

“Sobre o que há” (tradução de Luiz Henrique Lopes dos Santos)

“Dois Dogmas do Empirismo” (tradução de Marcelo Guimarães da Silva Lima)

“Identidade, Ostensão, Hipóstase” (tradução de João Paulo Monteiro)

Em língua espanhola, por sua vez, podem ser encontradas traduções para os seguintes livros:

1972. Lógica Matemática.

1981. Los métodos de la lógica.

1963. Desde un ponto de vista lógico.

1968. Palabra y Objeto.

1974. La Relatividad Ontológica y otros ensayos.

1977. Las raíces de la referencia.

1986. Teorías y Cosas.

1993. La Búsqueda de la Verdad.

1998. Del estímulo a la ciencia.


[1] Freqüentemente referido como o barco de Neurath, a quem se atribui a metáfora.

[2] Cf. BULCÃO NASCIMENTO, M. 2008. O Realismo Naturalista de Quine: Crença e Conhecimento sem Dogmas. Coleção CLE, v. 51. Campinas: UNICAMP-EDUNESP.

[3] BOYD, R. 1984. “The Current Status of Scientific Realism”. In: Leplin, J (ed.) Scientific Realism. Berkeley: University of California Press. Pp. 41-82, p. 49.

[4] Com efeito, “o realista [científico] deve poder defender uma tese histórica a respeito da história recente das ciências relevantes segundo a qual suas realizações envolvem aproximado conhecimento teórico e de acordo com a qual progresso teórico tem sido feito…”. “O realista deve empregar uma concepção de verdade aproximada, de conhecimento aproximado e de progresso teórico que dê sentido ao recente desenvolvimento das teorias científicas” (BOYD, R. 1990. “Realism, Approximate Truth And Philosophical Method”, in: SAVAGE, W (ed.) Scientific Theories, Minnesota Studies in the Philosophy of Science, vol. XIV, University of Minnesota Press, Minneapolis, pp. 355-391, pp. 355-6).

[5] As obras de Quine serão citadas respeitando as seguintes abreviaturas: LP (From a Logical Point of View); OR (Ontological Relativity and Other Essays ); WP (The Ways of Paradox and Other Essays); WPE (The Ways of Paradox and Other EssaysRevised and Enlarged Edition); PT (Pursuit of Truth); TT (Theories and Things); EESW (“On Empirically Equivalent Systems of the World”); NNK (“The Nature of Natural Knowledge”); PPE (“The Pragmatist’s Place in Empiricism”); PQ (Reply to J. J. C. Smart’s “Quine on space-time”. In: The Philosophy of W. V. Quine); SN (“Structure and Nature”).

[6] VAN FRAASSEN, B. The Scientific Image, Clarendon Press, Oxford: 1980.

[7] Para evocar uma metáfora famosa, devida a Neurath, nós estamos como que dentro de um barco flutuante e dele não podemos sair, nunca. Esse barco é nosso mundo, é a realidade como apreendida através de nossa linguagem, de nossas teorias.

[8] “A questão era se há questões — questões significativas — a que o homem poderia em princípio nunca responder. Nesta filosofia, a resposta a esta questão é não” (WPE, 67).

[9] Observe-se que essa reconstrução ou reinterpretação de predicados não precisa obedecer a limites estreitos. Com efeito, Quine nos diz que “não deveríamos limitar a permutação a uma troca de dois predicados; nós deveríamos permitir permutação de muitos. Finalmente, seria arbitrário requerer dessa transformação que se limitasse a transformar predicados sempre em predicados simples de uma palavra. A noção intuitiva, afinal, era uma reconstrução de predicados; e o modo geral de reconstruir um predicado de n lugares é provendo uma sentença aberta em n variáveis, não importando se efetivamente existe uma palavra em nossa linguagem com a mesma extensão que aquela sentença aberta”. Na seqüência, Quine precisa sua definição de reconstrução de predicados.  “Por uma reconstrução de predicados de nossa linguagem, correspondentemente, quero dizer qualquer mapeamento de nosso léxico de predicados em nossas sentenças abertas (predicados de n-lugares para sentenças de n-variáveis). Assim, o predicado “mais pesado que” pode ser mapeado para a sentença aberta “x é mais pesado que y”, um mapeamento de identidade não mudando nada, enquanto os predicados ‘molécula’ e ‘elétron’ podem ser mapeados para as respectivas sentenças abertas ‘x é um elétron’ e ‘x é uma molécula’, produzindo nosso exemplo” (EESW, 320).

[10] Note-se que a reconciliação via reconstrução de predicados não precisa exigir a identidade de formulações. Realmente, “uma vez que formulações logicamente equivalentes deveriam em qualquer caso contar como formulações da mesma teoria (cf. supra), nós não deveríamos exigir que uma troca de termos torne as formulações idênticas; nós deveríamos exigir apenas que ela as torne logicamente equivalentes”.  Diremos, assim, que as teorias são as classes de equivalência daquela relação de equivalência. São classes, portanto, de formulações de teoria (EESW, 320-321).

[11] Brevemente, os categóricos observacionais são uma espécie de combinação de duas sentenças de observação na forma “quando quer que isto, aquilo”, e pode-se dizer que expressam nossas expectativas generalizadas.

[12] Em Pursuit of Truth, ao contrário, a questão da incompatibilidade lógica é superada, e a subdeterminação passa a dizer respeito apenas a (formulações de) teorias empiricamente equivalentes, logicamente compatíveis, mas conflitantes agora no sentido de a teoria alternativa à nossa conter termos teóricos não redutíveis aos nossos. Para efeitos da argumentação aqui empreendida, no entanto, essa alteração não traz efeitos significativos.

[13] De fato, contrariamente a Carnap, por exemplo, Quine não se dedica a criticar a metafísica ou a prová-la “destituída de sentido” e, como contraponto, provar a “significatividade” das proposições científicas.

[14] E, uma vez que Quine não pretende usar a filosofia ou a epistemologia para fundamentar e legitimar a ciência, o círculo em que o raciocínio incorre é claramente não-vicioso. “Estamos atrás de uma compreensão da ciência como uma instituição ou processo no mundo e não pretendemos que este entendimento seja em nenhum sentido melhor do que a ciência, que é seu objeto” (OR, 84).

[15] Cf. Lopes dos Santos, L.H., “Quine e os dogmas do empirismo”, in: Discurso n. 6, São Paulo: Discurso Editorial, 1995, in: Discurso n. 6, São Paulo: Discurso Editorial, 1995, p. 62. Sobre esse modo de caracterizar o projeto empirista, cf. OR,  Epistemology Naturalized, in Ontological Relativity and Other Essays, pp. 69-90.

[16] Cf. Lopes dos Santos, L.H., “Quine e os dogmas do empirismo”, op. cit., op. cit., p. 67.

[17] Quine menciona cinco pontos-chave, a partir dos quais o empirismo teria mudado para melhor. “O primeiro é a mudança de idéias para palavras. O segundo é a mudança do foco semântico de termos para sentenças. O terceiro é a mudança do foco semântico de sentenças para sistemas de sentenças. O quarto é, na expressão de Morton White, monismo metodológico: o abandono do dualismo analítico-sintético. O quinto é naturalismo: abandono da meta de uma filosofia primeira anterior à ciência natural” (TT, cf. Quine, W.v. Theories and Things, op. cit., p. 67).

[18] Há, em verdade, uma dupla relatividade: relatividade com relação à escolha da teoria de fundo e relatividade com relação à escolha de como traduzir a teoria-objeto na teoria de fundo (OR, 67).

[19] Mais especificamente, sob o escopo do quantificador existencial.  Com efeito, a teoria assumirá todos os objetos que forem necessários para que seja verdadeira. Ora, visto que um enunciado universal pode ser vacuamente verdadeiro, percebemos que o comprometimento ontológico da teoria se radica de fato nos enunciados existencialmente quantificados.

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